Cetim Vermelho

O maior desejo de Cícero Romão era dormir naquela cama. Não sozinho, é bom deixar claro, mas com Mariana. Era imensa, redonda e com lençol de cetim vermelho, sem contar o fantástico labirinto de espelhos que multiplicava tudo naquele quarto. "Essa gente tem bom gosto", pensava enquanto criava em sua imaginação, que era um baú de fertilidade erótica, as maiores loucuras de amor com sua amada. Aquilo parecia, para ele, ter sido feito na medida para uma gata como Mariana, que era todas as mulheres em uma. "Isso aqui é o verdadeiro Paraíso para a minha Eva".

De vez em quando surgia em sua mente uma pequena dúvida, própria dos que acalentam desejos quase impossíveis: será que ela iria gostar? Achava que sim. "Mariana gosta de vermelho", dizia a si mesmo. Ela era, na sua compreensão, a verdadeira mulher, fêmea de fazer qualquer homem se mais homem e, "mulher assim", repetia em pensamento, "é fogosa, adora cores fortes e sensuais"; aquela cor passara a ligá-lo ao anseio de possuí-la a qualquer custo. "Nossa primeira vez vai ser aqui", sentenciou.

Ainda estava nítido nas lembranças de Cícero o reencontro com Mariana, quinze anos depois que se mudara da sua cidade natal. Ela estava vestida com uma saia vermelho-sangue, justa, curta, revelando as pernas mais belas que já vira, embora o seu julgamento não possa ser considerado como de uma lúcida imparcialidade.

Lembrava, ainda, que estava com os cabelos trançados, batom rosa-choque e um top jeans que revelavam seios fartos que o deixara quase sem fôlego e o fez redescobrir dentro de si um reprimido amor adolescente. Para ele, ali estava a razão do seu existir, o motivo de ainda estar solteiro aos 32 anos de idade.

Só não ficou mais feliz ao revê-la porque se encontrava de braços dados com Reginaldo. Tinha se casado com um de seus amigos de infância. Pediu perdão a Deus e ao padre Cícero, seu padrinho, pela desmedida inveja que sentira de Naldo.

O vermelho passou a ser, desde então, a sua cor preferida. Dele e, por dedução própria, de Mariana também. Trocou o fusca branco por um vermelho; passou a torcer para todo o time "rubro-qualquer-coisa".

Aquela cama ficou associada à Mariana desde o dia em que estivera naquela suíte executiva do Delírio Motel para fazer reparos no sistema hidráulico, imaginou-a ali, ao seu lado. Ficaria olhando seu corpo moreno por todos os ângulos naquele mundo de espelhos. Imaginava que seria perfeito para a primeira noite deles. Ele sabia que, com Mariana esparramada no cetim vermelho, à sua disposição, a amaria de todas as formas de que já fora capaz de imaginar. Proporcionaria-lhe prazeres nunca antes imaginados por ela.

"Quem sabe não estou perto de realizar esse meu sonho?", pensou com uma esperança consoladora.

Passados quatro anos daquele reencontro, e ainda distante de qualquer contanto com Mariana, ela e o marido vieram morar numa casa amarela em frente à de Cícero Romão. No início ficou mais desolado que satisfeito, afinal saberia, mesmo involuntariamente, que todas as noites em que olhasse para aquela casa veria o "outro" desfrutando da mulher de sua vida. Porém e para o seu consolo, teria a oportunidade de vê-la com mais freqüência.

Os fatos se desenrolaram de uma forma que o fez achar que essa vizinhança havia sido um golpe de sorte. Por terem sido amigos na adolescência, o casal continuamente o convidava para visitá-lo. Qualquer acontecimento era motivo de se reunirem: aniversários, Natal, Ano Novo, tudo valia uma confraternização dos "conterrâneos".

Cícero, apesar de agora achar que estava solteiro por causa de sua amada Mariana, na verdade não conseguia se imaginar como um ser monogâmico. Tinha várias e renovadas namoradas, mas nunca as levava para a sua casa desde que a sua deusa e o sacana do Reginaldo foram morar na mesma rua.

Conscientemente, como parte de seu ainda indefinido plano de conquista, queria que Mariana pensasse que ele era um ser solitário e carente. Com essa tática, esperava despertar a compaixão de Mariana e, "nunca se sabe", talvez ela pudesse num momento de altruísmo sexual, desejar consolá-lo. A sua cobiça daquele corpo, ainda imune aos seus caprichos, levava-o a estes tipos de deliro.

A oportunidade tão esperada chegou num domingo, quando fora almoçar na residência do casal. Enquanto esperavam a comida ficar pronta, ficaram bebendo cerveja e ouvindo discos da coleção de musica sertaneja. Falaram sobre o jogo da tarde e discutiram sobre quem ganharia a partida. Reginaldo era torcedor do alviverde time do Goiás e, Cícero, que num momento em que já sabemos, passou a torcer pelo alvirrubro Vila Nova, como seria de esperar, não chegaram a um acordo.

O almoço terminou quase na hora da partida e, como o convidado não era de ir a estádios, Reginaldo, para um total e indisfarçável espanto de Cícero, pediu-lhe que fizesse companhia à esposa enquanto iria, com mais alguns amigos de trabalho assistir ao jogo. Não a queria solitária numa tarde de domingo. Com uma explosão de alegria interna, concordou com a "tarefa".

