Ilustração: Eugène DELACROIX

O dilema do sultão

Filipe Alves

A noite estava excepcionalmente quente. No seu leito, o Sultão Timur Melique tinha dificuldades em adormecer. É que além do calor que lhe afligia o corpo, pensamentos sombrios angustiavam-lhe a alma. Levantou-se da cama e caminhou através do seu luxuoso quarto, em direcção a um amplo terraço virado para o mar. De lá, o Sultão podia admirar a sua capital; à luz do luar, conseguia entrever as silhuetas dos minaretes que, repartidos pelas sete colinas da cidade, permitiam aos muezzins chamar os fiéis à oração. Em redor da cidade, o Sultão via as luzes das torres de vigia, encrostadas que estavam numa extensa e sólida muralha, e admirou o reflexo da lua na baía. “Que bela é a minha capital, e que ricos são os meus domínios”, pensou.

Despenteado, mas envergando finas vestes de seda, o soberano sentou-se numa cadeira acolchoada que, por ordem sua, os servos ali haviam colocado durante o dia. Escutou os sons da noite na cidade; aqui e ali, podia ouvir gritos e dizeres diversos de bêbedos e outros desordeiros. “Tenho de mandar reforçar a vigilância”, anotou mentalmente. Podia também sentir o ruído das ondas do mar, bem como o assobio do vento que soprava nas árvores do seu frondoso jardim.

O Sultão tinha um grande gosto pelo seu jardim. Mandara plantar toda a espécie de plantas exóticas, compradas a peso de ouro aos mercadores que percorriam a grande rota da seda. No seu jardim podiam admirar-se árvores vindas da China, da Índia e do longínquo Ocidente. Nas suas tardes de ócio, o Sultão passeava calmamente entre roseiras, acácias, amoreiras, cedros e mil e uma outras plantas. E quando desejava saciar o ventre, procurava alimento nas muitas árvores de fruto que mandara plantar: macieiras, pereiras, pessegueiros, laranjeiras...

Em todo o perímetro, o Sultão mandara colocar fontanários e repuxos de onde se podia beber a mais pura água. Do alto do seu terraço, e no silêncio da noite, o sultão conseguia escutar o ruído das águas do jardim. Chamava-lhes “as fontes do Éden”.

Dizia-se até que o soberano, que ostentava os títulos de “Guardião da Fé Corânica”, “Pilar do Poderio do Islão”, “Defensor das Terras do Islão” e “Protector das Cidades Santas”, tinha mais gosto pelo seu jardim que pelo seu magnífico palácio. A razão de tal predilecção encontrava-se nas suas origens humildes; Timur Malique nascera e crescera numa família de pastores nómadas. E para um nómada do deserto, a água límpida e a fruta fresca são tesouros mais valiosos que qualquer palácio de mármore.

Com um tom de voz não muito alto, o Sultão chamou a serva que habitualmente velava pelo seu sono, sentada junto da entrada do quarto. A serva entrou nos aposentos reais e, vendo que o Sultão não se encontrava no leito, dirigiu-se ao terraço. O Sultão conservou-se em silêncio por alguns instantes, parecendo fitar fixamente a linha do horizonte. De seguida, dando pela presença da serva, mandou-a trazer-lhe uma candeia, juntamente com os papéis que estavam sobre a sua escrivaninha, um estilete e um tinteiro para escrever. A escrava apressou-se a satisfazer os pedidos do seu real amo, após o que aguardou novas ordens.

À luz ténue da candeia, Timur Malique segurou nas mãos uma folha de papel, lendo vez após outra o que nele estava escrito. Com ar sério e expressão preocupada, parecia ausente e completamente alheio ao que se encontrava em volta dele. Após alguns minutos neste silêncio sepulcral, pediu à serva que mandasse chamar o Comandante da Guarda Real, Hassan.

