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Agora Não, Amor
Alexandre Brandão
Dizem que foi oferecida, desde menina. Um caso clássico, na
visão dos mais cientificistas, de puberdade precoce aliada a um
ambiente familiar desajustado.
Quanto a ele, bem, o garoto tinha fama de sério, estudioso,
respeitador dos valores familiares, da religião. Se a vida fosse
um páreo, seria pule de dez: brilhante, bem posicionado, pronto
para gozar a vida.
Mas essa vida faz das suas. Dá asas aos morcegos, fome aos
leões, poder aos facínoras. Ao mesmo tempo em que cruza o
destino das pessoas, embaralha tramas, ata, desata e reata
relações.
Fátima e Carlos.
Foi em baile no clube.
Ela vinha de uns goles de cerveja. Quase nada, é verdade, mas,
para ela, começando, era o suficiente para mandar para o espaço
seu pouco pudor.
Ele nem ao certo sabia por que razões fora àquela festa. A
família cobrava-lhe vida social, entre amigos. Sim, talvez por
isso, para evitar tantas pressões.
Ela encostou-se nele sem querer. O abraço e o beijo, sob o
comando dela, aconteceram de um impulso cego.
O bafo dela não era, efetivamente não era, a melhor coisa do
mundo. Mas, Cristo, ele se viu amarrado àquele beijo e àquele
abraço como se estivesse preso, por corrente, ao pé de uma mesa.
Ou por outra: no início isso, mas logo depois pensava em outra
coisa. Estava preso a um calor manso e prazenteiro, que talvez
já tivesse conhecido, mas não se lembrava de quando ou de onde.
O beijo virou um correspondido sinal de satisfação.
Foram ao cinema no dia seguinte.
Diga-se isso ou aquilo, mas duvido que qualquer razão, mesmo a
dos menos jovens, dos calejados do amor, fosse capaz de deter a
fúria amorosa a que se lançaram os agora namorados. Em pouco
tempo, provaram o sublime de suas próprias carnes, tendo feito
antes um caminho que passou por provocações, por aproximações e
aprendizados.
Primeiro, Carlos conheceu Fátima por cima da roupa. Tocou seios,
ventre, nádegas, coxas. Em silencioso contragosto, ela o deixou
ditar os tempos. Não para sempre.
Depois, veio o tempo de pedir para brincar com ele. Assim,
assado, até a explosão. E mais uma vez, ela fez. Mas fez também
seus primeiros pedidos: dedos, forças. Gostou de ser beliscada.
Finalmente, inteiros, seguros, prontos, Fátima e Carlos
percorreram do princípio ao fim as etapas do encontro amoroso.
Tinham nascido praquilo.
Selaram o pacto de voltar à carga a todo instante.
E assim foi.
Eram, no entanto, muito diferentes um do outro. Fátima,
objetiva. Carlos, metido em planos e planos e planos. Fátima
empurrando-o para frente. “Uma faculdade, sim, Carlos.
Engenharia. Dá dinheiro e você saca matemática demais.” “Vai
trabalhar no Iraque, sim, Carlos. São apenas dois anos, quando
você voltar a gente se casa.” “Vamos comprar o sítio, sim,
Carlos. Vai ser nosso cantinho do amor.”
O engenheiro Carlos é mais ou menos como todos pensavam. Sério,
responsável, eficiente. O diabo é que, às vezes, ausenta-se de
tudo. Não leva pra frente projetos; perde-se em picuinhas
administrativas; entra em conflitos desnecessários. Não fosse
isso, com certeza poderia almejar cargo dos bons.
O pacto, apesar de visões de mundo distintas, continuou cumprido
à risca. Tenha feito sol ou chuva, ocorrido tragédias pessoais
ou nacionais, alegrias de mesmo modo pessoais ou nacionais, os
seus corpos se deixaram levar pelo prazer. Radical tantas vezes.
Fofocas entre vizinhos, separados por paredes tão finas, davam
conta de se ouvirem coisas indecentes. Palavras. Pancadas.
Carlos bate em Fátima.
Fátima aceita, gosta e retruca. No que é bem recebida.
Não são tapas de amor. Nem violentas agressões. O erótico dos
dois saiu do lugar comum do prazer para o supremo da dor.
Cintos.
Anéis.
Pulseiras.
Chicotes.
Objetos pontiagudos.
Bolsas para frios e quentes.
Máscaras.
Garras.
Fátima pediu. Carlos nem pensou duas vezes. Esperava por aquela
hora desde o início, desde quando um puxão de cabelo mal dado
por ele não encontrou reclamações. Depois, os beliscões, a
pedido.
Fátima deitou-se sobre as pernas de Carlos, e ele levantou a mão
e desceu-a, vigorosa e não de todo aberta, batendo bem no meio
da nádega mais próxima de seu corpo. Depois acertou a outra.
Fátima descobriu logo a cadência e tratou de respirar e gemer de
forma a espalhar todo aquele prazer para o resto do corpo.
Aqui já se disseram pretensas e baratas filosofias — a vida dá
asas aos morcegos e poder aos facínoras — e há de se
acrescentarem outras. A vida nem sempre é compreensível. Tira a
vida de jovens. Permite punições comerciais aos países
miseráveis. Registra os maiores índices de suicídio justamente
nas sociedades mais igualitárias. Nem tudo é perfeito. Quase
nada é.
Fátima reclama de vazios, de envelhecimento, de esperar mais de
Carlos. E ele metido em planos estranhos — que não se
concretizarão, que serão substituídos por outros. Sua
objetividade não a levou para o mundo profissional. Exímia dona
de casa.
Carlos não reclama muito de nada. Seu sofrimento é a fome
africana, vista de longe. Sua alegria é o desfile de carnaval,
na tela da televisão. Gostaria de ter uma cadeira cativa no
Maracanã. Mas nem imagina dizer isso a Fátima.
Hoje Carlos lança o braço sobre o corpo de Fátima, que, ao
contrário da habitual entrega, retesa-se. Ele pensa em novos
jogos. Talvez desconfie de Fátima não estar inteira no teatro.
Algo de familiar se esvaiu do rosto dela.
Estão de roupa como no começo, quando a curiosidade vinha sem
coragem definitiva. Ele logo baixa o short do pijama apenas o
suficiente e levanta da mesma forma a camisola. Ela continua
escondida.
É a cabra-cega?
Carlos entra. Fátima sente dor, dor que não deseja.
Ele pega o travesseiro e tapa o nariz e a boca dela, deixando os
olhos de fora.
Fátima se debate. E ele mexe com fúria, ainda dentro dela. Dela,
seca.
Até onde pode avançar?
Se for um jogo, um pouco mais tira o travesseiro, devolve a ela
o ar e juntos celebram o êxtase final.
Se não for, Carlos talvez perca quem ensinou a seus pés o
caminho da terra.
ALEXANDRE BRANDÃO
lançou, em 2005, pela Editora Bom-Texto, “Estão Todos Aqui”,
livro que reúne quatro contos e a novela “Todas as Fichas”. Em
2000, ganhou o prêmio Oficina do Autor, concedido pela Funarte.
“Agora não, Amor” faz parte da coletânea inédita “Amor, sexo, o
resto e o que ficou esquecido”, extensão do livro premiado em
2000.
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