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Corpo e alma João S Martins - O Senhor Doutor já chegou? - Ainda não, mas não deve demorar muito. Saiu há uma hora para ir ver o Ti Ramiro a casa e, pelo que ele disse antes de sair, não deverá andar fora muito tempo. Faça o favor de se sentar que mal ele chegue vai logo atendê-lo. Felício, já que ali estava e uma vez que a manhã estava perdida, não lhe valia a pena ir-se embora e voltar mais tarde. Mesmo não estando ali por qualquer razão muito especial, nada em particular o atormentava, mas, pelo sim pelo não, havia algo que gostava de perguntar ao médico, algo que nem è esposa ainda contara: aquelas tremuras no braço esquerdo, que de quando em quando o atormentavam, por vezes se transmitiam ao corpo todo, outras vezes se concentravam no braço direito, andavam já algum tempo a pô-lo de sobreaviso. Na noite anterior vira umas notícias na televisão sobre umas doenças novas, nem ele mesmo percebera muito bem, e decidiu que na manhã seguinte iria ver ser arranjava uma consulta com o doutor Santiago. Fosse o que fosse, para o bem ou para o mal, queria saber o que se passava com ele, com estas estranhas manifestações do seu corpo.
Passaste por mim na álea das mesas do restaurante qual avenida subitamente alargada só para tu expraiares as tuas formas. Estavas engalanada para a festa, e eu solene e compenetrado. Meus olhos eram máquina fotográfica, radiografia, sem quererem perder um centímetro de ti. Com velocidade estonteante rebobinava o filme, acelerava-o numa antecipação, antevisão que a distância alimentava e ainda limitava. Foi questão de segundos. Ondulavas, e eu tentei parar-te a película e a imagem, prolongando-as. Não deixaste, curta era a distância entre o canto onde te recataras e o meio da sala, onde me encostara ao balcão de serviço procurando na multidão, quem sabe se esperando por ti. Que terás lido em meu olhar? Se foi isso, não posso negá-lo; não me atreveria a mentir-te. Também não quero perturbar a tua intuição ou transferir para ti as minha dúvidas. Deixemos antes tudo como no princípio: devo ter dito alguma coisa, escutaste-me a voz no subtil canto do meu corpo. Nao te perturbaste, seguiste; avançaste decidida, passaste por mim com um sorriso confiante, algo altivo, e disseste, ou melhor, murmuraste, deixas-te no ar que me rodeava um: Obrigado! e prosseguiste tão segura, ondulante e vistosa como quando avançaras nesta diagonal de canto a canto do salão, por entre a sala cheia ecorredores de solidão. Por força do traçado e do trejeito desejei reencontrar-te. Alguém escrevera: Não. Ficavam assim feridas e isoladas as memórias de mais uma despedida, como quem chega ao fim na leitura de mais um capítulo, que não a do livro ainda por ler... Sentou-se, calado, na cadeira do canto. Mesmo que quisesse falar com alguém estava sozinho. Mesmo que estivesse alguém não teria ainda chegado a hora de contar as suas preocupações, como sempre acontecia nas visitas ao médico e ao barbeiro. Eram as salas predilectas de troca de informações e partilha de preocupações. Mas neste seu caso, mesmo com companhia, pouco haveria a partilhar, para além dos medos e insegurança. Por isso, porque se encontrava sozinho e por vontade própria, decidiu remeter-se ao silêncio e aos solilóquios dos seus pensamentos. Quando, esta madrugada, ou seria um caminho longo noite fora, me afaguei no teu corpo (… penso agora, foi no fim da manhã ou seria princípio de tarde), procurava mais que um corpo, o teu corpo, o teu calor, o teu bafo ou o teu ar. De olhos fechados vi o teu corpo aberto, quererias falar? era menos do que eu procurava e mais do que eu pensava ser provável encontrar no meio dessa navegação escura, no pleno de uma noite ainda meia. Estaria eu suficientemente desperto para escutar e entender essa voz de calor? para escutar as suas meias palavras... A empregada lá se ia desdobrando por entre o bater das portas e a campainha do telefone: não, ainda não chegou... voltando depois as tarefas que ele já conhecia de visitas anteriores, preparando os instrumentos, limpando as ferramentas do artífice doutor, não fosse chegar sem se fazer