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Dois contos
Bruno Pinheiro
O reflexo
Um clima meio noir. Encostados ao balcão, Chet Baker sussurrava
pelo auto-falante.
- Não agüento mais, Tico. Nem me olha mais. Coloca a janta,
nem uma palavra – disse virando a primeira dose.
- Mas, com todo respeito, não tem mulher que suporte isso. Você
vive no boteco. Parece uma arara bêbada.
- Olha quem fala!
- Eu posso gostar de umas biritas, mas eu faço uns agrados pra
patroa.
- Eu não faço porque ela não me dá trela – virou a segunda dose.
- Não é porque ela é minha irmã não... você é meu amigo... mas ela
merece coisa melhor do que você.
- Que é isso, Tico?
- Deixa pra lá. Tenho que ir.
Alfredo ficou onde estava, pensativo. Olhava-se num espelho atrás
do balcão. Ficou curioso com sua imagem refletida. Estava tão
diferente.
- Gaspar, mais uma.
- Já é sua nona dose, Fredo.
À medida que o tempo e as doses corriam sua imagem ficava ainda
mais intrigante. Seu rosto, outrora rechonchudo, estava chupado,
cheio de rugas. O reflexo não obedecia aos seus movimentos.
- Esse espelho tá com defeito – disse com a voz pastosa.
Ele tentava ignorá-lo, mas não conseguia. Olhava com rabo de olho
e o reflexo estava cada vez mais agitado, mais indócil. Alfredo
estava ficando com medo. Resolveu ir embora.
No meio do caminho começou a ouvir passos. Parecia que estava
sendo seguido.Não tinha dúvida de que era o velho do espelho quem
o perseguia. Seu coração disparou. Suas pernas também. Correu,
cambaleando, sem rumo. Após alguns quilômetros, achou que tinha
despistado o perseguidor. Como estivesse exausto, entrou num
matagal e dormiu encostado a uma árvore. Acordou com uma baita
dor de cabeça.
- O que eu tô fazendo aqui?
Foi para casa, dessa vez seguido pelo sol que lhe queimava as
costas. Abriu a porta com cuidado, a esposa ainda dormia, e foi
direto para o banho. Dirigiu-se ao espelho para se barbear.
Estremeceu, fechou os olhos e soltou um grito de horror.
- O filho da puta me pegou – berrou, apoiando-se na pia.
A mulher nem se mexeu...
A geração perdida
Ontem me aconteceu um fato estranhíssimo.
Estava caminhando por uma rua movimentada da minha cidade.
Reparei que só tinham pessoas idosas nessa rua.
- Que esquisito isso – pensei.
Mais esquisito ficou quando todos que passavam por mim começaram
a me encarar. Um misto de curiosidade e reprovação em seus
olhares.
- Que bando de velhos escrotos!
Um deles, subitamente, agarrou o meu braço. Seus dedos suavam,
sua mão tremia. Tinha uma expressão de nojo o seu rosto.
- Você já leu Hemingway?
- Já – respondi assustado.
E antes que eu pudesse pedir qualquer explicação, ele foi
saltitando. Perplexo, segui em frente. Não tive muito tempo para
refletir sobre o acontecido.
- Já leu Kafka - perguntou outro velhinho.
- Um livro...
Esse também saiu como que aliviado. Cada um que passava
perguntava se eu já tinha lido algum autor. Comemoravam a cada
resposta afirmativa. Até que apareceu um senhor que parecia ser o
mais velho de todos. Devia ter uns 90 anos. Usava óculos com
lentes grossas e arrastava a perna direita. Ele também me segurou
pelo braço. Me olhou nos olhos. Seu rosto aflito. Sua voz e se
lábio inferior trêmulos.
- Você já leu Dickens?
- Não... Desculpa ...É que...
Não esperou as justificativas. Sua cara ficou vermelha. Seus
olhos mostravam um ódio mortal. Sua mão apertava cada vez mais o
meu braço.
- Vocês são uma geração perdida – bradou o velho, virou-se e foi
embora.
Senti uma sensação de impotência. Por que eu fazia parte de uma
geração perdida? Que geração era essa? Fiquei envergonhado.
- Mas isso não tem sentido - sussurrei, tentando colocar as
idéias no lugar.
Voltei-me na esperança de que desse uma piscadinha e dissesse que
tudo não passava de uma brincadeira. Mas ele continuou andando e,
como aquele personagem do Luiz Vilela, não olhou para trás uma
vez sequer.
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