O quadro azul

Era num quadro azul que pensava. Um quadro de bordas douradas, com um vidro protegendo-a do exterior. A visão era tão nítida e tão grandiosa em seu pensamento, que era a única que cabia nele, o vidro tão límpido ainda, que parecia querer se estilhaçar com o solavanco do carro. Pegou-o de surpresa, a visão nítida de algo que a muito esquecera, se é que algum dia chegara realmente a pensar nele como coisa, objeto existente de fato em seu universo. Agora o objeto era uno, sensação única de um quadro, como se o visse diante de seus olhos. Interpelou-se, não sem razão, o motivo daquela descoberta estranha entre seus pensamentos, aparentemente sem relação de causa e efeito com o que se passava no momento.

Nem mesmo pensava nada em relação a isso ou aquilo que o pudesse, pela lógica, chegar à visão na parede. Ela apenas apareceu, e isso era tudo. Mas uma lembrança, uma imagem, sempre leva a outras, escava-se aqui, escava-se ali, mete-se a mão num buraco mais fundo... como num dia que abriu o velho baú do sótão da tia, e encontrando uma bola murcha, relembrou a chuteira, achando-a após remexer fundo, tornando o sótão feito migalhas de lembranças. A tia guardara muita coisa de uma mudança antiga, quando decidiram retornar à cidade natal. E agora aquele quadro o lançava como numa catapulta a uma série de outras lembranças escondidas, algumas das quais já nem recordava, outras, até imaginava, nunca teriam ocorrido com ele, e um sorriso varou-lhe o rosto, alargando a face, entremeando com o semblante de quem vaga, os olhos mornos querendo deixar entrever imagens pescadas do passado que se mesclavam, como num calidoscópio, mas ao contrário de cores, que misturadas numa paleta levam a uma outra, retornavam o quadro azul do inicio do pensamento. Deixou-se fixar só nele, afastando tudo o mais, e se tornou a própria lembrança relembrada, a própria idéia da imagem que pensara.

No sofá, sentado, o filho acompanhava os movimentos do pai, que com cuidado retirava do caixote de papelão envolto com grossos fios de náilon, a figura de um senhor, cujo bigode avantajado para os padrões da época, chamara-lhe atenção.Perguntou ao pai quem era, aproximando-se com certo cuidado da figura emoldurada, ao que o pai, permanecendo com os olhos no serviço, limpando com um pano úmido o vidro empoeirado, e com cuidado elevando-o até atingir o alto da parede, aonde fixara o prego, falou: "é o meu avô"..., e cuidadosamente fincou a alça da armação na parede, ajeitando-lhe depois as bordas. O pai então olhou cuidadoso, como se apenas após isso, se dera conta do personagem que com tanto cuidado protegera na viagem, e fixou os olhos por um instante nos olhos do quadro, como se relembrasse algo.Depois saiu.O menino então permaneceu, instigado com a imagem daquele que fora pai do seu pai, e que pela primeira vez olhava. E pela primeira vez na vida pensou em algo que não compreendia bem, e que o fez franzir a testa, mirando o retrato com cuidado, como quem penetra no escuro. O homem de bigodes grandes, encobrindo os lábios, tinha o rosto do pai, mais novo, a cabeleira reluzente jogada para trás, o semblante sereno, como se no momento exato em que fora retratado, congelasse na mente um bom pensamento. Talvez por isso algum sorriso parecia querer brotar de seu rosto. Então houve o que talvez se chame empatia, entre o menino e a figura do homem.A partir dali, volta e meia, o menino se deparava com a imagem na parede da sala, o homem olhando eternamente para frente, com um esboço de sorriso, e o menino, já familiarizado, com o tempo apenas o fitava vagamente, só por ele estar ali, no trajeto de seus olhos, ele, azul na parede fitando o sempre mesmo lugar, como quem não pede para ser visto. Os anos se passaram, e de repente, em um momento qualquer, aquela imagem perdeu-se de sua imaginação, jogada, como em um baú escuro de coisas que se vê por aí. Mas eis que retornando, fazem jorrar toda aquela cascata de pensamentos, que um dia lhe foram reais de fato, como o próprio olhar que se lança no passado.

As imagens se desfazem, e a vaga fisionomia cede lugar há uma, de susto, após o supetão do carro na estrada de terra batida. A chuva da noite anterior diminuíra a poeira, que agora apenas elevava-se timidamente, em resposta ao tranco dos pneus. O carro então continuava seguindo em frente, na estrada sinuosa e estreita, aonde a vegetação de ambos os lados, às vezes, parecia querer fechar-se encobrindo o céu acima de sua cabeça, trazendo um pouco de sombra àquela tarde mormacenta e seca. O motorista ao lado, durante todo esse tempo, ia lhe falando algo, o que pescando aqui e ali uma ou outra palavra, não tardou a entender que falava de sua própria vida. Começou então a balançar a cabeça como por educação, para demonstrar que todo esse tempo estava atento à conversa, e lembrou que a estrada esburacada possivelmente o fizera concordar, involuntariamente, num ou noutro gesto de afirmação durante aquela meia hora, o que com certeza havia encorajado o homem a continuar estrada afora a conversa, que agora se terminava.