anunciar algum padecente de dores de dentes à procura de uma extracção ou então outra emergência sem aviso nenhum e que obrigasse o Senhor Doutor a sair numa corrida. Mas toda essa azáfama da polivalente assistente, secretária, enfermeira, o deixava ainda mais só. Navegava à deriva, náufrago no meio dos lençois que me afagavam o corpo semi-nu, ao mesmo tempo que este me faziam sentir as marcas das rugas, desenhos de mapa rupestre, que me magoavam. Seriam porventura marcas inaudíveis da noite e do teu silêncio. Até este eu tinha dificuldade em escutar. A respiração distante e pausada, logo acelerada e insegura, transportava-me em viagens inarraveis e perguntava-me e mim mesmo por onde andarias naque momento, nessa mesma hora. - Pelo tempo, não deve demorar! Felício escutou-a mas já não a viu. Melhor, adivinhou-lhe os passos e o corpo a empurrar a porta de passagem para a sala-escritório-consultório, tantas vezes transformado em confessionário. Desaparecera. Sim, repito, tu não estavas ali, parecias bem perto, quase, é verdade, quase junta a mim. Só que desta vez, como noutras, era um quase gigante, muito extenso, distendido e distraído, um quase longe. Não me perguntes a mim, como eu o fiz, por onde pairavai eu também àquela hora da noite, por que viagens e transportes, montes ou barcos eu andaria, que caminhos ou florestas meu corpo percorria, que mapas e caminhos minhas mãos tentariam decifrar, estando elas, apesar das viagens e pulsões, paradas, paralelas e imóveis ao lado do torso. Presas do corpo ou da imaginação? Até esta nem eu sei bem por onde ela andava. Visitou-me esta tarde com um corpo de noite, o meu corpo desta noite, (ou o teu?), consciente de que chegara atrasada àquele encontro interrompido, que afinal nem isso foi, porque quase nem começado fora. Será que foi encontro? Ou desencontro por começar? Ouviu lá fora o chiar dos travões do carro do Doutor Santiago. Era uma música inconfundível que inevitavelmente o anunciava, fosse onde fosse. O velho carocha era parte íntegra e fidedigna do brasão do doutor, desde o tempo em que este se formara nos hospitais da universidade. Já fazia parte do seu diploma de médico!... gracejava. Entrou directo pela porta lateral semi-aberta, mais discreto do que chegara, sem seixar rasto. Depois, as luzes lá fora ou o roncar do camião do lixo. Quem o mandou vir? porquê passar a esta hora, quando ainda nada havia para recolher, nem muito nem pouco, os nossos ruídos ou mesmo os nossos resíduos, nada, mesmo nada, quando muito os frutos da ausência? Viraste-te para o lado, para um outro lado, teu, que não meu! Tocaste-me na cabeça, disseste-me mais tarde que encontraste uma borbulha ou um sinal. Sinal de quê?O sinal que eu esperava não o encontrava em mim, nem em ti. Certamente era a noite, comprovo-o agora, a noite dos sentidos. E sinto-a como ela foi, como estava ou não estava a ser diferente, tão igual e diferente de tantas outras. Agora é a empregada que o chamava para o cubículo onde se prepararia para esta revisão periódica, cíclica invasão do corpo; decididamente iria desta vez falar destas tremuras. Será que se lembra de mim? e me adivinha a noite e dirá que são restos desta conversa ou da sua falta nestas noites de insónia, vésperas de silêncio, apetecia-lhe dizer. A porta entreabriu-se para deixar passar o convite - Pode entrar, Sr Felício! Não é que o Doutor o atemorizasse, ou não fossem eles do mesmo ano de ir às sortes. Tinham feito a escola primária quase lado a lado, pelo menos nos assentos que lhes estavam distribuídos na sala da escola, só que depois... enquanto Santiago seguira para o liceu e depois para a umiversidade, regressando ao fim de uns anos com um diploma, caneta e sabedoria para passar receitas e curar umas mazelas, Felício dedicara-se aos negócios da família: compras de semente de erva, de batata, uns cabritos, fazê-los produzir, render, para depois os vender com alguns escudos de ganho. Fome não passava, nem ele nem a sua Germana que, para além de companheira fiel nos campos e nas noites frias, o ia recompensando de tempos a tempos com uns rebentos, promessas dele próprio. Se o calor não me