Meninas

Sempre esta algazarra, à noite. Cada uma querendo dormir numa hora diferente, como é possível alcançar ordem no alvoroço? A menor é a mais quieta, tem sono cedo. Fecha os olhos – dedo na boca, fraldinha no rosto – e nada mais a acorda, nem o vozerio das outras. Mariazinha simplesmente embarca para outro mundo, e pronto, fica lá até de manhã. Em compensação é a primeira a acordar, em geral em horas impróprias, me pega fazendo amor, essas coisas. Tenho carinho especial por ela desde que a encontrei, espremida no canto de uma sala deserta, cabeça baixa, pernas encolhidas, ouvidos tapados pelas mãozinhas. Tão pequena e já não consegue suportar os barulhos do mundo, me lembro de ter pensado. Ainda demorei um pouco a chegar junto dela, não sei se por medo de magoá-la mais ou autodefesa egoísta, de não saber se suportaria conviver com ela dali em diante, vida afora com aquela criança carente pendurada em mim. Mas acabei me movendo, completei o passo congelado – ao me abaixar, vislumbrei imprecisos prados tristes e um cavalo sem rumo -,  cheguei perto dela... 

Quietas, meninas, como é que eu me concentro, com um barulho desses? Assim não é possível!

Mariazinha se assombrou com a minha presença ao seu lado, decerto não esperava ninguém, sozinha no mundo se sentia. Olhos tão assustados, o que será que lhe fizeram, minha menina?, pensei. E estendi os braços para ela. Me olhou desconfiada, seu pequeno corpo arfava atento, calculando perigos e benefícios. Logo me estendeu os bracinhos. Então nós duas nos abraçamos, nos abraçamos tanto, mas tanto que nos perdemos para sempre uma na outra. Acho que você estava aqui me esperando há muito tempo, sorri, ainda sentindo seu cheiro agreste. Puxa vida, que bom que você chegou! acho que a ouvi dizer, mas ela não falava, já tinha idade mas ainda não aprendera, talvez ninguém conversasse com ela. Libertei Mariazinha – nos libertamos, soprou no meu ouvido –, daquele fim de mundo saímos abraçadas, nós duas e um arlequim de losangos coloridos surgido não sei de onde, que dava saltos, juntava no ar as duas sapatilhas, em torno de nós fazia graça com a sua boca pintada de vermelho.

- Socorro, socorro! Ela está me matando!

Mal consigo chegar a tempo de separar as duas e, por um triz, evitar o assassinato. Alice quase furou os olhos de Mariazinha, qualquer dia desses ainda vai matá-la. Isso me angustia, não sei o que fazer para impedir. Quero me livrar de Alice, nem sei quantas vezes a mandei embora. Não suporto você!, estou lhe dizendo agora na crueza da minha linguagem, mas ela me desafia, voz esganiçada de adolescente, peito estufado, fingindo jeito de galinha posta, adulta. Antes mesmo de ela falar, grito na sua cara: Nunca chamei você aqui, nunca quis você. Estou possessa: Você invadiu minha casa! Arrombou minha vida, ainda por cima quer matar Mariazinha. Assassina! Olhos de lince, no ar barulho de espadas, a voz dela sai mansa, estalando de ironia: Não adianta espernear, querida. Você sabe: simplesmente, não consegue  viver sem mim.       

O pior é que é verdade. Meus Fora!, meus Cachorra!, até meus Assassina! se esvaem diante da evidência, fio de faca: não posso viver sem ela, parte de mim que me parte.

Alice não é sempre assim, penso, para desculpá-la ou me consolar. O ambiente do quarto fica menos tenso, minha respiração aos poucos volta ao normal. Me lembro de quando a conheci. Adolescente sozinha na varanda, perdida na poltrona grande demais para ela, cabeça baixa. Não me viu. Observei o encaracolado dos cabelos, o risco da boca, os aros agressivos dos óculos. Braços pontiagudos, dois seios apontando, a elegância precoce da postura. Sensível e orgulhosa como haste de lírio, concluí. Vai me ferir, e muito.

Acho que Alice ouviu meu pensamento, porque levantou rápido a cabeça. Tonta com a agressividade do seu olhar, permaneci contudo de pé, agarrada à idéia de que, se eu havia chegado até ali, nós duas precisávamos nos conhecer. Bem-aventurados os que procuram, pensei na hora, assim mesmo, tipo citação bíblica. Mas o ar secou, e nos descobrimos no mais inóspito, isolado e cruel deserto do mundo. Apavorada, Alice correu até mim. Nosso abraço aconteceu em plena tempestade de areia. Areias que te sufocam, areias que me sufocam. Em meus braços o corpo aterrorizado de Alice se aninhou, abandonou ângulos, estiletes, lanças, escudos cuidadosamente justapostos às feridas. Em meus braços Alice, a quase menina, esqueceu-se por um instante da luta e do sofrimento, relegou a guerreira. Virou essência. Este desamparo... Ao longe, espelhos d´água, silhuetas de palmeiras. Juntas sairemos daqui. Ainda estamos tentando.