Desperto pelos criados do sultão, o Comandante Hassan vestiu uma leve túnica, colocou a sua espada curva à cintura e encaminhou-se rapidamente para os aposentos reais. Era um homem alto, forte e de ventre avantajado, que ostentava uns bigodes negros farfalhudos. Hassan encontrou o Sultão sentado no terraço, com ar preocupado, admirando a vista sobre a capital. Timur Malique dirigiu-lhe então a palavra:

 

- Lamento ter-te acordado caro Hassan. Fi-lo por uma razão importante. Preciso que tragas imediatamente ao palácio o ulema Uqba Ibn Nafi. Como sabes, encontra-se preso na Torre do Silêncio, por ordem minha, há vários meses.

 

Sem se atrever a questionar as ordens reais, Hassan despediu-se com uma vénia e um respeitoso “Sim, meu Senhor”. Mas quando havia já voltado costas, o Sultão acrescentou:

 

-  E entretanto manda Bardas trazer-me Jasmine.

 

Lesto, o Comandante da Guarda dirigiu-se então ao quarto do eunuco Bardas, um cristão arménio que estava responsável pela guarda do serralho do Sultão. Hassan acordou Bardas com pancadas vigorosas na porta do seu quarto. “Acorda eunuco! Ordens do Sultão!”, gritou. Bardas despertou do sono, levantou-se rapidamente e abriu a porta do quarto. Era um sujeito franzino, de cabelo curto e ar efeminado, o que não era de espantar, sendo ele eunuco. Com voz fina, perguntou ao Comandante da Guarda do que se tratava. Apressado, este limitou-se a repetir-lhe o que o Sultão lhe ordenara: que o eunuco devia conduzir a concubina Jasmine ao seu soberano. De seguida, o Comandante da Guarda dirigiu-se novamente aos seus próprios aposentos, onde colocou a couraça, calçou as botas de montar e enfiou o turbante na cabeça. Após isto, seguiu rapidamente para a Torre do Silêncio, na companhia de alguns efectivos da Guarda.

Ainda ensonado, Bardas vestiu um roupão de seda carmesim e foi rapidamente ao harém. Com as chaves que só ele possuía, Bardas abriu as portas do Serralho e dirigiu-se ao quarto da bela Jasmine. Enquanto guardião das esposas e concubinas do sultão, Bardas devia zelar para que estas se mantivessem castas e dedicadas ao seu amo. Se falhasse na sua tarefa, certamente pagaria com a própria vida. Os sultões não brincavam com coisas sérias, especialmente quando se tratava da defesa da sua honra conjugal e das suas reais prerrogativas. Um sultão perdoaria mais facilmente a um governador cuja incúria permitisse ao inimigo conquistar uma província, que a um eunuco cuja negligência deixasse um intruso penetrar no leito das esposas e concubinas reais.

O eunuco encontrou Jasmine num doce sono. Acordou-a com um ligeiro abanão e, com alguma delicadeza, explicou-lhe que o sultão a chamava. Embora ensonada, Jasmine não deixava de ser bela. Tinha longos e macios cabelos negros, olhos cor de avelã e a pele suave e sedosa. Apesar da sua condição, Bardas não deixava de reparar na beleza da concubina real.

Tal como Ester em tempos idos, Jasmine era filha de um rico mercador judeu, que ainda muito nova fora levada para o serralho real, como penhor e testemunho da amizade do Sultão pelos filhos de Israel e destes pelo soberano.

O seu nome verdadeiro era Rute (re’uth), que significa “amiga”. Todavia, no palácio todos lhe chamavam Jasmine, nome persa que deriva da planta yasmin, cujas flores são usadas para fabricar o mais gracioso dos perfumes. Foi uma velha aia que lhe atribuiu o nome, logo no primeiro dia em que chegara ao harém real. A velha dizia que Rute era “doce como o jasmim”.

Bardas ajudou Jasmine a vestir um roupão de seda, sob o qual a concubina usava uma simples camisa de noite transparente. Sua Majestade o Sultão não se condoía de atrasos devidos a especiais cuidados com o vestuário; se queria ver a sua real amante a meio da noite, não estava à espera que ela vestisse algo sofisticado. Não havia por isso tempo a perder, pelo que Bardas rapidamente conduziu Jasmine aos aposentos do Sultão.

