Encontro

Milton Marcelo F. Ferreira

Quinze para uma. Ele chegou mais cedo do que o combinado. Precisava se preparar para o encontro. Aquela situação ainda estava confusa em sua mente. Se por um lado sabia que era errado e desejava ardentemente fugir de tudo aquilo, por outro estava entregue e não tinha forças para agir. Estava quente. Ele não queria ser visto por ela, queria vê-la. Comprou uma lata de cerveja no supermercado, atravessou a rua e sentou-se em um banco debaixo de uma árvore. De lá poderia perceber sua chegada sem ser notado. Era uma última tentativa de voltar atrás, esconder-se, fugir.

Uma hora. A cerveja não estava muito gelada, tomava-a por nervosismo, em grandes goles. Ascendeu um cigarro. Suas mãos tremiam um pouco. Tinha vontade de levantar, entrar no carro e ir para casa. Por que não o fazia? Poderia tirar um filme, comprar alguns doces, fazer pipoca, ser feliz. Mas e aquela oportunidade? Quando a teria novamente? Melhor era arriscar tudo. Pagar pra ver. Se não desse certo, paciência. Ao menos teria tentado. Vinha-lhe então a imagem da esposa. Ele tentava encobri-la, procurava distrair-se olhando os carros que passavam a sua frente. O suor escorria-lhe pela testa, sentia a camisa molhada. Olhou o relógio, já estava ali há 22 minutos. As pernas começavam a formigar. Levantou-se, esticou-se, ascendeu outro cigarro. A cerveja quente havia acabado. Não iria comprar outra, perderia a oportunidade de observá-la chegar.

Uma e vinte e cinco. Pessoas entravam e saiam do supermercado e ela não aparecia. O calor aumentava. Um mendigo que dormia em um gramado próximo agora conversava com uma árvore. Uma mulher gorda passeava com um cãozinho minúsculo na outra calçada.

Uma e trinta e cinco. Levantou-se novamente. Atravessou a rua. Entrou no supermercado, foi à seção de verduras, à padaria, deu uma olhada nos caixas. Nada. Desceu o corredor que levava à garagem. Foi ao banheiro. Urinou demoradamente. Mirou-se no espelho. Por que estava ali, por que sujeitava-se a isto. Não tinha ele uma posição respeitável, uma esposa companheira e carinhosa? Por que? Não havia resposta. A imagem refletida no espelho não revelava seus segredos. Lavou as mãos. Voltou ao banco do outro lado da rua. Barulho de cigarras, de carros, de vida. Se ao menos ele tivesse guardado o número do celular dela. Poderia ligar, haveria uma explicação.

Duas horas. Uma angústia oprimia-lhe o peito. Agora mais do que nunca poderia ir embora. Teria sua justificativa. Esperara, ela não aparecera, fora embora. Seria aceitável. Pensava na mulher, nos filhos, nos colegas. Faltava pouco para ele vencer aquela situação, para se libertar. Quem havia ligado era ela. Dissera querer vê-lo, relembrara momentos, jurara saudades. Agora ali estava ele. Esperando-a. Tenso. Excitado.

Duas e trinta. Respirou fundo. Olhou novamente o relógio. Poderia ir embora. Estaria salvo. Estava leve, tranqüilo. Tudo parecia mais colorido, mais vivo. Não precisava mais estar ali. Ele tentara, não dera certo. Levantou-se. Atravessou a rua. Entrou no carro, sorriu e partiu.