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Prólogo para um diário
terminal
Tinha pensado num título mais longo, ou num subtítulo
explicativo, do género «prólogo para o diário comentado de um
doente terminal que, evidentemente, não pode ver as coisas de
ânimo leve e por isso deveria merecer-nos todo o crédito», mas
preferi o título assim, drasticamente reduzido, ambíguo e inócuo;
no entanto, aqui deixo registada a minha ideia: quem está para
morrer a sério, fala a sério. É uma ideia controversa, admito,
porque, se à nascença o nosso cérebro é incompleto e obscuro, com
as sucessivas lavagens que sofre na vida pode não ficar mais
claro à hora da morte. Concluí por este título formal e
funcional, mas hesitei no conceito de «diário» (cheguei a
preferir relatório), porque, na vida, não há diário puro, tudo é
memória e tudo se contamina de memória; mas, como é possível
pensar-se tudo o que se quiser, uns dias depois, noutra onda de
pensamento, contraditória, pensei: a memória não tem peso, o que
conta é o diário, e o pensamento é destruído e reconstruído por
tudo o que vai acontecendo. Metemo-nos a pensar e dá isto:
ficamos sem certezas; por isso optei por este título inocente e,
no fundo, falso, mas como cheguei a acordo com o verdadeiro
autor...
Coligi o diário de P... a seu pedido (não necessariamente para
publicar, disse ele), um pedido que me fez no seu leito de morte,
pode dizer-se. Entregou-me os papéis razoavelmente ordenados, mas
é necessário notar que algumas entradas do seu diário não têm
data, outras são pós-datadas – falso diário, verdadeiras memórias
– e referem-se claramente a acontecimentos e pensamentos antigos;
outras são pré-datadas, como uma escrita em Março, por exemplo,
com a indicação «para Outubro», um exercício literário sobre uma
viagem que ele fez à Lapónia (inventada?) onde o Inverno cai
«repentino sobre a terra como uma espada de gelo» (cito o
diário); outras são curtas citações dos autores russos (o
alimento exclusivo do seu rigoroso regime de leitura), sem
qualquer interpretação, sempre com as obrigatórias aspas, e que
de diário apenas têm o haverem sido copiadas e sentidas em
determinado dia; outras são citações dos autores russos (e
outros) devidamente comentadas segundo o estado de espírito do
momento, logo «diário»; outras são exercícios literários, espécie
de contos, espécie de sketches teatrais curtos, espécie de
poemas, que ele espalhou ponderadamente pelo diário, como quadros
numa parede, e que de modo nenhum se podem incluir no género
diarístico porque neles o tempo é inventado, acelerado ou travado
livremente («o tempo domesticado é a essência de toda a
literatura», disse-me um dia, como me disse: «toda a literatura é
plágio», enfim, aforismos que também não se coibiu de espalhar
pelo diário); outras são pura crítica literária, injusta,
arbitrária, autoritária, mazinha (Deus o tenha em eterno
descanso), mas sincera. Incrível, também, e inesperada para mim
que lhe conhecia a timidez disfarçada, foi a maneira como o meu
amigo e escritor – escritor, quem diria, ele que só era apanhado
a ler, a jogar às cartas e a beber conhaque – aproveitou bem a
sua morte iminente (ou a certeza de não se ir confrontar com a
sua escrita a uma distância crítica, envergonhada e lúcida) para
ultrapassar «o medo, desde a infância, de parecer sentimental e
ridículo» (cito uma citação que ele fez de Tchekhov no diário).
Uma coisa é certa: para P..., enquanto escritor, este diário é
tudo, visto que não escreveu mais nada, que se saiba, e apenas vê
a luz do dia porque para P... isto já não é ele, nem dele.
