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Azar
Lycio de Faria
O velho dito espanhol — Yo no creo em brujerias, pero que las
hay las hay — foi o que me veio à mente quando soube da
história de Cortazar de Souza.
O estranho nome fora escolhido, antes ainda de ele nascer, como
uma homenagem de seu pai ao grande escritor argentino Julio
Cortázar. O primeiro indício de que o menino seria um autêntico
azarado surgiu no registro de seu nascimento, quando, por falha
do escrevente, foi omitido o acento.
A rigor, aliás, aquele fora o segundo indício. O primeiro
ocorrera no próprio nascimento de Cortazar. Quando sua mãe
entrou no carro, com destino à maternidade, desabou uma
tempestade de violência jamais vista na cidade. O percurso foi
uma verdadeira aventura, mas o jovem casal conseguiu chegar a
salvo e a tempo. O pior, porém ainda estava por acontecer. Um
raio atingiu o hospital, inutilizando suas instalações
elétricas. Nem o gerador, previsto para emergências, escapou à
fúria da Natureza. O menino nasceu à luz de velas e sua mãe por
muito pouco escapou com vida. O parto foi o mais difícil da
carreira do médico que a assistiu e que já havia ajudado mais de
mil crianças a virem ao mundo.
Nada disso, porém, despertou a desconfiança de que algo incomum
havia em relação ao garoto. Ele era fisicamente perfeito, lindo
e nem chegou a chorar quando nasceu. Começou logo a respirar e
quando levou a tradicional palmada de boas-vindas ao mundo,
sorriu. Pelo menos foi isso que o pai, deslumbrado, contou aos
familiares e amigos...
Nem mesmo o desmantelamento do berço em que ele foi colocado
quando os pais voltaram do hospital (uma relíquia que estava na
família havia várias gerações) causou qualquer preocupação. Era
mais do que natural que aquela madeira velhíssima estivesse
roída pelos cupins.
As primeiras dúvidas começaram a surgir no primeiro aniversário.
A vela do bolo era daquelas que voltam a acender depois de
apagadas e caiu sobre a toalha da mesa, devido a um piparote que
o aniversariante lhe deu, quando foi inclinado para que a
soprasse. O fogo logo se alastrou, acabando com a festa. Ninguém
se feriu, mas nada sobrou do velho casarão que acabara de ser
reformado e decorado.
Seguiram-se inúmeras "coincidências" desastrosas, tendo sempre
como pivô o adorado pimpolho dos Souza. Estes, porém, embora
cada vez mais preocupados, recusavam-se a admitir que seu filho
fosse a causa das quase tragédias. "Ele é vítima e não
responsável por essas ironias do destino", não se cansavam de
repetir.
Tantas foram, porém, as "ironias", que se tornou impossível
deixar de reconhecer que algo de inusitado havia com o já
crescido rapazinho. A solução foi procurar cerca-lo de cuidados
excepcionais, tentando evitar situações de "risco".
Tudo inútil. Nada havia que pudesse "cortar" o azar do coitado.
O único consolo era o fato de que todos os "acidentes" (que
continuavam a suceder com uma constância impressionante) eram
"benignos". Ninguém havia morrido ou se aleijado em conseqüência
das desventuras de Cortazar.
Ele sofria, mas não se deixava abater. Seguia sua vida,
imperturbável como um verdadeiro estóico da Grécia antiga. As
desventuras não o impediam de acabar conseguindo o que desejava.
Mais impressionante do que o seu azar era sua tenacidade.
Uma verdadeira prova de fogo foi quando, aos dezoito anos,
resolveu aprender a pilotar. Seus pais ficaram apavorados e
tentaram dissuadi-lo. Aquilo lhes parecia uma provocação ao
destino. A decisão era, para eles, quase suicida. De nada,
porém, valeram os seus rogos. Ele se matriculou no curso e o
levou até o fim, superando todos os problemas que sua
indefectível falta de sorte ocasionava.