falava, diluído no silêncio do teu corpo, o ar, esse, tinha uma mensagem que eu tentava entender nas baínhas dos lençois, mas logo era abafada pela distância das entrelinhas do teu corpo e pelo silêncio de ti, dentro de mim, pela inacção abatida e dormente das minhas mãos. Esperou de pé no meio da sala, em frente à secretária, onde o Doutor Santiago ia escrevendo e falando ao telefone sem tirar os olhos dos livros. As perguntas iam caindo em catadupa: - Entáo diga lá, Felício, o que o traz hoje por cá! - A Germana, está boa? - Estou admirado de a não ver por aqui consigo! - Da última vez que vos vi estava com bom aspecto, depois de nascer o teu rapaz. Quantos é que são? - Quatro raparigas e um rapaz? - Vá lá, à quinta, acertaste. - Agora toma cuidado, hem, que a mulher não é de ferro... Aproveitando uma pausa no intervalo de tantas perguntas, lá conseguiu começar a falar: as mãos, aquela tremideira que o atacava de vez em quando, o receio de estar a desenvolver uma daquelas doenças raras, que agora é moda das pessoas ricas... - As doenças não escolhem entre ricos e pobres, Felício! Mantinha-se reservado, desconfiado. - Pois é, até costumam atacar mais os pobres, pois estes não sabem do que sofrem, muitas vezes até que chega o fim... Só se houve dizer que foi um mal ruim que lhe deu... - Esqueça lá isso. Diga-me lá, o que é que se passa com as mãos? Começava a senti-las suadas... Por onde começar? Eram umas tremuras, que começam no braço esquerdo, e depois se prolongam ao direito ou até a todo o corpo, é o frio que parece tomar conta dos braços e das costas sem avisar ou sem qualquer razão, as dores nas juntas dos joelhos, é este cansaço que me abate à noite, me descontrola e mantém acordado... e foi desfiando um ror de maleitas; já que estava ali a falar com o doutor tinha que deitar tudo cá para fora, pois no fim pagaria o mesmo. Podia ser que assim ele sempre desse com alguma coisa e receitasse alguma purga milagrosa... Mas, no fim de tudo, acabava sempre nas mãos... Reparo que também elas estão adormecidas, percorridas como que por um tremor, a caneta escorregadia. Já perguntei ao doutor que me desse uma resposta, que me dissesse alguma coisa, mas essa coisa chamada resposta ele não a tem. Diz-me ele que é da idade, do tempo… Desculpas de quem também não sabe ou não quer dar uma resposta que só eu procuro e tenho o direito de saber
Alto. Pareces que queres falar, dizer algo. Não, não é para acordares os sentidos, que os meus já despertos estão. E neste pré-encontro se misturam as notícias de ontem, os gemidos dos anos somados, os medos e receios do amanhã, de quando me dizes para não falar alto (quisera agora escutar-te, fraco ou forte), de quando te digo que não quero falar porque não entenderias o que quereria dizer-te, quando não sei o que esperas da minha boca... se palavras, verdades ou beijos. E são essas vezes todas juntas, essas vozes claras e trocadas, sem um conflito de vai-vém que elas já não percorrem, nessas paragens das conversas suspensas e inexistentes que elas se misturam no teu silêncio, na ausência da tua voz, das tuas palavras, do teu corpo, de ti, do teu olhar. Mas como posso eu esperar que ele me fale se tu dormes, agora de olhos cerrados. Felício, distraído... - ... sente-se aí na marquesa, vá desabotoando a camisa, que eu vou auscultá-lo, observá-lo da cabeça aos pés, e fazer alguns testes. Se for alguma coisa, logo se verá. Não me parece nada de especial pelo que me está a descrever, mas sempre vamos desfazer todas essas dúvidas e deixá-lo ir tranquilo por mais alguns anos! Obedeceu em silêncio. O receio dava lugar em simultâneo ao temor e à confiança. Rodaste e encostaste o teu corpo ao meu! Foi isso que quiseste dizer, ou antecipei-o por vontade. Quererias agora falar, dizer mais? Mantinhamo-nos os dois nessa ausência de palavras que agora a vejo tão intrínseca e inseparável da hora da noite. Absorvia eu já o teu calor, qual corpo condutor segundo as leis físicas de comunicação entre os corpos, electricidade, pensava eu quando jovem; outras vezes era mesmo calor que queimava. Depois lhe ter observado os olhos, ouvidos e garganta, de ter medido