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Muros transparentes
Andréia Alves Pires
Na ante-sala do consultório do dentista, um menino aguarda o
retorno da mãe ao fim da consulta. A atendente distraída entre
e-mails e ligações interurbanas mal percebe a presença da criança
que balança as pernas no ar, sentada na beira da cadeira.
Desajeitado, João tem pouco mais de cinco anos, olhos inquietos,
com fome de mundo.
Vê, então, um aquário de verdade pela primeira vez. Levanta-se.
Encosta mãozinhas e nariz no vidro. Põe-se a encarar o pequeno
peixe laranja. Se fosse meu, chamaria de Ivo, pensou.
Será que gosta de arco-íris, de bolhas de sabão, de estilingue,
de colecionar tampinhas de Coca-Cola, de gelatina de morango?,
pergunta-se apressadamente.
O peixe nada devagar entre os quatro muros transparentes. Parece
triste demais para o gosto de João. Imagina: o bichinho além de
preso, sozinho, sem mãe para andar de mão na rua. Também,
coitado, nem mãos tem. E esses pontinhos azuis minúsculos?
Bonitos. Parecem pintados de canetinha hidrocor. Mas esses
olhinhos... São já tristeza aparecendo no corpo, conclui o
menino.
Escapou dos lábios de João um sorrisinho nervoso, segundos antes
de enfiar a mão na água, bem fundo e caçar o peixinho. A
atendente enquanto isso enrola a caneta Bic no cabelo concentrada
em mascar um chiclete antigo no ritmo do ponteiro maior do seu
relógio de pulso.
O guri guardou o agora Ivo dentro do bolso frontal do macacão e
riu sozinho. Agora esse peixe vai ver o que é bom, disse
satisfeito a seus botões. Lá se foram João e o peixe: o primeiro
arrastado pela mão apressada da mãe; o segundo, seguro e aquecido
no bolso.
João feliz. Via-se na escola, de uniforme, lápis de cor,
lancheira e Ivo o acompanhando. Cantariam Escravos-de-Jó,
aprenderiam a amarrar cadarços de tênis, recortariam anjos e
corujas de papel para colar na parede do quarto. Fariam grandes
coisas juntos, e quando adultos viajariam pelo litoral
catarinense de jipe – um tipo diferente de chapéu, conforme João
ouvira dizer no canal de viagens na tevê, dias atrás.
Mal entrou em casa, engoliu o leite com Nescau preparado pela
mãe, e se foi. Correu para a rua mostrar a novidade, seu ouro,
aos companheiros das partidas de bolinhas-de-gude.
Ofegante ainda, catou do bolso o peixinho. Mirou os rostos
surpresos dos amigos. Fechou as mãozinhas em concha, Ivo
aconchegado no fundo da mão, estático. Mas é verdade, eu juro que
ele se movia. Vocês tinham que ver como abanava essas coisinhas
penduradas que parecem rabo, tinham que ver... – soluçou
baixinho.
Os guris riram e se foram. João sentou-se no cordão da calçada
sem desfazer a concha das mãos. Não piscava, não respirava.
Suspirava apenas. Dentro da cabeça e do coração, as luzinhas
coloridas das imagens criadas outrora foram se apagando aos
poucos: nem anjos, nem corujas, nem jipes ou Escravos-de-Jó.
E o João chorou. Um choro triste de impotência e saudade, em
escassas lágrimas. Não um choro de criança de pouco mais de cinco
anos, mas o de quem se percebe, inevitavelmente, virando gente
grande, que aprende, à força, a viver entre muros transparentes.
ANDRÉIA ALVES PIRES é de Rio Grande/RS, cursa o 6º semestre
de Jornalismo na Universidade Católica de Pelotas e o 3º ano de
Letras - Português/Espanhol na Universidade Federal do Rio Grande
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