Houve um dia em que seu instrutor lhe perguntou, com a maior
seriedade, se ele era parente do Comandante Edward Murphy, o
criador da famosa Lei de Murphy ("Se qualquer coisa pode dar
errado, dará").
Na cerimônia de entrega dos brevês, o diretor do curso abraçou
longamente Cortazar e lhe sussurrou ao ouvido: "Parabéns, você
venceu, mas, pelo amor de Deus, jamais pilote um avião de
passageiros." O conselho calou fundo na consciência do brevetado,
mas ele não se conformava em renunciar ao seu sonho. Só se
decidiu quando leu em um velho livro sobre a marinha inglesa
que, no passado, uma das qualidades exigidas do oficial que
pretendesse comandar um navio da Royal Navy era: SORTE. Quando
alguém reclamava do preconceito, alegando que ninguém tem culpa
de não ter sorte, a impassível resposta do almirantado britânico
era: "Os navios e tripulações de Sua Majestade também não tem
nenhuma culpa no caso." Depois disso, a decisão de Cortazar foi
absoluta: nunca, em nenhuma hipótese, sequer viajaria de avião.
Anos mais tarde, encontrou-se com antigo colega do curso de
aviação, que havia seguido a carreira, mudara-se para o Canadá e
era então piloto de uma das maiores companhias produtoras de
aviões do mundo.
Ele estava no Brasil, a serviço de sua empresa, demonstrando a
mais moderna aeronave de passageiros que existia. Iria retornar
conduzindo apenas convidados especiais e queria que o antigo
colega o acompanhasse. Era uma oportunidade excelente para
conhecer a América, mas Cortazar não aceitou o convite.
Como o amigo insistisse, acabou contando o que se passara na
ocasião da entrega dos brevês e da decisão que depois tomara.
Acrescentou que sua falta de sorte continuava a mesma daquela
época e não lhe parecia razoável colocar em risco a vida dos
passageiros.
O piloto riu e disse que, se o motivo era só esse, ele podia
ficar tranqüilo. A tecnologia aeronáutica evoluíra tanto que ele
estava em condições de garantir que a segurança de seu aparelho
era praticamente absoluta, "à prova de qualquer azar, por maior
que ele seja". Os fabricantes haviam conseguido transferir para
os aviões comerciais dispositivos de segurança antes disponíveis
apenas em aparelhos militares. No avião que ele estava
demonstrando, a cadeira do piloto poderia ser ejetada, como nos
aviões de combate, mas não apenas ela. Todo o compartimento dos
passageiros era construído em pequenos módulos, também
ejetáveis. Em caso de pane, todos teriam direito a um passeio
extra, de pára-quedas, e pousariam suavemente, no solo ou no
mar. Poderiam até continuar tomando, tranqüilamente, seus
uísques enquanto aguardassem as equipes de resgate.
O argumento foi definitivo e no dia seguinte Cortazar entrou,
pela primeira vez, em um avião comercial. Antes da decolagem
esteve na cabine dos pilotos e, embora maravilhado, espantou-se
com a quantidade dos equipamentos existentes. Seu colega sorriu
e comentou: "Um pouquinho diferente dos teco-tecos em que
aprendemos a voar, não é, Corta?". Acrescentou, porém, que
aquela montanha de botões e visores só era complicada à primeira
vista. Na realidade, era tudo muito objetivo e simples "e até
você, com dez minutos de explicações, seria capaz de conduzir o
"monstro".
Cortazar estava deslumbrado e queria ficar ali durante toda a
viagem, pouco lhe importando não haver cadeira para ele.