Elas ficam assim assanhadas pulando no meu quarto, adoram,  travesseiros voando pra todo lado, bagunça indomável. Muitas vezes me canso, como é possível alguém levar uma vida normal – trabalhar, acordar, escovar os dentes, essas coisas que todo mortal tem de fazer todo dia –, e ainda cuidar deste bando de meninas enlouquecidas?

Aquela gorduchinha ali de cara malandra, preparando-se para atirar em mim - na minha cara! a almofada laranja, é Al. Encontrei-a por acaso. Não existem acasos, Maria Alice, meu bem, escuto sua voz alegre fazendo cócegas no meu ouvido. Com ou sem acaso, ao virar a esquina dei de cara com ela, um dia. Me olhou dentro dos olhos, olhos bons os dela, que não tomam nem roubam, oferecem, compartilham. Senti aconchego, gosto de broa, de mar. Brincadeiras de menina, giroflê, giroflá! – cantarolou no meu ouvido. Seu canto recuperou um jogo de amarelinha, jogo perdido no tempo, e me transportou na mesma hora para junto de um fogão a lenha, numa cozinha de paredes quentes, empretecidas da fumaça do fogão. Junto ao fogo, a mãe, a vó, eu – e uma paz! Fogo antigo a arder. Se até agora não se apagou, ele não mais se apagará, giroflê, giroflá, Al cantou.

Os sussuros de Al até hoje me conduzem mundo afora, rumo a tempos ancestrais. Giroflê, giroflá, o que foi que viste lá?, ela gosta de me perguntar após cada viagem, no maior contentamento. Com Al desvendo territórios ocultos, paragens de mim que desconheço e receio, mas por onde ela me guia confiante, minha mão trêmula depositada em sua mãozinha segura.

Agora, chega! Cê-agá-é-gê-a, chega! Por hoje acabou, todas pra cama, já!

Grito em meio a uma revoada de penas, enquanto puxo a perna de Mali, esta distraída que vive tentando voejar pela janela, ao mesmo tempo em que afasto o prato de doce de leite da frente de Laíce, antes da menina insaciável estourar de tanta avidez. Graças a Deus elas entendem quando estou falando realmente a sério, concluo, retirando a colcha da cama. Não faço a menor idéia de como descobrem meu limite, talvez pelo timbre da minha voz, o lampejo do meu olho, meu cheiro, sei lá, os bichos também sentem essas coisas. O importante é que se acalmaram. É a minha oportunidade de colocá-las na cama, agora ou nunca. Já são duas da madrugada, amanhã cedo elas têm escola, e eu, trabalho duro. Basta de farra.

Faço xixi, escovo os dentes, visto a camisola curta, tudo rápido. Afasto o lençol, me deito. Recostada no travesseiro, dou palmadinhas no colchão:

- Vamos lá, meninas, todas se  deitando aqui comigo, em silêncio.

Sobem na cama, em desordem. Apago a luz do abajur. Ainda se agitam, mas agora é bagunça leve, uma ou outra risadinha apenas.

Pelo quarto dançam sombras. O sono pesa em meus olhos. João Pestana jogou o pozinho mágico no seu olho, ainda escuto a voz de Mariazinha, antes de fechar os olhos. Acontece então o único, breve instante em que me sinto completamente sozinha, o do salto arriscado para o desconhecido, quando já deixei o quarto mas ainda não cheguei a parte alguma, solitário instante da vigília.  Em seguida, eu durmo. Todas as minhas meninas, é claro, dormem junto comigo.

JANAÍNA AMADO há três anos aposentou-se da Universidade de Brasília para dedicar tempo integral à paixão maior, a literatura. Além de diversos livros na área de história, publicou em ficção o romance Dandara (Maltese, 1995), o conto “Píncaros precipícios”, em Dezamores (Escrituras-Sesc/SP, 2003) e os infanto-juvenis Quem tem medo de pesadelo? (Atual, 1991), Terror na festa (Ática, 1996) e A n@ve de Noé (Record, 2000, este em co-autoria). Está morando à beira do verde mar de Maceió. Prepara um volume de contos, que “Meninas” integra.