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O Retrato Oval

Tradução de Marcelo Bueno de Paula
O castelo em que meu criado obrigara-se a forçar a entrada,
evitando de deixar-me, em minha desesperada condição de ferido,
passar a noite ao relento, era uma daquelas construções
mesclando melancolia e grandeza que durante muito tempo
elevaram-se entre os Apeninos, seja na realidade ou na
imaginação da Sra. Radcliffe. Tudo indicava seu abandono
temporário e recente. Acomodamo-nos num dos quartos menores e
menos suntuosamente mobiliados. Este, situado num remoto torreão
do edifício. Sua decoração era rica, porém avariada e antiga. As
paredes assentavam tapeçarias e exibiam diversos e multiformes
troféus heráldicos, juntamente com uma desusada abundância de
espirituosas pinturas modernas em molduras de ricos arabescos
dourados. Tais pinturas pendiam das paredes não só de suas
principais superfícies, mas de muitos recessos que a bizarra
arquitetura do castelo julgara necessários; telas a que talvez
meu incipiente delírio investiu-me de profundo interesse. Em
razão disso, tratei de ordenar a Pedro o fechamento dos fortes
postigos do cômodo – pois anoitecera –, o acendimento de um alto
candelabro que se encontrava à cabeceira de minha cama e a
abertura completa das franjadas cortinas de veludo negro que
envolviam o leito. Queria que tudo fosse arrumado para que
pudesse, caso não adormecesse, distrair-me entre a contemplação
das pinturas e a leitura de um pequeno volume que achara sobre o
travesseiro, contendo a crítica e a descrição delas.
Por longo, longo tempo li, e devotadamente fitei as obras.
Rápidas e gloriosas, as horas voaram trazendo a meia-noite. A
posição do candelabro desagradava-me, e estendendo a mão com
dificuldade, para não perturbar o sono de meu criado, mudei-o a
fim de que sua luz incidisse mais em cheio sobre o livro.
Todavia, a ação produziu um efeito imprevisto. Os raios das
numerosas velas – eram muitas – agora iluminavam um nicho do
quarto que até aquele momento estivera coberto em intensa
penumbra por uma das colunas do leito. Deste modo acabei vendo,
assomado pela vívida luz, um quadro que não notara antes. Era o
retrato de uma jovem, quase mulher feita. Olhei-o rapidamente e
fechei os olhos. Não logrei explicar a princípio os motivos de
meu ato à minha própria percepção. Mas enquanto tinha as
pálpebras destarte fechadas, recapitulei na mente minha reação
de tê-las descido. Fora um movimento impulsivo com o intuito de
ganhar tempo para pensar, certificar-se de que os olhos não me
enganaram, acalmar e predispor minha fantasia para uma
observação mais moderada e racional. Instantes depois, novamente
fixei o olhar na pintura.
O que agora via, não poderia e tampouco queria duvidar; pois o
primeiro clarão das velas sobre a tela afastara o onírico
estupor que me roubou os sentidos, despertando-me à realidade.
O retrato, como disse-o, era o de uma jovem. Consistia-se apenas
de uma cabeça e ombros, executado com o feitio do que
tecnicamente costuma-se denominar de vinheta; ao estilo das
cabeças favoritas de Sully. Os braços, o busto e as pontas dos
radiantes cabelos dissolviam-se imperceptivelmente na vaga, mas
profunda, sombra que formava o fundo do conjunto. A moldura era
oval, ricamente dourada e filigranada à maneira mourisca. Como
obra de arte, nada poderia ser mais admirado do que aquela
pintura em si. Entretanto, não teria sido a elaboração da obra,
nem a imortal beleza daquela face, o que repentinamente e com
tanta veemência alterou-me. Também não haveria de crer que minha
fantasia, abalada de seu semi-repouso, confundira a cabeça com a
de uma pessoa viva. Entendi que as peculiaridades do desenho, do
vinhetado e da moldura, dissiparam instantaneamente esta idéia e
devem ainda ter impedido qualquer distração momentânea.
Ponderando seriamente acerca destes pontos, permaneci, quem sabe
uma hora, meio sentado e meio reclinado, com a vista pregada ao
retrato. Enfim, satisfeito com o verdadeiro segredo de seu
efeito, caí de costas na cama. Descobrira o feitiço do quadro no
que ele expressava de absoluta semelhança com a vida, a qual, de
início espantou-me para em seguida me confundir, dominar e
apavorar. Com grande e reverente receio, recoloquei o candelabro
em sua posição anterior. Estando a causa de minha forte agitação
colocada fora de vista, examinei ávido o volume com o estudo das
pinturas e suas histórias. Buscando o número que designava o
retrato oval, li as vagas e singulares palavras que se seguem:
“Era uma donzela de rara beleza, não mais amável do que cativa
da alegria. Má foi a hora em que viu, amou e desposou o pintor.
Ele, apaixonado, estudioso, austero, e tendo já em sua Arte uma
noiva; ela, além de formosa e alegre, mostrava-se toda luz e
sorrisos, e irrequieta como uma corça nova; amando e afagando
todas as coisas; odiando unicamente a Arte, a sua rival;
receando só a paleta, os pincéis e outros desfavoráveis
instrumentos que a privavam de seu amado. Significava, portanto,
algo terrível para esta dama ouvir o pintor falar de seu desejo
de retratar sua jovem mulher. Contudo, por ser humilde e
obediente, ela sentou-se ternamente por muitas semanas na
umbrosa e alta câmara da torre, onde a luz alcançava a pálida
tela somente do teto. Mas ele, o pintor, sublimava-se através de
sua obra, que continuou por horas e horas, dias e dias.
Apaixonado, impetuoso e taciturno, era um homem que se perdia em
devaneios; não conseguia perceber que a luz que caía tão lúgubre
naquela torre isolada debilitava a saúde e o espírito de sua
mulher, que definhava visivelmente, consumindo-se para todos,
exceto para ele. Prosseguia ela ainda a sorrir imóvel, sem
reclamar, dado constatar que o pintor – que gozava de enorme
reputação – adquiriu um arrebatado e ardente prazer em sua
tarefa, e atravessava dia e noite para representar a que tanto o
amava; a companheira que dia após dia arruinava-se e
enfraquecia. E em verdade, os que olharam o retrato falaram, em
voz baixa, de sua semelhança como de uma poderosa maravilha, e,
não menos, prova da força do pintor tanto quanto de seu imenso
amor pela que retratava tão insuperavelmente bem. Finalmente,
como o trabalho aproximava-se de sua conclusão, ninguém mais era
admitido na torre, visto que o pintor enlouquecera com o ardor
de sua obra, raramente tirando os olhos da tela, mesmo para
divisar o rosto da esposa; sequer percebendo que as tintas que
espalhava sobre a tela eram tomadas das faces da que sentava ao
seu lado. Assim, quando muitas semanas haviam transcorrido, e
pouco restava a fazer, salvo uma pincelada na boca e um retoque
nos olhos, o espírito da dama novamente bruxuleou tal a chama de
uma candeia. Então, feitos a pincelada e o retoque, por um
momento, o pintor deteve-se extasiado ante a obra que realizara.
Porém, enquanto ainda admirava-a, passou a tremer e empalideceu,
gritando: ‘Isto de fato é a própria Vida’. Abruptamente,
voltou-se para fitar sua amada: estava morta!”
MARCELO BUENO DE PAULA é editor do Guia de Literatura
SobreSites (http://www.sobresites.com/literatura).
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