Fora da pasta do diário propriamente dito, numa «camisa» de
plástico transparente, encontrei um texto muito pessoal,
claramente escrito na fase mais extrema da doença de P..., com um
toque de estranha auto-ironia para um doente terminal, que se me
afigura uma introdução, uma declaração de intenções da sua obra
já escrita e ordenada, um resumo trágico da sua derradeira década
de vida. É este o texto:
«Nesta minha casa dos quarenta, uma casa onde não morarei por
muito mais tempo, garanto, mas não porque mude para a dos
cinquenta, num dos meus longos períodos de doença dediquei-me à
leitura exaustiva dos autores russos do século XIX – em péssimas
traduções, gritava-me Nabokov da tumba – e fui concluindo que os
senhores russos ali descritos passavam uma boa parte da sua vida
ociosa e ansiosa a jogar às cartas – fica-se com a ideia, aliás,
de que estes senhores funcionários, proprietários rurais e
militares graduados é que eram os russos que contavam na
sociedade russa do século XIX (excepto em algum Tchekhov e em
algum Dostoiévski), acolitados por criadagens, mujiques,
artesãos, comerciantes, popes, outras mulheres que não as deles
(incluindo as prostitutas), estudantes, cientistas e escritores
(excluindo Dostoiévski, que jogava).
«No período seguinte de doença longa, mas não imobilizadora, esta
má influência dos russos levou a que me dedicasse ao jogo das
cartas – com amigos, enfermeiros e até jogadores profissionais
que vão a casa – e também um pouco ao sexo pago (há enfermeiras
para tudo) –, mas como o subsídio de doença era parco e as
poupanças curtas, ia perdendo tudo, incluindo o que me restava de
saúde e de gosto pela leitura.
«No seguinte período longo de doença, salvou-me a leitura: não
joguei. Isolei-me dos amigos, a prática da doença habilitara-me a
enfermeiro e médico de mim mesmo, poupei dinheiro, vendi o carro.
Família não tenho. Assim doente, descansado e isolado do mundo
(não lamento ter banido da minha vida a televisão e o
computador), eu sofria sem angústia e lia os russos (são
inesgotáveis e prestam-se à releitura). Eram eles o fio mental
que, na minha vida suspensa, me ligava como um sonho longo à
manhã em que despertasse.
«Agora, quando os meus longos períodos de doença já se pegam uns
aos outros como as cidades gigantes aos seus arrabaldes,
transformando-se na “doença prolongada” dos eufemistas e de que
se morre em breve, hesito entre a leitura e o jogo (ambos
compulsivos, ambos possessivos e exclusivos). Mas a leitura já
não me liga a uma hipótese de vida, o jogo já não me dá o risco
da esperança e da perda, porque está tudo decidido. Perdi o gosto
da leitura e do jogo, já me custa urinar, a casa ficou-me larga,
família não tenho, os amigos nunca o foram (ou só um jogo).
Agora, com estes olhos finalmente abertos, cada imagem do que me
faltou na vida me atinge como um soco no estômago (a casa, por
exemplo, vista de fora nas noites frias de Inverno, com as suas
luzes acolhedoras e amarelas, as lareiras, essa casa, qualquer
casa, ardia para mim, quando eu não tinha casa, como as labaredas
do inferno). Deixei de pensar, bastam-me as imagens do perdido.
Por medo, chamei o médico e tentei fazer humor negro com ele:
“Doutor, para a semana faço 49 anos, acha que entro na casa dos
cinquenta ou que mudo de casa?” Recusou-se a responder, perguntou
como é que iam as coisas e eu disse: “Menos mal, doutor, à espera
de melhores dias”. Deixei de falar com ele. Está frio, chegou o
Inverno, acendo ainda a lareira, ironicamente. Em vez do
conhaque, que o meu organismo já não tolera, alinhei as ampolas
de morfina em cima da mesa. Vejo tudo com uma nitidez
assustadora, fora de todas as literaturas e de todos os jogos.
Começo finalmente a viver. Não falo com ninguém, só com o meu cão
espanhol: “Bernabéu, só há uma vida, a nossa, e para terminar
assim mais valia explodi-la à nascença”.»
É claro que, no que me diz respeito, não posso aceitar, nem de um
morto, aquele «os amigos nunca o foram (ou só um jogo)». Quanto
ao resto, embora o escrito valha o que vale, porque nada se
compara ao que se vive, ou antes, embora «o que se viva seja
incomparável» (como ele escreveu sem citar ninguém), vou tratar
estes seus escritos terminais como se fossem os meus.
FILIPE GUERRA é tradutor do russo (em equipa com Nina Guerra)
e, sozinho, do francês. Tem 55 anos, vive e trabalha em Lisboa.
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