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Manual prático da
filosofia fonsequiana
Compilação
lançada pela Companhia das Letras mostra porque Rubem Fonseca é o
escritor que melhor descreveu o lado sórdido das metrópoles
Luiz Rebinski Junior
A admiração e o interesse da crítica especializada pela obra de
Rubem Fonseca é tão grande quanto as aparições que o escritor faz
na mídia. Relegado ao segundo escalão de escritores e
intelectuais do país, Fonseca é o tipo de personagem que prefere
escrever a falar. Sua reclusão é mais um ingrediente a envolver
sua grande trajetória como escritor.
Rubem Fonseca desperta um sentimento interessante na crítica. Não
é considerado um dos grandes da literatura nacional – não faz
parte do seleto grupo que envolve nomes como Guimarães Rosa,
Érico Veríssimo, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade –, mas
também não pode ser ignorado totalmente pelos críticos. Fonseca
vende muito além da média nacional. Seus livros nunca saem com
menos de 40 mil cópias na primeira edição. Mas não, Fonseca não
pode ser comparado a Paulo Coelho, está longe, muito longe da
literatura auto-ajuda disfarçada que o mago amigo de Raul Seixas
faz. Paulo Coelho ganha a crítica no cansaço, vende muito, sendo
praticamente impossível ignorá-lo. Fonseca é diferente. Vende bem
– nada comparado ao autor de O Zahir , é verdade – e tem talento
de sobra. Seus livros não viram pauta de jornal apenas porque têm
ótima saída, e sim porque Rubem é um dos mais importantes
escritores da atualidade, mesmo não tendo o devido
reconhecimento.
A edição de 64 Contos de Rubem Fonseca, compilação de contos
escolhidos pelo próprio autor e lançado pela editora carioca
Companhia das Letras, confirma a importância do recluso escritor
para a literatura nacional. Algumas das melhores histórias
escritas por Fonseca estão dispostas no novo lançamento. Os
mitológicos contos O cobrador e Passeio Noturno I, dos
primeiros anos de escrita, estão lado a lado com material mais
recente. O livro é um resumo daquilo que de mais interessante
Fonseca fez nos últimos 40 anos no gênero em que melhor sabe
narrar. No prefácio do livro, o escritor argentino Tomás Eloy
Martinez adverte o leitor para que não se assuste com o realismo
e a violência contida nas próximas 700 páginas. “Os personagens
de Fonseca não têm escrúpulos. A única moral que os rege é a de
saciar a si mesmos”, diz Martinez.
O autor de Agosto estreou na literatura em 1963 com a publicação
de Os Prisioneiros, livro de contos. A narrativa curta permeou a
trajetória do escritor nos primeiros anos de ofício. Durante duas
décadas Rubem Fonseca dedicou-se quase que exclusivamente a ela.
Seu primeiro romance viria somente em 1973, com o mitológico O
Caso Morel.
Apesar de seu maior sucesso ser um romance em que mistura ficção
e realidade ao descrever o último mês do ditador caudilho Getúlio
Vargas, Fonseca é conhecido mesmo por seus contos. Indispensável
em qualquer antologia da literatura nacional pós anos 60, Rubem
conseguiu, desde a estréia, cunhar um estilo vigoroso e visceral
para sua arte. Os primeiros títulos, ainda sob o impacto da
ditadura militar, têm um alto nível de violência e crueldade.
Essa fúria incontrolável pode ser percebida no antológico Feliz
Ano Novo, publicado em 1975 em livro homônimo. Nele, bandidos
protagonizam uma verdadeira carnificina no último dia do ano ao
assaltarem uma casa em um bairro nobre do Rio.
O estilo de Rubem Fonseca vem reafirmar a tendência urbana que a
literatura brasileira adquire após os “anos de chumbo”. Saem a
narrativas regionais e entram os romances policiais, a violência
das favelas, os seqüestros, o trânsito e o caos que acomete as
cidades após a década de 1950.