O carro parou freando os pneus em um monte de areia, e deslizando macio, levantou um pouco da terra branca, ao que o motorista revelou: "Doutor Otávio, é aqui"! Naquela tarde de trabalho, essa seria a terceira visita domiciliar que fazia, e seus pés já começavam a doer. "A casa é aquela ali doutor, com uma mangueira na porta", indicou o motorista com um aceno de mão. Saiu do carro, colocando o estetoscópio no pescoço e a maleta na mão. Andaram uma pequena distância à pé, passando por cima de uma pequena ponte,na verdade duas ou três tábuas sobre um brejo. Alguns cachorros começaram a fazer festa enquanto quatro crianças saiam da casa, aos gritos, uma delas esbarrando inadvertidamente em suas pernas, caindo sentada, o bumbum no chão. Olhou então para cima, após o susto inicial, esboçando nos lábios um choro, mas só até a mãe carinhosamente afagar-lhe a cabeça, com um sorriso. Era uma pequena casa de taipa, forrada com palha, de apenas dois cômodos, o piso de chão de terra batida. Sentou-se na sala, aliviando a gola da camisa, recostando no sofá. A senhora lhe indicou o quarto, aonde um rapaz, ao que soubera, chorava com dores na perna, já há dois dias, sem conseguir deambular.Entrou cuidadosamente no quarto afastando uma cortina vermelha, na verdade um lençol timidamente improvisado de porta. Deitado na cama um rapaz segurava a perna direita, com fisionomia que denotava certa dor. Puxou então uma cadeira, sentando ao seu lado, e examinando a perna, que inchada e avermelhada como o pano da porta, reluzia a claridade que entrava pela janela lateral. É uma Erisipela..., disse-lhe, fitando-lhe o rosto contraído que se enrugava com a sensação dolorosa.A mãe entrou depois, sugerindo o diagnóstico, ao que confirmou com um aceno de cabeça. Sim senhora, disse-lhe com paciência enquanto prescrevia, erisipela, ao que sorriu com gratidão. Otávio então levantou-se apressado, após prescrever-lhe a medicação, e saindo do quarto, (o calor quase insuportável banhara-o de suor), a camisa grudada no corpo, pediu um copo com água, que chegou rápido aliviando-o como uma brisa. Enquanto bebia, virou-se para a parede da sala, curioso com várias figuras que emolduravam o pequeno ambiente e que lhe chamaram atenção.Havia várias figuras de santos, intercaladas com membros da família. No canto esquerdo, a primeira da fileira, antes da imagem de Santo Expedito, uma foto azulada com bordas douradas chamou-lhe atenção. E mais uma vez relembrara a sua, o avô azulado na parede de sua sala, o mesmo olhar fixando o horizonte.

Perguntou com curiosidade, apontando o quadro.

- É o meu pai, respondeu a senhora, a garrafa de água na mão.

Otávio voltou-se novamente para a figura, e também contornos finos e manchados em seus lábios, davam-lhe um aspecto de sorriso no rosto. Demorou-se um instante, percorrendo a vista depois para o lado, e ao passar pela imagem do santo, encontrou uma outra, que lhe chamou particular atenção. Aproximou o rosto, curioso, quase tocando o vidro, como quem tenta compreender. Na foto, retirada de frente, um corpo jazia no caixão.Havia, ali na parede da sala, a foto de um velório, o caixão e o defunto, as pessoas acompanhando, algumas em prece. Era de fato um velório, pensava ele, a boca entreaberta, pensativo.

-É um velório?! Perguntou num misto de surpresa, curiosidade e assombro.

-Sim, respondeu a mulher, colocando a mão em seu braço, com um certo sorriso ao surpreende-lo admirado com o fato -, é o velório de meu pai, esse que está aí, na foto ao lado.Foi há dez anos atrás, um derrame...completou reticente, com o olhar triste encravado no chão.

Ao lado do caixão as pessoas. Pessoas que olhavam e oravam o morto, no ambiente da sala, e era a mesma sala, ali, praticamente aonde estavam. Quedou um instante, curioso com a cena, que lhe parecera de um prazer mórbido, enquanto se perguntava o porquê de uma foto como aquela, na parede de uma casa. Já se ia retirando, quando percebeu, no chão, ao pé do caixão do defunto, um cão que dormia aos pés de uma criança, que de braços cruzados, a camisa longa listrada escorrendo-lhe pelas mãos,olhava para a câmera, talvez com o mesmo olhar de assombro de quem não entende,o mesmo que lhe havia surpreendido naquela cena de infância.

- Quem é esse garoto? perguntou apontando-o. A mãe lhe sorriu, e num gesto apontou o quarto: é o meu filho, o rapaz que o senhor acabou de consultar.

O olhar de quem interroga, de alguma forma, parecia ter se cruzado com o dele, anos atrás, quando naquele quadro azul, algum pensamento lhe embotava o espírito jovem. Quedou um longo instante, pensativo, enquanto algo se lhe passava, mas eram névoas, e ele preferiu não continuar.Despediu-se da família, foi até o quarto, apertou a mão do rapaz, e retirou-se.O carro partiu, levando-o. Atrás, algumas mãos espalmadas lhe faziam aceno, encobertas pela poeira que o carro deixara para trás.Da estrada esburacada percorreu-lhe um sentimento único, que até então nunca tivera, talvez até mesmo se completasse agora com aquele, de quando novo, como se olhos jovens o observassem de algum lugar, resgatando lembranças mortas, olhares entre túmulos. E se viu, ali na estrada viu-se, na parede, e era mais uma figura azul, fincada, entre imagens de santos.


MAX OLIVEIRA RAPOSO
, 32 anos, maranhense, nascido em novembro de 1971, médico. Prepara um livro de contos, e um romance, além de um livro de poesias, que espera lançar em breve.