Meu pé de gabiroba

Benedito C. A. Franco

Lá pelos idos de mil novecentos e quarenta e pouca coisa, mamãe estava grávida de seu sétimo, ou oitavo, ou nono filho - teve doze.

É... seguia a lei da natureza, segundo a qual a mulher não foi feita para menstruar, ficaria grávida sempre. A humanidade, não gosta de natureza, inventou os meses, para a mulher se previnir mensalmente, não tendo mais um filho. Quando César, imperador romano, nasceu a 12 de julho do ano 100 a.C., sua mãe não conseguia dar à luz, a barriga foi aberta, o menino retirado.
Daí a "cesariana", em sua homenagem. Mais tarde aperfeiçoou o calendário, dividindo o ano em meses - seguiu exatamente os períodos de menstruação da mulher Cornélia. Quem não segue a lei da natureza, tem a TPM, dores de cabeça, dores no busto, dores no corpo, e dores e mais dores, enche a paciência de parentes, namorados e... maridos então... nem se fala !

Vi e ouvi um comentarista na tv, admirando-se de um homem dizer que uma mulher grávida era linda - retorquindo-o, o comentarista disse-lhe que tal homem tinha mau gosto e que mulher grávida, além de não bonita, é anti-sexy.
Engano. As maiores maravilhas: criança, menina moça e mulher grávida - repare bem e verá.

Voltemos à minha mãe grávida.

Grávida, tinha desejos, como quase toda mulher - natural.

De casa via as gabirobas - pequena goiaba, azeda e gostosíssima - lindas, grandes (grandes, para gabirobas !) e maduras, em um pé no quintal da casa do vizinho José Carvalhais. Conhecida como araçá, dependendo da região onde se encontra, dá em um pé semelhante ao da goiaba. Em Lafaiete e região, MG, há a do mato - menor um pouco, cujo pé não passa de uns sessenta centímetros de altura, com folhas bem maiores - o mesmo gosto, menos ácida e menores.

Papai chegando da loja, mamãe logo lhe dizia:

- Zé Franco, quero comer gabiroba. Desejo comer gabiroba !

Papai declarava que iria arrumar a gabiroba. Ela adulava, insistia, e ele prometia que no dia seguinte faria tudo para trazer as gabirobas...

Todo dia a mesma coisa. Papai preocupado - não achava as benditas gabirobas.

A ladainha só rezava gabirobas:

- Zé Franco, eu quero gabiroba...

- Naná, eu vou arranjar...

- Zé Franco, você comprou a gabiroba?

- Naná, não achei...

- Zé Franco, tô com vontade de... gabiroba..

- Naná, eu vou trazer...

- Zé Franco, você não deu um jeito...gabiroba...

- Naná... não comprei...

- Zé Franco... gabiroba !

- Naná...

Um dia, mamãe, como sempre insistente, falou para o papai que na casa do vizinho:

- Zé Franco, olhe lá no terreiro da Zica do Carvalhais... um pé grande e cheio de gabirobas enormes e maduras ! Não é goiaba pequena, é gabiroba !

Mamãe, viva e inteligente, de pensamento rápido - o dinamismo personificado. E papai, com a santa paciência e a calma que Deus lhe deu:

- Naná vou pedir ao Carvalhais as gabirobas, assim você deixa de falar em gabirobas comigo.

Gente, depois de dias e mais dias, de pedidos e implorações, de bajulações e adulações, de choros e velas... de promessas e mais promessas descumpridas, papai criou coragem e, muito sem jeito e desconsertado, foi até à casa do Carvalhais. Explicando todo o drama, pediu para ele lhe vender algumas gabirobas para a Naná, grávida, como ele já poderia ter notado, e com desejo de comer gabirobas.

Papai recebeu as gabirobas aliviado. O Carvalhais não quis vendê-las - deu. Todo contente e eufórico, levou as gabirobas para mamãe:

- Naná, as gabirobas que você tanto pediu e desejou - lindas e maduras, como você deseja... o Carvalhais me deu.

E mamãe, determinada como sempre:

- Não quero ! Quero é gabiroba comprada ou de meu quintal! Doadas de quintal dos outros não aceito ! Quero do... fez uma pausa... do... meu pé de gabiroba...

Gabiroba para comprar... não achava...

Para mamãe ter gabiroba de seu quintal, papai comprou a casa do Carvalhais, alugando-lhe a casa e um pedaço do terreno - a parte do quintal onde está o pé de gabiroba, a de trás, a cerca foi retirada, para que mamãe pudesse apanhar suas gabirobas - até hoje faz parte do terreno de nossa casa!

Quem mais se regalou com as gabirobas, durante anos e anos, fomos nós, os filhos!

Acho... ela pensou... nos filhos...