O eunuco e a concubina encontraram Timur Malique olhando as estrelas no mais completo silêncio, e tendo como única companhia a criada de quarto. Com um simples gesto de cabeça, o Sultão mandou o eunuco e a serva retirarem-se. Depois, já com o sorriso meigo que reservava apenas para os momentos de alguma intimidade, disse a Jasmine:

 

- Canta, minha linda...

 

A bela Jasmine despiu o roupão de seda. Envergava apenas a camisa de noite. O sultão admirou-lhe a face agradável, as curvas elegantes do corpo de gazela, as coxas bem proporcionadas, os seios firmes como dois ovos... e à luz do luar, os cabelos negros da concubina reluziam, tornando-se ainda mais belos.

Recostado na sua luxuosa cadeira, Timur Malique via Jasmine dançar. Ao mesmo tempo que fazia movimentos graciosos, a concubina cantava alguns versos dos Cânticos de Salomão, na sua língua materna:

 

«Sou morena, porém graciosa,

Ó filhas de Jerusalém,

Como as tendas de Cedar,

Como os pavilhões de Salomão.

Não me olheis com desdém, por eu ser morena!

Foi o sol que me bronzeou:

Os filhos de minha mãe, aborrecidos comigo,

Puseram-me a guardar as vinhas;

A minha própria vinha não pude guardar.

Indica-me, amor de minha alma: onde pastoreias?

Onde fazes repousar teu rebanho ao meio-dia?

Para eu não parecer uma mulher perdida,

Seguindo os rebanhos de teus companheiros.»

 

Enquanto escutava o canto e admirava a dança da sua jovem concubina, o Sultão cogitava em importantes assuntos de Estado. Embora a expressão do seu rosto aparentasse uma certa tranquilidade e bonomia, mil e um pensamentos lhe atravessavam a alma e outros tantos lhe trespassavam o coração.

 

«Enquanto o rei está em seu divã,

Meu nardo exala seu perfume.

O meu amado é para mim

Como bolsa de mirra sobre meus seios;

O meu amado é para mim

Como um cacho florido de alfena dos vinhedos de Engadi.»

 

 

A bela Jasmine reparou que algo apoquentava o seu real senhor. Trinta anos os separavam; de facto, Timur tinha idade para ser seu pai. A princípio, Jasmine sentia apenas despeito e repugnância pelo velho com quem a forçaram a casar. Mas depois, conhecendo melhor o soberano, acabou mesmo por sentir uma certa ternura por ele. Constatou que o sultão não era bruto ou cruel, como outros homens que conhecera, entre os quais o seu próprio pai. Pelo contrário, esforçava-se por ser um marido bondoso para as suas trezentas esposas e concubinas, um amo generoso para os seus muitos servidores e um governante consciencioso para os seus vastos domínios. Jasmine compreendeu rapidamente a natureza mais íntima de Timur, o que valeu a este último uma certa estima da sua parte, para não dizer mesmo uma forma de amor. 

Jasmine atreveu-se a interromper o canto e a dança e, lançando-se aos pés do Sultão, dirigiu-lhe as seguintes palavras:

 

- Vejo que algo vos preocupa, meu senhor. Bem sei que não tenho o direito de me imiscuir nos vossos assuntos, mas preocupo-me com o vosso bem-estar, Majestade...

 

O Sultão afagou-lhe o cabelo sedoso, sorriu-lhe ternamente e disse, procurando tranquilizá-la:

 

- Não te preocupes, minha linda, porque os problemas que me afligem não são tão graves que não se possam resolver, nem tão complicados que me possam impedir de garantir o teu bem-estar e o de todos os meus servidores e servidoras.

 

Acariciou a face de Jasmine, que o fitava com uma expressão quase filial, e acrescentou:

 

- E agora volta para o teu quarto. Deves descansar...

 

Jasmine beijou-lhe a mão e fez uma ligeira vénia, abandonando de seguida o terraço e o quarto. Bardas aguardava-a no corredor, curioso acerca da razão daquele pedido do Sultão. Habituada ao estilo coscuvilheiro do eunuco, Jasmine evitou responder às suas perguntas, não obstante os salamaleques com que ele a rodeou e assediou.

