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Ilustração: jacques-emile-blanche |
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Arábia

Tradução:
Roberto Schmitt-Prym
A North
Richmond, uma rua sem saída, era muito tranqüila, exceto na hora
em que a Christian Brother's School liberava os alunos. Uma casa
de dois andares, desabitada e isolada de ambos os lados,
bloqueava-lhe uma das extremidades. As outras residências,
cientes das vidas respeitáveis que abrigavam, fitavam-se com
imperturbáveis fachadas escuras.
O antigo inquilino de nossa casa, um sacerdote, havia morrido na
sala dos fundos. Nos cômodos, tanto tempo fechados, pairava um
odor de mofo e o quarto de despejo, atrás da cozinha, estava
abarrotado de papéis velhos. Entre eles encontrei algumas
brochuras com as páginas úmidas e onduladas: O Abade, de Walter
Scott, O Devoto Comungante e as Memórias de Vidocq. Gostei mais
deste último por causa de suas folhas amareladas. O quintal
abandonado, atrás da casa, tinha no centro uma macieira e alguns
arbustos esparsos, sob um dos quais encontrei a bomba enferrujada
da bicicleta do antigo morador. Tinha sido um padre muito piedoso
e, no testamento, deixara todo seu dinheiro para instituições de
caridade e a mobília da casa para a irmã.

Ao chegarem os
curtos dias de inverno, escurecia antes que tivéssemos terminado
o jantar. Quando saíamos à rua, as casas se encontravam
mergulhadas na sombra. O pedaço de céu sobre nós era de um
violeta cambiante, contra o qual os postes erguiam a pálida luz
de suas lanternas. Aguilhoados pelo vento gélido, brincávamos até
nos esquentarmos e nossos gritos ecoavam na rua silenciosa. O
curso das brincadeiras conduzia-nos às vielas escuras e
lamacentas atrás de nossas casas, onde desafiávamos os rudes
moradores dos barracos, aventurando-nos até os portões de
quintais sombrios e úmidos, impregnados do cheiro fétido das
fossas, ou aproximando-nos de estábulos escuros e odorosos, onde,
às vezes, um cocheiro escovava e lustrava seu cavalo ou fazia
tilintar os arreios de fivelas metálicas. Ao retornarmos à nossa
rua, a luz das cozinhas projetava-se através das janelas, nos
pequenos terraços. Se percebíamos meu tio dobrando a esquina,
ocultávamo-nos num lugar escuro até termos certeza de que entrara
em casa. E se a irmã de Mangan vinha à porta chamá-lo para o chá,
continuávamos escondidos, observando-a olhar a rua, para ver se
desistia. Se não tornava a entrar, deixávamos o esconderijo e,
resignados, dirigíamo-nos à escada da casa de Mangan, no alto da
qual ela nos esperava. A silhueta de seu corpo recortava-se na
luz da porta entreaberta. Mangan relutava sempre antes de
obedecer e eu ficava junto ao corrimão, contemplando-a. O vestido
rodava quando ela movia o corpo e a macia trança de seus cabelos
abalavam de um ombro para outro. Todas as manhãs, sentava-me no
chão da sala da frente para vigiar a porta da sua casa. Levantava
a cortina apenas alguns centímetros a fim de que ninguém pudesse
me descobrir. Meu coração disparava ao vê-la surgir à porta.
Corria para o vestíbulo, apanhava meus livros e seguia-a.
Conservava sua figura morena sempre à vista e, ao nos
aproximarmos do ponto em que nossos caminhos se separavam
apressava o passo e andava à sua frente. Isto repetia-se todas as
manhãs. Nunca havia falado com ela, a não ser algumas frases
ocasionais e, no entanto, para o meu sangue inebriado seu nome
era um apelo irresistível. Sua imagem acompanhava-me mesmo nos
lugares menos românticos. Nas noites de sábado, quando minha tia
ia fazer compras no mercado, eu precisava acompanhá-la para
ajudar com os pacotes. Caminhávamos pelas ruas iluminadas,
acotovelando-nos com bêbados e mulheres que pechinchavam, em meio
aos impropérios dos trabalhadores, aos gritos dos garotos que
montavam guarda às barricas cheias de cabeças de porco e à voz
fanhosa dos cantores de rua, que interpretavam uma canção popular
sobre O'Donovan Rossa ou uma balada a respeito dos problemas do
país. Todos esses ruídos convergiam numa única sensação vital
para mim: imaginava conduzir meu cálice incólume, através de uma
multidão, de inimigos. Certos momentos, seu nome brotava-me dos
lábios em estranhas preces e súplicas que eu mesmo não
compreendia. Meus olhos enchiam-se de lágrimas (não saberia dizer
a razão) e, às vezes, uma torrente parecia transbordar meu
coração e inundar-me o peito. Pouco me preocupava o futuro. Não
sabia se falaria ou não com ela e, se o fizesse, de que modo
revelaria minha tímida adoração. Meu corpo, porém, era uma harpa
cujas cordas vibravam às suas palavras e gestos.
Certa noite, fui à sala dos fundos onde o padre havia morrido.
