Melado debruçado


"Um presente que fosse
rosa de doce
um carrinho de mão
para ofertar meu coração".

Assim o menino dizia, através da janela de meu carro, sem sorrir, fazendo o acontecido debruçado virar melado. De chumbo, numa manhã ensolarada de outono.

Pelo retrovisor pude vê-lo afastar-se de minha hostil vidraça, dobrando-se, como sempre fazia, em um outro veículo, e cantando a segunda das cinco pedintes estrofes que costumavam marcar o tempo estacionado por ali:

"Um presente que fosse
rosa de doce
um carrinho de mão
para cantar outra canção".

Talvez o vectra prata pudesse ajudá-lo. O sujeito que o dirige tem pinta de ser bom. Não disse? Lá vai din-din para o carrinho. Quisera eu ter um, para cantar outra canção, onde a dobra da vida não melodiasse a quê veio, me deixando cheio de dívidas. Dobra danada, cobra vendada silvando, desde que apareceu, o paraíso. Hum!

Tudo antes tão retilíneo, sem revoadas, passaradas, tão lisinho... Não este ninho que veio enrolando o meu forte. Forte, isto mesmo, não, norte. Estou cansado de ler norte em tudo que é lugar. O norte abusou de mim, me afundou em intolerância, logo eu que fui o rei de seu oposto em vida.

"Sorria para todos, forte como um touro", falava meu pai, lá se vão mais de uns bons trinta e nove anos. "O sorriso, ao contrário do que muitos pensam, pode mascarar a determinação na sua quietude", ele continuava. E, afinal, ilustrando com um largo desfiar de lábios, finalizava: "Lembre-se: a sua direção, é você somente quem a governa, mesmo que ela seja desviada por algum acontecimento".

E eu não consegui apurar isso a tempo nas negociações, desgovernado pelos sorrisos que não eram os meus. A direção branda deles foi a mais dura. Tanto quanto esta que tenho sob as mãos, e que me lembra a necessidade de alinhamento...

"Ombros para trás, menino. Cabeça para cima. Queixo reto".

De alinhamento, meu pai entendia. Cansei de cair, mas não percebia. A pedra foi apenas um acidente. Quebrei o braço em duas partes, mas continuei firme, de queixo reto, cabeça para cima e ombros empertigados. O braço pesando a vergonha da dor de ver meu pai me consolar com seu comprido sorriso: "Isto, filho. Forte. Assim mesmo. É só uma abobrinha, vai passar".

Foi quando esfoliei a vontade de chorar, pois touro não se descasca com abobrinhas. E eu era o melhor dos touros, meu pai repetia.

Esfolia a vontade

Esfolia

Tá embaixo da tarde.

Só rindo. De onde veio isto? Vontade de quê? Já sei. De ter um carrinho, igual ao do garoto de rua e enchê-lo de, vamos dizer, possibilidades. Quem sabe, alguma decisão capaz, até mais tarde me ancoraria?

Novamente pelo retrovisor, vejo a irmã do menino brigando pelo seu direito de segurar o carrinho, e o pai, bêbado estabelecido no botequim da esquina, levando o bafo no cangote dela, a berrar pelo que diz também ser seu, de direito. O meu, enterrado, no cangote dos outros...

"Pai, tô precisando de dinheiro para pagar a ginástica. Preciso de umas três sweat-shirts para malhar. É roupa de última geração, velho. O suor não empapa e não incomoda. Mãe, faz um sorvete de marshmallow com banana e bota castanhas e calda de chocolate por cima. Pai, tá faltando requeijão. Traz na volta do trabalho".

Sorria.

"Patrão, e o meu ordenado? Pode me adiantar a gratificação de final de ano prometida? Estou pendurada em prestações e os juros estão subindo demais".

Sorria.

"Amor, tenho que deixar dois cheques na portaria: o do condomínio e o das cotas extras. Pode deixar que eu vou ao supermercado e compro o requeijão. Tenho mesmo de fazer compras. Ah! Querido, um tal de Gonçalo ligou quando você estava fazendo a barba. Ele me pediu para lhe dizer que o prazo para o banco acampar a firma ficou em duas semanas. Que banco, bem?".

Sorria.

"Nossa! Estou atrasada para o cabeleireiro. Depois você me explica, tá?".

Um longo percurso numa manhã de outono onde nem sorvete tem licença para se guardar...

"Um presente que fosse
rosa de doce
um carrinho de mão
para ofertar meu coração".

O menino, repetindo a primeira parte de seus versos na minha vidraça, me faz perceber que nem um milímetro eu andara neste embirrado trânsito, onde só o sinal canibal pisca, agora, para a esperança.

Meu carro não é vectra, mas corre. Muito.


ROSANE VILLELA nasceu em 1953. Formou-se em Letras pela PUC/RJ ( Português/Inglês ) em 1976 e trabalhou como professora de inglês nos cursos Oxford e Ibeu. Seu livro de estréia, "Navalha no verso", foi publicado pela 7Letras, em 2000. Foi selecionada para a seção Quatro Poetas da Revista Literária Livro Aberto, Junho/Julho 2000, e ganhou o primeiro lugar, no Concurso promovido pela Home Page, endereço www.geocities.com/poemasazuis, cujo único jurado foi Affonso Romano de Sant'Anna. Além do "Navalha no verso", um original inédito para um livro de poesia, o "Licor de linho", com recomendação de Márcio Vassallo, e um outro original inédito, cujo título é "Uivos dos Morros Cercantes", uma coletânea de contos, crônicas e prosa poética, com recomendação de Marco Lucchesi e Márcio Vassallo, são planos para futura publicação em forma de livro. No Jornal da União, da Paraíba, em João Pessoa, o jornalista e poeta Antonio Mariano escreveu que "a poesia de Rosane Villela tem marcas adjetivas que definem uma poeta de incursões promissoras: o lirismo original, inusitado, a ironia bem disposta, a consciência rítmica". Também, algumas poesias do "Licor de linho" e dois contos do "Uivos dos Morros Cercantes" foram publicadas no Correio das Artes, do editor Linaldo Guedes, da Paraíba.