Entretanto, o Comandante Hassan dirigia-se a toda a brida para a sinistra Torre do Silêncio. Esta era uma estrutura situada no exterior da capital, que devia o nome à sua notável semelhança com as Torres do Silêncio que os antigos persas – cujos reis eram zoroastristas fervorosos –, haviam construído naquela região. Centenas de condenados tinham ali direito a alojamento a expensas do Estado. Evidentemente, muitos destes hóspedes não se achavam dignos de tal régia generosidade...

O pelotão do Comandante Hassan chegou finalmente à Torre. Reconhecendo-o, os guardas abriram rapidamente os portões de negro ferro fundido. Já no pátio da prisão, descendo do seu corcel árabe, Hassan deu ordens para que o conduzissem à cela do ulema Uqba Ibn Nafi.

O Comandante Hassan foi conduzido através de sinuosos corredores. Apercebendo-se da presença de alguém vindo do exterior, cedo os presos romperam o silêncio. Das suas celas ouviam-se todo o tipo de dizeres, desde pedidos de clemência a pragas e imprecações dirigidas à pessoa do Sultão. Algumas delas, como foi o caso da praga rogada por um preso que desejou que nascesse “um furúnculo amarelo e cheio de pus no gordo rabo do Sultão”, primavam tanto pela originalidade como pelo bom humor.

Abandonando o piso térreo da prisão, os guardas levaram Hassan pelas escadas circulares da Torre, que conduziam à cela especial criada para o ulema. Já no topo, e após uma dura ascensão, foi um esbaforido guarda que abriu a porta do cárcere habitado pelo clérigo. Este encontrava-se a dormir profundamente. Hassan entrou na cela, com um archote na mão; era uma divisão com cerca de dez passos de cumprimento por dez, com duas janelas gradeadas. Encostada à parede, encontrava-se a cama do ulema, junto da qual se via uma pequena mesa-de-cabeceira. Ao centro do cárcere, estava uma pequena mesa quadrada, sob a qual se vislumbravam um prato com restos de comida, uma colher enegrecida pela uso e uma vulgar taça de madeira.

O ulema acordou, sobressaltado com aquela visita nocturna. Estremunhado, perguntou a Hassan e aos guardas que o acompanhavam:

 

- Que querem?

 

O comandante da Guarda Real respondeu, lacónico:

 

- O Sultão chama-te. Veste-te.

 

O preso arregalou os olhos. Não podia fazer Sua Majestade esperar! Levantou-se do leito e, ainda ensonado, pegou num jarro de água e numa bacia branca que se encontravam dentro da mesinha de cabeceira. Derramou alguma água na bacia e lavou o rosto. Depois de se enxugar, vestiu uma túnica branca que se encontrava aos pés da cama e pôs na cabeça o chapéu alto com fita branca que o identificava como antigo peregrino à cidade santa de Meca.

Era um homem alto e magro, este ulema. Rondava os cinquenta anos, tinha longos cabelos negros e comprida barba grisalha. Aparentava calma, descontracção e pleno domínio de si, notou Hassan.

Chegados ao pátio da prisão, Hassan mandou os guardas prepararem uma montada para o preso. Os soldados trouxeram para o ulema um cavalo negro, mas foi com alguma dificuldade que o clérigo montou o animal. Hassan deu então ordens para se porem a caminho do palácio.

O cortejo passou através das ruas adormecidas da grande cidade, entre souks onde não se encontravam quaisquer vendedores ou clientes, atravessando ainda ruas e praças em que não vislumbrava vivalma. Só os cães vadios marcavam presença no percurso seguido por Hassan, os guardas e o ulema por eles escoltado.

Após meia hora de cavalgada, o grupo liderado pelo Comandante Hassan chegou ao palácio. Entraram pela Porta dos Leões, assim chamada porque encimada pelas estátuas de duas grandes feras, e dirigiram-se aos estábulos. Deixando lá as montadas, Hassan conduziu o ulema aos aposentos do Sultão.