Era uma noite escura e chuvosa e a casa estava em completo
silêncio. Através de uma vidraça quebrada, eu ouvia a chuva bater
contra a terra, as finas e incessantes agulhas de água
tamborilando nos canteiros encharcados. Bem longe, brilhava uma
luz ou janela iluminada. Agradava-me enxergar tão pouco. Os meus
sentidos todos pareciam embotar-se e, a ponto de desfalecer,
apertei as mãos até meus braços começarem a tremer, murmurando
várias vezes: Ó amor!
Finalmente,
ela falou comigo. Às suas primeiras frases, fiquei tão encabulado
que não soube o que responder. Perguntou-me se eu pretendia ir ao
Arábia.
Não me recordo se respondi ou não. Ela disse que adoraria ir,
pois devia ser uma esplêndida quermesse.
- E por que não vai? - perguntei.
Enquanto falava, ela fazia girar um bracelete de prata. Disse que
não poderia ir porque seu colégio faria retiro naquela semana.
Nesse momento, seu irmão e dois outros meninos brigavam por causa
dos bonés e eu encontrava-me sozinho encostado ao corrimão. Ela
se apoiara numa das barras e inclinava o corpo em minha direção.
A luz do poste diante de nossas casas roçava a curva clara de seu
pescoço, iluminando-lhe os cabelos. Alcançava, mais embaixo, sua
mão sobre a grade e revelava, ao tocar-lhe o vestido, a ponta do
saiote que se deixava entrever em sua lânguida postura.
- Você é que devia ir - afirmou.
- Se eu for - prometi - trarei uma lembrança para você.
Acordado ou sonhando que loucas e intermináveis fantasias
consumiram meus pensamentos a partir dessa noite! Queria suprimir
os tediosos dias de espera. Os deveres da escola irritavam-me. À
noite, no quarto, durante o dia, na aula, sua imagem
interpunha-se entre meus olhos e a página que me esforçava em
ler. No silêncio em que minha alma vagava luxuriosamente, as
sílabas da palavra Arábia remetiam-me a um encanto oriental. Pedi
permissão para ir à quermesse no sábado à noite. Minha tia
surpreendeu-se e disse esperar não se tratasse de uma reunião da
franco-maçonaria. Na aula, quase não respondia às questões. De
amável, o olhar do professor tornava-se severo. "Espero que não
esteja ficando preguiçoso", disse ele. Não conseguia, ordenar
meus pensamentos errantes. Quase não tinha paciência para
suportar os deveres cotidianos que, interpondo-se entre mim e meu
desejo, pareciam brinquedos de criança, brinquedos desagradáveis
e monótonos.
Na manhã de sábado lembrei a meu tio que desejava ir à quermesse.
Estava atarantado junto ao porta-chapéus, procurando a escova e
respondeu rispidamente:
- Já sei menino, já sei.
Como ele se encontrava no vestíbulo, não pude ir à sala da frente
postar-me à janela. Senti que o mau humor imperava na casa e fui
desanimado para a escola. Fazia um frio implacável e meu coração
já se mostrava apreensivo. Quando voltei para o jantar, meu tio
ainda não havia chegado. Ainda era cedo. Sentei-me e fiquei
olhando para o relógio, mas seu tique-taque acabou por me irritar
e sai da sala. Subi a escada e ganhei o andar superior da casa.
Os cômodos frios, desertos e escuros aliviaram-me a tensão.
Atravessei-os cantando. Da janela da frente, vi meus companheiros
brincando lá embaixo na rua. Seus gritos chegavam-me indestintos
e confusos. Apertando a testa contra o vidro gelado, olhei para a
casa de tijolos escuros em que ela morava. Devo ter ficado, ali
quase uma hora, vendo apenas, retida na memória, sua imagem num
vestido marrom, tocada de leve pela luz na curva do pescoço, na
mão sobre a grade, na barra do vestido.
Ao descer, encontrei a senhora Mercer sentada junto à lareira.
Era uma velha mexeriqueira, viúva de um usurário, que colecionava
selos usados com um objetivo piedoso qualquer. Tive de suportar
sua tagarelice durante o chá. O lanche prolongou-se por mais de
uma hora e meu tio não chegava. A senhora Mercer levantou-se para
ir embora. Sentia não poder esperar mais, disse ela, e que
passava das oito e não gostava de estar fora de casa até muito
tarde, pois o frio fazia-lhe mal. Quando saiu, comecei a andar
pela sala com os punhos cerrados.
- Talvez tenha de desistir da quermesse por esta noite de Nosso
Senhor - disse minha tia.
Às nove horas, ouvi o ruído da chave de meu tio na porta de
entrada. Escutei-o resmungar e o porta-chapéus balançar ao peso
do seu casaco. Sabia interpretar esses sinais. Na metade do
jantar, pedi-lhe que me desse o dinheiro para ir à quermesse. Ele
havia esquecido.
- Já está todo mundo na cama e no segundo sono - disse ele.
Não ri. Minha tia interveio enérgica:
- Por que não dá logo o dinheiro e o deixa ir? Já o fez esperar
muito tempo.
