O movimento

Michell Silveira e Coimbra

Já não sentia mais o braço esquerdo. Sabia que isto traria problemas, mas não concebia a mínima possibilidade de me mexer. Já estava deitado naquela cama por dois dias e, mesmo com o cheiro insuportável do suor, da bosta e do mijo, não pensava em iniciar qualquer movimento, muito menos me levantar. A fome, a dor, a solidão e tudo o mais que me afligia não chegavam à altura da força inexorável que me impedia de me mover.

Desde que acordei naquela Quarta Feira ensolarada, deitado para o lado da janela que dava de frente para um ponto de ônibus, venho sentindo uma assombrosa necessidade de não me mover. Podem chamar de preguiça, ou qualquer outra coisa, mas é mais forte do que eu; e olha que eu lutei bastante contra esta tendência, focalizando todas as minhas forças em partes específicas de meu corpo, me concentrando o máximo para que pudesse fazer o mínimo movimento. Nos primeiros minutos fui tomado pelo desespero e minha mente era consumida por um medo gigantesco diante da impossibilidade de gritar por socorro. Mesmo sabendo que não adiantaria gritar, pois morava sozinho, não costumava receber visitas e naquele prédio só tinha pilantras que se aproveitariam da minha situação para levar tudo o que tinha, ainda tentava irromper daquela casca resistente, disfarçada sob uma respiração tranqüila e um olhar calmo, direcionado para a placa do ponto de ônibus. Mas sempre fui um tipo de pessoa que se acomoda fácil a todo tipo de situação, e neste caso não foi diferente. Rapidamente me acostumei e comecei a deliberar sobre como passaria meu tempo sem ficar entediado. Foi então que tive a brilhante idéia acerca da atividade que consumiria meu tempo pelo resto do dia. Comecei a identificar cada objeto presente em meu campo de visão e nomea-los, um por um, tentando captar todos eles, sem exceção. Após a varredura geral sobre os objetos a meu alcance, fechava os olhos – único movimento voluntário a minha disposição – e começava a contá-los em minha mente. Era até divertido fazer isto, pois a cada vez que abria os olhos eu reorganizava os critérios de identificação de objetos, tornando-os mais rigorosos. Assim, enquanto em um momento eu contava apenas uma escrivaninha, depois eu já identificava três gavetas, e após diversas modificações já era capaz de ver um simples objeto dividido em outros quinze.

Mas como você já deve ter imaginado, eu não agüentei aquilo por muito tempo. Para falar a verdade, durante a noite já não agüentava mais manter meus olhos abertos diante daquela imagem, que já me causava mais asco até mesmo do que toda aquela sujeira que se acumulava em minha cama. E pelo resto da noite não tive outra alternativa a não ser fechar meus olhos com toda a força e respirar pela boca, para não ter que agüentar o odor sui generis que empestava o quarto. Quando o sol se pôs, ao alivio fornecido pela presença agradável do seu calor e luminosidade se contrastava a terrível dor que se manifestava por todo o lado esquerdo de meu corpo, principalmente no braço. Tudo isso sem falar nas feridas, causadas pela impossibilidade de qualquer higiene, que me incomodavam bastante. Não sentia fome, mas daria tudo por um copo d’água. Ainda naquela manhã tive mais um ataque de desespero ao perceber que seria obrigado a passar mais um dia inteiro daquele jeito, tendo que ver as mesmas imagens, agüentando a dor, a sede, o asco e, quem diria, a solidão. Logo eu que sempre fui extremamente orgulhoso de minha auto-suficiência, desdenhando da companhia das pessoas como um exercício de minha enorme vaidade, era uma vítima indefesa da solidão, sendo dilacerada aos poucos entre seus dentes afiados.

Ao contrário do dia anterior, neste dia eu já não me preocupei em inventar qualquer ocupação supérflua para passar o tempo. Me restava apenas esperar, quieto, com o olho ora aberto, ora fechado, sentindo o meu corpo se deteriorar lentamente. E hoje, Sexta Feira, faço este relato mental de minha condição; um grito sem forças e sem ânimo daquele que nunca fez questão de ser ouvido e agora está preso entre a solidão altiva do passado, que se perdeu junto com o seu orgulho, e o alívio da companhia humana, um remédio amargo demais para a dor de sua solidão.