a febre e se ter deitado, agora era o doutor que lhe passava as mãos pelo abdómen, fazendo pressão aqui e ali; depois, batia com o martelinho nos joelhos, nos cotovelos (parecia brincadeira de crianças); estava disposto a esperar. Calado. Ele e o Doutor Santiago. Pareceu-lhe escutar o doutor murmurar qualquer coisa imperceptível. Adensava-se o mistério à medida que ele prosseguia e abanava a cabeça. Dúvida? Negação? Sonhei ouvir-te. Engano provocado pela ansiedade e pelo desejo ou pelo eco dessas palpitações de um coração esperante, quase em desespero. Era o romper, como quem cai de uma cadeira e se estatela no chão. Mas era um cair almofafado e irreal, sentindo o corpo flutuar, suspenso, e agigantar-se numa levitação metafísica e ultrassensorial. Já não sentia os leçois, a rugas ou dobras, nem mesmo a cama. Estaria simplesmente suportado por uma almofada de insegurança e ansiedade. Interrompeu a escuta e divagação. Estava só, o doutor saíra sem dar sinal, ou então ele não dera por isso, de tal maneira absorto e distante.. - Pode vestir-se, senhor Felício! Desse silêncio o despertaram os gemidos das portas a espreguiçar-se, deixando passar dúvidas de almas e esperanças de corpos castigados, em cada passo desta hora parada e ansiosa na visita à câmara das questões, mercado de receitas e esperanças de saúde. Que lhe iria dizer? Teria chegado a alguma conclusão aceitável? No laboratório das análises clínicas iriam mais tarde tentar desvendar o mistério ou, pelo menos, tentar encontrar as pistas para a resposta em procura, tentando com esses resultados entreabrir os segredos interiores do físico e desenhar o mapa da vida, a carta de marear da velhice que se aproximava. Não será mais fácil encontrar essas respostas nas cartas que te enviei? Ou então nas mensagens deixadas para um dia os filhos verem e relerem, e eles próprios se reverem, sempre marcado por essa pressa, quase urgência de folha de serviço, para ainda ter algum tempo e receber a recompensa de tanta procura. Cada vez que a olhava, real, imaginado, ou sonhado, os meus olhos navegavam-lhe o corpo, banhando-se no lago dos olhos, por montes e vales, até à confluência da cascata de água fresca, morte de todas as sedes, alimento de desejos rejuvenescidos e reinventados. Recompôs-se, apertou os botões do casaco, passou à outra sala, e entre um aperto de mão e um reconfortante bater nas costas, ouviu o doutor dizer-lhe; - Vá com calma e em paz, Felício. Voce está rijo que nem um pero. Vá fazer as análises e volte cá daqui a um mês para saber os resultados; mas com certeza que não vão trazer nada que eu não tivesse visto. Decidiu contar à Germana a viagem desse dia e a paragem no consultório do Doutor Felício. Não esperou por muitas palavras, mal ouviu o nome do doutor. - O que te disse? - Porque foste lá? - Doi-te alguma coisa? - Porque não me disseste nada? - Mas que tinhas tu assim de tão urgente e de segredo para nada me contares? - Receitou-te algum remédio? Lá foi tentando explicar-se o melhor que pôde, deixando em aberto as conclusões que o próprio Doutor Santiago não fora capaz de fechar. Palavras, agora, ou a transmissão de um silêncio quente, de tão demorado que corria o risco do requinte, e de se tornar requentado e morno. Nestes corredores de silêncio, atravessando os minutos calados e escuros da noite, procurava ainda o que começara por ser ausência para, de forma lenta e escura como as horas de um relógio da noite, se transformar em subreptícia distância. Sentia-se melhor! Mais aliviado! - Mas já estás melhor, não estás? - Eu estou bem! Não tenho nada. Não passou tudo de um temor e de susto passageiro; mas agora já estou pronto para outra!... E Genoveva rematou ao vê-lo mais calmo: - Pois é! O doutor Felício é um santo. Não te encontrou doença nenhuma porque não a tinhas. Ainda bem. Mas olha, se não curou as mazelas do corpo, porque não as havia, pelo menos fez-te bem à alma!...
JOÃO S MARTINS, é português, vive nos EUA e publicou quatro livros, (3 de poesia e um "misto" de poesia e histórias curtas) - Os 2 mais recentes na editora "Amores Perfeitos".
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