Ele e Mariana continuaram a beber e a relembrar episódios do tempo em que moravam no interior. Ela usava short de jeans e uma camiseta sem mangas de um candidato a deputado. Cícero sentia calafrios pelo corpo ao ver os movimentos sensuais daqueles seios, livres de sutiã (e do marido), sob um tecido tão fino e insinuante. Tinha dificuldades de acompanhar a conversa com a coerência necessária. Some-se a isto o fato de já terem bebido bastante cerveja.

Mariana levantou-se para colocar um outro cd para tocar, enquanto Cícero foi até a cozinha buscar mais uma garrafa gelada. Viu que era a última. Enquanto a abria, achou que se queria finalmente realizar o seu louco desejo, a hora era aquela. Só não sabia como começar o ataque, pois além da ansiedade, ela não abria nenhuma brecha. Voltou para a sala e anunciou que era a última "cerva" que havia na geladeira.

"Agora que tá ficando bom?", ela disse dengosa, fazendo biquinho. "Eu morro", pensou Cícero com o coração descompassado. Não pensou duas vezes e a convidou para irem à sua casa, "onde devia ter ainda, umas quatro garrafas". Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, falou que Reginaldo poderia demorar. "É só deixar um bilhete dizendo que fomos pra lá". Para seu espanto, ela concordou. "Mas antes vamos terminar essa aqui e, depois eu vou tomar um banho rápido, tá bem?".

Claro que estava tudo bem. Mariana cantava, acompanhando a música que saía das caixas de som, com olhos fechados, cheia de emoção etílica. Cícero, de boca aberta, a olhava fascinado, contendo um ataque desesperado de paixão libidinosa.

Ouvindo o barulho da água que caía do chuveiro e imaginando-a embaixo sem aquela roupa "indesejável", não resistiu. Como a velha porta do banheiro tinha algumas frestas, aproximou-se sem fazer barulho e pôde vê-la, finalmente, melhor do que sempre a via em seus sonhos e pensamentos.

Nuazinha, como nasceu. Como nasceu, não: era uma linda mulher de corpo moreno e bem feito, com seios empinados e púbis de pêlos negros e abundantes. Sentia o sexo arder, pulsando acelerado ao ritmo do coração.

Teve que se conter, com muita dificuldade, para não arrombar a porta.

Alisou-se sobre a calça, suou frio e quase se masturbou não o fez por ter sido um banho rápido. Logo estava caído na poltrona, de pernas bambas, trêmulas.

Foram para a sua casa. Ela estava com aquela saia que usava no dia em que se reencontraram. "Isso é um sinal", pensou satisfeito. A blusa de malha revelava que ela não tinha colocado sutiã. "Meu Deus... É hoje! É hoje...".

Já acomodados, com os copos cheios, música no microsystem, Mariana, convidou-o para dançar. "Ela também tá querendo", pensou cheio de entusiasmo e tesão. Mas não conseguiu se levantar; as pernas trêmulas, somadas à grande quantidade de bebida, não o obedeciam. "Não sei dançar", mentiu.

Mariana não se fez de rogada e ficou dançando sozinha, sorrindo, irradiando felicidade. Cícero contou a ela o trabalho que tinha feito no Delírio Motel. Ela perguntou-lhe como era o quarto. Contou com detalhes, sem esquecer de dar ênfase à colcha que forrava a imensa cama e aos espelhos.

Tomou fôlego e coragem para dizer que achava que aquilo tudo combinava com ela. Principalmente a colcha de cetim vermelho. "É lindo aquele quarto, cê iria adorar", disse, "se... se você quiser... posso te levar lá para ver".

Ela nada disse. Continuou a dançar sorrindo. Depois de algum tempo falou: "E como é que a gente iria? Todo mundo conhece seu carro vermelho...", falou.

"Meu Deus, ela estava topando!" Sentiu o coração na boca e uma indesejável falta de ar. "Vamos de táxi...", voltou a dizer, com dificuldade.

Ela ficou pensativa, por instantes que lhe pareceram eternos. Olhou-o nos olhos, parando de dançar e Cícero vendo um olhar de gata no cio, se remexeu na poltrona. Não suportou o suspense: "Vamos Mariana, cê nunca mais vai esquecer!".

A música chegou ao final. Ela pediu mais uma cerveja e ele, meio cambaleante, foi buscar. Voltou com copos limpos e os encheu. Entregou um para Mariana que já estava sentada e meditativa.

Aproximou-se dela e ao levar as mãos em direção aos seus cabelos, ela se esquivou e disse que ainda estava pensando. Passado alguns "eternos" instantes ela disse: "Acho que não vou não". "Mas porquê?". Havia desespero e incredulidade na voz de Cícero. "Cê vai adorar, mesmo!...".

Ela o olhou com certa tristeza e disse: "é que eu não gosto de vermelho... E tenho alergia a cetim".

Cícero não desistiu, ainda, dos seus sonhos com Mariana. "Ela ainda vai terminar percebendo o quanto a desejo, o quanto de prazer posso lhe dar".

Contudo, desde esse dia ele passou, também, a ter verdadeira aversão por cetim e pelo vermelho.

Vamos ser justo com Mariana e solidário com Cícero: cetim vermelho é, na verdade, uma peça de um tremendo mal gosto!

OSAIR MANASSAN
- publicitário e escritor, nasceu em Hidrolândia, Goiás, em 21/03/1958, mora atualmente em Goiânia.