Uma Casa Assombrada
(A Haunted House)


Tradução: Leonardo Vieira de Almeida

A qualquer hora que se acordasse havia uma porta se fechando. De aposento em aposento iam eles, de mãos dadas, levantando aqui, abrindo ali, certificando-se – um par fantasmal.

“Aqui nós o deixamos”, ela disse. E ele acrescentou, “Oh, mas aqui também!” “Está lá em cima”, ela murmurou. “E no jardim”, segredou ele. “Calmamente”, disseram, “ou iremos despertá-los”.

Mas não era que vocês nos acordassem. Oh, não. “Procuram-no; estão cerrando a cortina”, um deles diria, continuando a ler uma página ou duas. “Agora encontraram-no”, deveria estar certo, interrompendo o lápis na margem. E quando, cansado da leitura, poderia se levantar para ver com os próprios olhos, a casa toda vazia, as portas abertas, somente os pombos silvestres arrulhando de contentamento e o zunido da debulhadora ressoando na fazenda. “Afinal, que vim fazer aqui? O que desejo encontrar?” Minhas mãos estavam vazias. “Talvez no andar de cima?” As maçãs estavam no sótão. E então, descia de novo, o jardim quieto como sempre, somente o livro havia escorregado para a grama.

Mas eles encontraram-no na sala de visitas. Não que alguém jamais pudesse vê-los. As vidraças refletiam maçãs, refletiam rosas, todas as folhas no vidro eram verdes. Se eles se movimentassem na sala de visitas, a maçã somente mostraria seu lado amarelo. Apesar disso, um momento depois, se a porta se abrisse, distendido sobre o chão, suspenso nas paredes, pendendo do teto – o quê? Minhas mãos estavam vazias. A sombra de um tordo atravessou o tapete; das mais profundas fontes de silêncio o pombo silvestre extraiu o seu arrulho. “Salvo, salvo, salvo”, bateu suavemente o pulso da casa. “O tesouro sepulto; o quarto...” O pulso estacou. Oh, era aquilo o tesouro sepulto?

Um momento depois a luz tinha desbotado. Lá fora, no jardim, talvez? Mas as árvores teceram a escuridão para um feixe errante de sol. Tão puro, tão raro, friamente imerso na superfície, o feixe que eu buscava queimou atrás do vidro. Morte era o vidro; morte estava entre nós; primeiro para a mulher, centenas de anos atrás, deixando a casa, selando todas as janelas; os quartos escureceram. Ele partiu, deixou-a, foi para o norte, foi para o leste, viu as estrelas girarem no céu meridional; buscou a casa, encontrou-a abandonada sob os Downs. “Salvo, salvo, salvo”, o pulso da casa bateu com prazer. “O seu tesouro”.

O vento ruge na avenida. Árvores abaixam-se e dobram-se aqui e ali. Raios de luar mergulham e transbordam furiosamente na chuva. Mas o feixe de uma lanterna bate direto na janela. A vela queima perseverante e tranqüila. Vagando pela casa, abrindo as janelas, sussurrando para não nos acordar, o par fantasmal busca o prazer.

“Aqui dormimos”, ela diz. E ele acrescenta, “Beijos inúmeros”. “Despertando pela manhã” - “Prata entre as árvores” – “No andar de cima” – “No jardim” – “Quando chega o verão” – “Nas neves do inverno” – As portas sendo cerradas à distância, batendo suavemente como o pulsar de um coração.

Eles se aproximam, param na entrada. O vento diminui, a chuva escorre prateada no vidro. Nossos olhos escureceram; não escutamos nenhuma mulher abrir sua capa fantasmal. As mãos dele protegem a lanterna. “Olhe”, ele murmura. “Parecem adormecidos. Amor em seus lábios”.

Parando, segurando sua lâmpada de prata, eles olham por muito tempo e intensamente. Longamente se detêm. O vento se projeta, a chama ligeiramente diminui. Feixes ardentes de luar atravessam o chão e a parede, e, encontrando-os, tingem as faces inclinadas, as faces ponderando; as faces que sondam os adormecidos e buscam o seu prazer oculto.

“Salvo, salvo, salvo”, o coração da casa bate orgulhosamente. “Longos anos” – ele suspira. “De novo vocês me encontraram”. “Aqui”, ela murmura, “dormindo; lendo no jardim; rindo, rolando maçãs no sótão. Aqui deixamos o nosso tesouro” – Parando, sua luz suspende minhas pálpebras. “Salvo! salvo! salvo!” o pulso da casa bate furiosamente. Despertando, eu clamo: “Oh, é este seu tesouro sepulto? A luz no coração”.

VIRGINIA WOOLF (1882-1941) Nasceu Adeline Virginia Stephen, em 25 de Janeiro de 1882, em Londres, filha de Leslie Stephen, primeiro editor do Dictionary of National Biography, e descendente de uma família da "aristocracia intelectual" da Inglaterra vitoriana. Virginia viveu em Hyde Park Gate com os pais, três irmãos e quatro meios-irmãos, até à morte do pai em 1904. A mãe morrera em 1895, sofrendo Woolf a primeira de uma série de crises depressivas que acabariam por levá-la ao suicídio, afogando-se no rio Ouse, no Sussex. Depois da morte do pai, Virginia mudou-se com os irmãos para Bloomsbury e mais tarde iniciou colaboração de recensão e crítica literária com The Guardian e depois com o Times Literary Supplement. Casou com Leonard Woolf em 1912. The Voyage Out, escrito em 1908, foi publicado em 1915 e Night and Day em 1919. Mas é só com Mrs. Dalloway ( 1925) (A Festa de Mrs. Dalloway, na Ed. Cotovia) e depois com To the Lighthouse (1927) e por fim The Waves (1931) que Woolf se afirma como a grande mentora do movimento modernista e grande inovadora no domínio da narrativa. No período entre as duas guerras, Woolf esteve no centro da vida literária inglesa, reunindo o chamado Grupo de Bloomsbury (o crítico Lytton Strachey, o filósofo G.E. Moore, o romancista E.M. Forster, entre outros) e trabalhando na escrita e na edição, tendo fundado com o marido, a Hogarth Press, onde publicou a maior parte dos seus livros. A Haunted House and Other Stories, para que Leonard Woolf escreveu uma introdução em 1943, reúne algumas histórias já publicadas na coletânea Monday or Tuesday, em 1921.


O tradutor, LEONARDO VIEIRA DE ALMEIDA, é escritor e cursa o mestrado em Literatura Brasileira na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Autor do livro de contos Os que estão aí (Ibis Libris, 2002), e de contos publicados no suplemento literário Rascunho, do Jornal do Estado do Paraná, no jornal Panorama e nos sites literários Paralelos e Bestiário.