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Os desígnios de Deus
Vanessa Riambau
Pinheiro
Agora passou o medo. Só sinto dor. E culpa. Não sei por que
determinadas coisas acontecem comigo. Parece que Deus decide
eleger uns coitados na Terra para exercitar suas perversidades. E
depois vem com essa balela do livre-arbítrio. Você acredita nessa
história, Ana? Nem todas as coisas podem ser escolhidas. Tudo
balela. Até a liberdade é uma mentira. Sartre já dizia que todo
ser humano é condenado a ser livre. Isso mesmo, condenação. Nada
que ocorre pode ser livremente determinado por nós. Atrás de tudo
tem uma teia pré-emaranhada, da qual você não se livra nunca,
independente da decisão que tome. É isso. Mais nada.
Ana me traz um chá de camomila, pede que eu me acalme. Como se
isso fosse possível! O ambiente gélido e sombrio de hospital,
essa morte cinza pairando ao redor. Tenho que esperar mais um
pouco, diz Ana. Eu sei, eu sei, minha vontade não é só sair
daqui, mas sair desse plano temporal, ir até a minha infância e
trazer de volta o prazer que eu sentia ao ler os gibis do
Superman. Ou fazer que nem ele e girar em torno da Terra ao
contrário até o tempo parar e tudo voltar a ser. Algum lugar
aonde a respiração não venha entrecortada. Onde o peito bata
tranqüilo.
Ana faz uns telefonemas, me diz que tudo vai ser resolvido. Já
chamou o Mattos, já avisou a polícia. Devo me sentir melhor com
isso? Tento não ser agressivo, mas a verdade é que nem sei como
agir. O chá acabou e tudo continua igual.
São oito horas da noite e Maurício caminha como todos os dias,
puxando seu carrinho de madeira. Está feliz porque hoje conseguiu
juntar mais sucata do que nos outros dias, o dobro do que
normalmente. Vai poder folgar no final de semana, anda tão
cansado. Domingo faz dezessete anos e queria mesmo dormir até
mais tarde. Lembra de Sônia e sorri. Quer vê-la no final de
semana também. A semana normalmente é agitada demais e não dá
conta de suas vontades. E, ademais, Sônia estuda.
Lembra de quando a conheceu, na quadra de sua casa. Puxou papo
com a menina e não teve vergonha de dizer que era sucateiro. Até
mesmo porque nunca suportou gente fresca. Se a menina se
importasse com isso, não serviria para ele. Mas ela nunca se
incomodou. Até achava bonito, trabalhar para ajudar a mãe e os
irmãos.
Uma vez a mãe dela os pegou juntos, e não gostou do que viu.
Perguntou da vida dele e, quando viu o carrinho, disse que ele
era muito menino para trabalhar carregando tanto peso, que isso
quem devia fazer era o seu pai. Maurício então contou que tinha
perdido o pai há três anos, num acidente de ônibus. Falou até que
estava no mesmo banco do que ele, bem do lado, mas que não
conseguiu ajudar. Acho que a mulher acabou consentindo o namoro
por pena mesmo. Mas Maurício nem se apercebeu, era altivo, tinha
brio: só se dava conta do seu problema quando isso atrapalhava
seu serviço. Sua perna direita rengueava um pouco, não conseguia
andar rápido. Mas o que mais doeu em Maurício foi ter tido que
largar o atletismo. Gostava de correr, achava que podia ter um
futuro nisso. Mas Deus é quem escolhe quem vai sofrer.
Ana veio me avisar que já contatou o IML. Agora a polícia toma
meu depoimento. Foi tudo muito rápido, estava escuro e só vi o
que tinha acontecido quando senti o carro bater e aquela tralha
voar toda na rua. Não, ele não atravessou na faixa de segurança.
E andava devagar, achei que fosse sair da frente em tempo.
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