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Esperteza ou
sabedoria:
mais uma lição do rio
Tania T. S. Nunes
Lenta, lentamente vinha pela estrada Nhô Bento. Ao longe, sua
visão não alcançava, mas pelo tempo que a passos pesados
atravessava aquele atalho sabia que o rio estava próximo.
Mal chegou pensou logo em conseguir o melhor lugar para
sentar-se. O ideal era a sombra de uma mangueira que há muito o
abrigara. Ao visualizar a frondosa árvore, viu Nhô Tonho no seu
espaço, fez um resmungo, abanou a cabeça e saiu para a outra
margem. Não suportava a idéia de dividir o fruto de sua
paciência.
No jabuticabal agachou-se, conversou com os peixes como se fosse
gente:
- Hoje, tô com certeza que eu e ocês vamo dá muito bem. Né?
- Eu jogo a rede e ocês vêm logo se aninhá, Certo?
Nhô Tonho por sua vez não economizou sabedoria, já havia feito
sua oração:
- ó Deus, que é pai dos home e dono desse mundão, me dê uma rede
bem farta pra levá pra sinhá muitos peixes bão.
Assim, os dois jogaram suas redes. A água da lagoa não estava tão
límpida aquele dia. As chuvas haviam maltratado bastante suas
margens, mas...
Não tardou para as redes começarem a balançar e em cada arrastão
só pau, só plantas menores e nada de peixe.
Duas... cinco... nove... quinze vezes nada... Só paciência...
Nhô Bento repete sua fala e a conversa com os peixes.
Nhô Tonho não cansa e diz que aquele que não desampara aos que
têm fome, não pode esquecer dele.
As redes baixam e voltam... vazias.
Até...
Ih! Nhô Bento recebe um belo tambaqui. Aos poucos, puxa a rede.
Pé ante pé, ou melhor braço a braço. Quando está bem próximo e
tenta retirar o peixe este escorrega em suas mãos. Foi-se...
Vê cair o peixe no rio e fica a pensar:
- Peixinho espeeeeeerto, espeeeeeeerto, mas como é que escapa?
- Que é que tá acontecendo?
Falou, pensou, esperou, perguntou várias vezes. Até que ouviu uma
voz que lhe respondeu:
- “Nhô Tonho está levando todos os nossos amigos peixes pra
casa!”
- Nhô Bento ficou furioso e teve a certeza de que o outro havia
feito alguma coisa para enganá-lo.
A manhã passou. Nhô Bento levou para casa um cesto com alguns
pequenos peixes.
Nhô Tonho foi embora com o cesto meio vazio, mas satisfeito por
ter passado tantas horas e a chuva não ter atrapalhado a sua
empreitada. Mas antes passou por Nhô Bento e deu um sorriso, que
o outro considerou maroto.
O certo é que Nhô Bento ao chegar em casa e a Sinhá perguntar o
que havia acontecido para só ter trazido três peixes. O velho deu
um novo muxoxo, relembrou a voz e respondeu:
- Um peixe falô que Nhô Tonho levô todos os seus amigos para
casa. Cada peixão! Cada peixão! Arguma coisa ele fez!
TANIA T. S. NUNES é professora de Letras e Literatura.
Pós-graduação em Literatura Brasileira e Cultura da Pontifícia da
Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC- RJ.
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