Viajaria agachado, mas por nada no mundo perderia a oportunidade
de conhecer melhor o "monstro". O comandante, entretanto, não
permitiu a extravagância. "Você só está aqui porque estamos com
as portas abertas. Antes de elas se fecharem você terá que
voltar ao seu lugar. As medidas de segurança são hoje de um
rigor absoluto. Mesmo que eu quisesse, não poderia autorizar. Há
câmaras automáticas que me vigiam todo tempo e transmitem as
imagens para o "Big Brother", em terra. Na era dos atentados
suicidas, ninguém mais confia em ninguém. Uma tristeza, mas
certamente dias melhores virão".
Cortazar compreendia perfeitamente a posição do colega e foi
realmente com muita tristeza que voltou para sua poltrona.
Algum tempo depois, a comissária o procurou. Estava lívida, com
um ar de terror na face, mas inteiramente controlada, pois havia
recebido treinamento muito eficiente, que a habilitava a
enfrentar com serenidade qualquer situação. Abaixou-se e
segredou em seu ouvido: "O senhor é que é o piloto amigo do
comandante, não é? Por favor, acompanhe-me".
Quando chegaram à cabine, foi a vez de Cortazar ficar pálido e
aterrorizado. O piloto e o co-piloto estavam desmaiados. Seu
primeiro pensamento foi de que estava presenciando uma nova
modalidade de terrorismo. Logo, porém, a comissária esclareceu
que o drama não era aquele. O problema era de outra natureza e
só ocorrera porque "não há tecnologia capaz de evitar
inteiramente o azar". A falha tinha sido na alimentação da
tripulação, que estava toda intoxicada. Só ela estava de pé,
porque não havia almoçado e só não ficara desesperada porque se
lembrou da conversa que o comandante tivera com ele antes da
decolagem. "Estamos no piloto automático. Basta o senhor se
comunicar com o controle terrestre e de lá eles lhe darão todas
as instruções necessárias para que o senhor assuma o controle do
aparelho".
Cortazar nada disse, para não criar pânico, mas logo pensou que
o azar mencionado pela comissária era o dele, atuando com força
total. Dessa aventura ele não escaparia com vida, pois não
sabia, sequer, como ligar o equipamento de comunicação com a
terra.
Fingindo a mais absoluta tranqüilidade, retirou, cuidadosamente,
da poltrona de comando o corpo inerte do comandante e nela se
sentou. Começou, em seguida, a percorrer com os olhos a
quantidade (que lhe parecia absurdamente grande) de botões,
chaves, chavinhas e "chavetas" que tinha diante de si. Qual
delas ligaria o rádio salvador? E se ele errasse e desligasse as
turbinas? Com o seu azar, tudo podia acontecer! Os minutos se
passavam e ele permanecia indeciso. Embora o termômetro
indicasse que a temperatura da cabine era de 18 graus, Cortazar
sentia que o suor já havia empapado suas roupas. Desse jeito,
muito em breve não teria condições nem de segurar os comandos.
Reuniu então suas últimas reservas de coragem e apertou,
inteiramente ao acaso, o botão que estava mais próximo de sua
mão direita.
Imediatamente, sua poltrona foi ejetada, o imenso pára-quedas se
abriu e ele contemplou o avião, serenamente, sumindo no
horizonte...
LYCIO DE FARIA é carioca, nascido no Morro de Santa
Teresa, em 1927. Sua qualificação profissional é de
Administrador de Empresas. Iniciou sua carreira como bancário,
no Banco do Brasil e no Banco Central. Posteriormente, atuou em
diversos órgãos e empresas do Governo Federal. Sua última função
foi a de Presidente da Casa da Moeda do Brasil. Depois de
aposentado começou a escrever ficção, por puro diletantismo. Tem
três livros publicados: O DESTINO e outras histórias (Lítteris -
Edição privada, não posta à venda); O FIM DO MUNDO e outras
histórias (Papel & Virtual); JOVEM TURISTA VÊ O RIO DE JANEIRO (Booklink);
e MÍDIA, A MODERNA ESFINGE - Decifra-me ou te devoro (Papel &
Virtual).
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