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Cecília
Cida Sepulveda
As lombrigas em forma de couve-flor no buraco da privada. O sol
não entra. Não pensa. Mão na boca. Morde de anseio. Vestido de
algodão, borboleta e pé no barro. Ferida na coxa. A mãe canta na
cozinha. Magra de fome, bonita, dá pena. A mãe deu remédio e a
barriga sumiu. Não se lembra de mais. Só a couve-flor não passa
na garganta.
Crista de galo nasceu perto do portão. A mãe não gosta. É de um
vermelho que não é. Dói de olhar. Dá vontade de conversar. Saber
o segredo do encanto. Subiu na goiabeira. Escorregou e foi
caindo, estrepando a barriga, tem cicatriz. A mãe disse
bem-feito, pensa que é macaco.
Acorda com os galos, no frio, fogão de lenha, a marmita do pai.
Rádio ligado. O mundo é a provocação da brasa. Tio Bepe vem
visitar. Sentam em volta da mesa. Ele conta estórias, milagres e
perigos. Na cama, o sono não vem. Escuta ruídos. Assombração
atrapalha viver.
Leite de cabra, avó na janela, domingo aquece. A vida é um jogo
de rostos. O pai no truco. Tio Bepe masca a língua – é nojento.
Quem vê cara não vê coração. Por dentro, um monte de tripas, viu
no livro. Por ali as lombrigas iam e vinham, a comida apodrecia.
Por fora, a lesma. A mãe dizia, é uma lesma. No almoço mexia
remexia a comida. Arroz feijão, carne moída com chuchu. Balançava
a cadeira pra trás e pra frente. Cheia de mania.
Na casa do centro outras façanhas. Vender banana na rua. Dente
podre na boca. O dentista da escola com a mão gigante e macia.
Nasceu a irmãzinha, roxa de morte. O caixão branco no meio da
sala. A mãe no hospital. A vida acordava tristeza. Dó da mãe.
Aprendeu a rezar no catecismo. As filhas de Maria umas chatas.
Jesus, encanto, malícia de viver. O pai perdeu o emprego. Chegou
arrasado. A casa custou a indenização, sem água e luz, sem forro.
Chão de cimento. Vida se pega no laço.
A jabuticabeira na porta da cozinha crescia. Subia nela. O pai
vendia porco e frango. No natal, a faca no coração do porco. O
pescoço destroncado do frango. Festa e horror. O grito do porco
insuportável. Corria para o portão, mãos nos ouvidos. O grito a
alcançava. Mágoa.
O vento na cara. O vizinho de olhos verdes. Reza pai-nosso e
ave-maria. O padre acaricia o rostinho – sagrado desejo. Meu pé
de laranja lima e a pulga nas pernas. O cinema, uma caixa escura,
medo e curiosidade. Pisava leve. O herói machucava dentro.
Estranhava sentir.
A lua gemia. Gato e vaga-lume no quintal. Chegou já era
madrugada. A mãe esperava, a cinta na mão, ódio no coração. Bateu
na porta, a chave girou por dentro. Abriu, não viu ninguém,
receou. Entrou. Três cintadas e labaredas nas faces. Chorou,
chorava. Amava e odiava. Mãe e pai, mito e nostalgia. Pediu a
Deus para morrer. A noite exultava. Não sabia doer na beleza.
Acordou ao meio-dia, vestiu camiseta e shorts, chinelas. Não
comeu. Passou a pinguela, o rio da infância. Espuma de sapo na
margem, pedregulhos e girinos, cheiro de merda. Correu, o pasto
oprimia, deixou para trás, afundou na caminhada. Bem longe o
areal, subiu, deitou-se, esperou os corvos. Morrer de areia, sol
e urubu. Olhos no azul, nas nuvens. Se aparecesse um louco,
tirava sua calcinha, arrebentava com ela. Castigo de Deus, mãe
não se deve negar.
Desceu do areal num súbito. Correu, passou o pasto, ofegava, a
pinguela, a viela. Deu com a carranca da mãe no quintal.
Fechou-se no quarto, nó na garganta. No espelho, o rosto,
transtorno. Fixou-se na imagem que, lenta, se transformou na
imagem da mãe. Encostou a cara no espelho, queria entrar,
arrancar a mãe. Arrancar-se dela. Instante depois se desprendeu
da imagem, brusca. Caiu na cama e chorou até dormir.
Ele veio no cavalo mágico. Depois no retrato de formatura. Por
fim, nas brigas cotidianas. O amor é ilusão. Acabou-se no verão.
No inverno seria diferente. Outra beleza. A seiva que brota da
ferida aduba raízes. Vestiu-se de roxo, seda, batom framboesa, a
cidade cintilava.
Baile da primavera, rosas e begônias na praça. Meia-noite, a lua
e o desejo de lobisomem. O futuro cedia. As cores da estação
seduziam. A mãe mandou arrancar a jabuticabeira. Cecília dançava.
O salão rosado e cerveja de graça. Seguiu o parceiro até o carro.
Línguas aflitas.
Amanhecia quando voltou para casa. A pé. Não queria companhia. A
ladeira esburacada. Os velhos no sono profundo. Entrou pé ante
pé. Caiu na cama.
Vazia.
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