Meu tio disse sentir muito ter se esquecido. Disse que acreditava
no velho ditado: "Só trabalho e nenhum prazer é que faz de João
um triste rapaz". Indagou-me aonde ia e quando tornei a explicar,
perguntou-me se conhecia O Adeus do Árabe ao seu Corcel. Quando
eu saía pela cozinha, ele começava a recitar os primeiros versos
do poema para minha tia.
Apertando na mão o florim que recebera, desci a rua Buckingham.
As calçadas iluminadas e repletas de compradores que deixavam as
lojas deram novo alento ao propósito de minha viagem. Acomodei-me
num vagão de terceira classe no trem vazio. Após insuportável
demora, o trem se moveu vagarosamente. Arrastou-se entre casas em
ruínas e sobre o rio cintilante. Na estação de Westland Row, a
multidão comprimiu-se contra as portas do vagão, mas os fiscais
fizeram-na recuar, dizendo que aquele era um trem especial para a
quermesse. Permaneci sozinho no vagão. Minutos depois o trem
parou diante de uma plataforma improvisada. Ao descer, vi no
mostrador iluminado de um relógio que faltavam dez minutos para
as dez. Diante de mim estava o imenso edifício, ostentando o
mágico nome.
Não encontrei nenhum guichê de seis pence e, com medo de que a
quermesse fosse fechar, passei rapidamente por uma das
borboletas, pagando um xelim ao porteiro de ar fatigado. Entrei
num vasto saguão, circundado à meia altura por uma galeria. Quase
todas as barracas estavam fechadas e parte do saguão achava-se às
escuras. Reinava ali o silêncio de um templo vazio. Caminhei
timidamente para o centro do edifício. Algumas pessoas estavam
reunidas diante das barracas ainda abertas. À frente de uma
cortina, sobre a qual se desenhava em lâmpadas coloridas o nome
Café Chantant, dois homens contavam dinheiro numa bandeja. Eu
ouvia o tilintar das moedas caindo.
Recordando com dificuldade o motivo que me trouxera, aproximei-me
de uma das barracas e examinei alguns vasos de porcelana e
aparelhos de chá ornados de flores. Na porta da barraca uma jovem
conversava e ria com dois rapazes. Notei-lhes o sotaque britânico
e ouvi imprecisamente o que diziam:
- Ah, eu nunca disse isso!
- Ah, disse sim!
- Não disse!
- Ela não disse?
- Sim, eu ouvi.
- Ah, isso é... mentira!
Percebendo minha presença, a jovem aproximou-se e perguntou-me se
desejava comprar alguma coisa. O tom de sua voz não era
encorajador. Parecia ter falado comigo por obrigação. Olhei
humildemente para dois grandes jarros que, como sentinelas
orientais, postavam-se à sombria entrada da barraca e murmurei:
- Não, obrigado.
A jovem mudou a posição de um dos vasos e voltou aos rapazes.
Retomaram a discussão anterior. A jovem olhou-me uma ou duas
vezes por sobre o ombro.
Embora soubesse que era uma atitude inútil, permaneci algum tempo
diante da barraca, para acentuar a impressão de que estava
realmente interessado naqueles objetos. Finalmente, voltei-me e
caminhei vagarosamente para o meio do saguão. Soltava as moedas
dentro do bolso, fazendo-as bater uma na outra. No fundo da
galeria, alguém gritou que a luz fora desligada. A parte superior
do saguão estava agora completamente apagada.
Pasmo na escuridão, eu me vi como uma criatura tangida e
ludibriada pela vaidade. Meus olhos ardiam de angústia e ódio.
Romancista e
poeta irlandês, JAMES JOYCE nasceu a 2 de fevereiro de
1882 em Dublin, capital da Irlanda. De família católica, recebe
em Dublin uma rígida formação com padres jesuítas, contra a qual
mais tarde se rebela, mas que quase o fez seguir a carreira
eclesiástica. Em 1898, começa a estudar línguas modernas no
University College em Dublin. Quatro anos mais tarde, Joyce vai
de Dublin a Paris com a intenção de estudar Medicina, mas fica
muito mais interessado na Filosofia. Suas primeiras experiências
literárias são conservadoras, marcadas pela influência do
realismo de Ibsen e dos simbolistas. É o caso dos poemas de
Chamber Music (1907), seu primeiro livro. Em 1914, sai a
coletânea de contos Os Dublinenses e, em 1916, Retrato do Artista
quando Jovem, reminiscências de sua infância e adolescência
passadas em Dublin e que já adiantam procedimentos desenvolvidos
em Ulisses. O livro é proibido no Reino Unido e nos Estados
Unidos, onde só é liberado em 1936. Alcança fama mundial em 1922,
com a publicação de Ulisses, obra inaugural do romance moderno e
uma das mais importantes da literatura ocidental. O romance é
considerado um ponto de inflexão na literatura universal. Logo
após sua mudança para Zurique, em 13 de janeiro de 1941, James
Joyce vem a falecer, depois de uma cirurgia em uma úlcera
perfurada.
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