Hassan e o ulema encontraram o Sultão ainda no terraço, mirando calmamente as estrelas, absorto que estava nos seus pensamentos. Sem ousar exteriorizar os seus raciocínios e mais íntimos sentimentos, o Comandante pensou para consigo que o diabo do homem parecia doido... tivera o descaramento de o acordar a meio da noite para ir buscar um ulema maluco, ainda para mais ostentando aquele ar meio apalermado...

Escondendo estes juízos, o fiel oficial limitou-se a saudar o Sultão e a dizer-lhe, em voz submissa:

 

- Aqui está o ulema Uqba Ibn Nafi , meu senhor.

 

Ouvindo isto, o Sultão despertou do seu torpor e respondeu a Hassan, com o seu habitual tom majestoso:

 

- Obrigado, Hassan. Podes retirar-te. Se precisar de ti, chamar-te-ei.

 

Hassan abandonou o terraço e os aposentos reais. Aquele “se precisar de ti, chamar-te-ei”, deixara-o perplexo. Estava cansado e queria dormir. “Pois bem, se este maluco precisar de mim, que me acorde! É hora de dormir!”, disse para consigo.

Entretanto, o Sultão convidou o ulema a sentar-se junto de si. Curioso com a razão daquele inesperado chamamento, o ulema acedeu ao convite e sentou-se num pequeno banco de madeira que ali se encontrava.

Encontrando-se ambos mais confortáveis, o Sultão disse ao clérigo:

 

- Deves querer conhecer a razão deste convite. Chamei-te por duas razões...

- Sou um vosso servo, Majestade.

- A primeira razão é que decidi libertar-te...

 

Escutando estas palavras, o ulema arregalou os olhos, sorriu de satisfação e respondeu:

 

- Mas em que condições, meu senhor?

- Na condição de não voltares a meteres-te em política. O conflito doutrinário e diplomático que me opunha ao Califa terminou. Mas pode acontecer que volte a ter problemas com ele, e nesse caso não te quero a tomar partido por Bagdad. Estamos de acordo? – Respondeu o Sultão.

- Tomarei partido por Alá. E o Califa é o sucessor do Profeta e líder espiritual de todos os muçulmanos, excepto dos ímpios persas, claro está.

- Mas não te envolverás em política!!! – Disse o soberano, furioso, acrescentando: Poupei-te a vida, fiz tudo para tornar a tua prisão o mais confortável possível e agora vou libertar-te. Exijo que deixes de me causar problemas! Já tenho suficientes!

- Não vos causarei problemas, meu senhor, agora que fizeste as pazes com o sucessor do Profeta. – Respondeu o clérigo.

 

Mais calmo, o monarca afirmou, com ar magnânimo:

 

- Ainda bem que estamos entendidos. Não abuses da minha misericórdia.

- Agradeço a confiança que em mim depositas, meu senhor.

 

Gerou-se silêncio por alguns instantes. O Sultão olhava de novo os astros, enquanto o religioso digeria lentamente as novidades. Vendo que o monarca nada dizia, o ulema perguntou então:

 

- Disseste que me chamaste aqui por dois motivos. Qual é a segunda razão?

 

O Sultão adoptou uma postura mais amigável, aproximou-se do clérigo e respondeu:

 

-Sei que és o mais sábio dos ulemas do meu reino. Quero pedir-te conselho a respeito de uma questão que me apoquenta...

- Sou um simples estudioso da Sunna e dos Haddith do Profeta. Mas terei muito gosto em ser-vos útil. – Respondeu o ulema, com visível orgulho.

- Diz-me: deve um Sultão esforçar-se por agir sempre da forma correcta, fazendo o bem e evitando derramar sangue?

- Sim, é essa a vontade de Alá. – Sentenciou o clérigo, com ar douto.

- Tenho procurado governar com justiça, protegendo os fracos, os órfãos e as viúvas, e estendendo o manto da minha protecção também sobre os seguidores do Nazareno e os fiéis da Lei de Moisés, pois o Profeta tal nos ordenou; tenho colocado o bem do Estado acima de tudo o resto, incluindo os meus próprios interesses, embora tenha um poder ilimitado sobre todos os viventes no meu reino… Mas uma dúvida me apoquenta, e por isso te chamei aqui: continuarei a ser um homem justo se, para salvar o Estado e a paz pública, tiver de agir de forma cruel e impiedosa?

 

O ulema coçou o queixo, pensou durante alguns instantes e respondeu:

 

- Se for para um bem maior, então o Sultão poderá escolher o mal menor.

- Ainda que isso implique a morte de inocentes? – Perguntou o soberano, com ar cândido.

- Sim, se isso for necessário para evitar um mal maior...

- Como uma guerra civil, por exemplo? – Perguntou novamente o Sultão.

- Sim, se dessa crueldade resultar um bem maior, como o evitar do deflagrar de uma guerra que dilacere o Estado, então será legítimo o modo de agir do soberano.

- E Alá compreenderá essa atitude? – Inquiriu o monarca, ansioso.

 

Enchendo o peito, o ulema respondeu:

 

- Sim, porque esses actos serão necessários para salvaguardar o bem-estar e as vidas da maioria dos súbditos do Sultão. O Soberano deve ser impiedoso contra aqueles que ameaçam o seu trono, pois se o ocupa é por vontade de Alá! Aqueles que ameaçam o trono merecem a morte, pois é contra Alá que se revoltam! Não podeis ter piedade para com os traidores! “Aquele que hesita em usar o cabo da espada, morrerá na ponta dela!”, disse o Profeta!

 

Após proferir isto, simulando genuína repulsa pelos traidores e revoltosos, o ulema cuspiu no chão. O Sultão voltou-se novamente para as estrelas, cofiando a barba, e o ulema não ousou interrompê-lo na sua reflexão. Passaram-se assim alguns minutos, até que o monarca se voltou para o seu convidado e disse:

 

- Podes ir. És um homem livre. Obrigado pelos teus conselhos.

 

Pleno de orgulho e satisfação, o ulema fez uma respeitosa vénia e abandonou os aposentos reais. Numa só noite, deixara o cárcere e tornara-se conselheiro de Sua Majestade! O que diriam os familiares e vizinhos! Contente da vida, foi apressadamente para casa, desejoso de rever os seus e de lhes contar as boas novas.

Entretanto, após a saída do clérigo, o Sultão mandou chamar novamente o Comandante Hassan. Os criados acordaram o oficial que, embora resmungão, acedeu prontamente ao pedido do monarca. Cheio de sono, voltou a envergar a couraça, a espada curva e o turbante, dirigindo-se de seguida aos aposentos do Sultão. “Será que aquele maluco ainda está a olhar para as estrelas?”, interrogava-se o Comandante da Guarda enquanto caminhava apressadamente pelos corredores do palácio.

Encontrou Sua Majestade sentada na sua escrivaninha, rabiscando algo numa folha de papel. Hassan apresentou-se e aguardou ordens, enquanto o soberano acabava de escrever.

Quando terminou, o Sultão estendeu-lhe uma folha de papel e disse, num tom soberano e imperioso:

 

- Nesta folha estão os nomes de cerca de cinquenta pessoas que têm conspirado contra mim. Graças aos meus espiões, soube que preparavam um golpe que teria lugar na próxima sexta-feira. Cairiam sobre mim quando me encontrasse a rezar na Grande Mesquita.

 

O Sultão engoliu seco, como se lhe custasse ter que dizer tudo isto, após o que, retomando o fôlego, prosseguiu:

 

- Entre essas pessoas, encontram-se o meu irmão Turgan e os seus filhos, além de vários nobres e de generais do meu exército. Devem ser imediatamente detidos e executados, sem piedade. Trata disso com a maior brevidade possível, e de maneira a que nenhum deles escape.

 

Hassan olhou para a folha de papel branco. Consternado, verificou que alguns daqueles homens eram seus amigos e conhecidos. E foi com alguma surpresa que constatou que, no fundo da lista de pessoas a abater, encontrava-se o nome do ulema Uqba Ibn Nafi.

Filipe Alves, 25 anos, vive em Lisboa e é finalista do curso de Comunicação Social.