A história de vida do autor, de certa forma está nas temáticas
por ele escolhidas. Na verdade ninguém sabe ao certo o que o
contista fez antes de se dedicar de forma exclusiva à literatura.
Alguns dizem que Fonseca foi funcionário da Light (empresa que
gerenciava a energia elétrica no Rio de Janeiro); há outros que
afirmam ser o autor um médico, visto seu apurado conhecimento
sobre a área; a história mais contada é a de que Rubem Fonseca
foi delegado de polícia e que os anos em que passou acompanhando
a rotina do crime na cidade grande serviram de inspiração para
descrever e bolar assassinatos mirabolantes. Esta parece ser a
mais convincente, o que não quer dizer que todas as outras
possibilidades não possam ser verdadeiras.
O fato é que não há quase informações sobre quem é Rubem Fonseca
– pelo menos para os seus leitores. As informações contidas na
orelha de seus livros não dão nenhuma dica sobre a figura do
contista. Recentemente o autor foi agraciado com o Prêmio Juan
Rulfo de Literatura. Acostumado a nunca freqüentar cerimônias e
reuniões literárias, Fonseca se rendeu ao carisma de seu colega
colombiano, Gabriel Garcia Marques, que entregou o prêmio na
ocasião. Esta foi em muitos anos a primeira aparição pública do
escritor.
Em meados dos anos 1980 o autor começa a sua saga pelo romance.
Até os anos 90 publica quatro livros no gênero. O já citado
Agosto fez grande sucesso e foi adaptado para a televisão. Nele o
estilo mais feroz de Rubem Fonseca é amainado. A crítica social
dá lugar ao romance histórico que envolve episódios mitológicos
da nossa recente história política. O autor usaria a mesma
técnica em outros títulos como O Doente Molière , que investiga
as circunstâncias pouco claras que envolvem a morte do dramaturgo
francês.
É nítido o direcionamento da escrita de Rubem Fonseca após sua
primeira fase. Ao começar sua incursão pela narrativa longa o
autor deixa de lado os personagens de vida dura. Ainda que o
submundo nunca tenha deixado de ser o tema central da obra do
escritor, após sua fase "romance", figuras mais cultas começam a
dar as caras.
Essencialmente urbanos, os contos de Rubem Fonseca dão destaque
ao medo, ao sentimento de culpa e impotência, indecisão diante da
vida que paira na cabeça dos cidadãos que vivem no ambiente,
muitas vezes, claustrofóbico e mórbido das cidades.
Cheios de manias e excentricidades, os protagonistas dos livros
de Rubem Fonseca tentam sobreviver a si mesmos. As tramas armadas
pelo escritor tomam proporções enormes quando contadas sob o
ponto de vista de pessoas que já perderam o rumo há muito tempo.
As situações de violência tomam corpo na obra de Fonseca. Mas o
escritor consegue contar histórias, como a do homem que gostava
de examinar suas próprias fezes, presente no livro de contos
Secreções , excreções e desatinos , de 2001, de forma a não
constranger o leitor. O apego com os personagens criados pelo
escritor é fatal. O estilo rápido e direto é outra característica
essencial na sua literatura.
Em contraste com sua reclusão, estão os seus livros, que expõem
toda a sua fragilidade e medo. Mesmo sendo um senhor beirando os
80 anos, o autor coloca toda sua genialidade à mostra ao escrever
sobre o sexo e o amor com o vigor de um jovem que acaba de bater
sua primeira punheta. Aliás, o sexo é um dos temas recorrentes na
sua obra. Conseqüência direta do submundo que Fonseca tanto gosta
de comentar, o sexo é uma espécie de elemento fundamental na
filosofia "fonsequiana". Há sempre uma ninfomaníaca em seus
contos ou romances que é o pivô de um adultério que não deu
certo.
Mesmo sem aparecer, Fonseca têm um séquito fiel de fãs, que
esperam com furor pelo próximo lançamento. Inevitavelmente
comparado a Dalton Trevisan quando o assunto é reclusão, tem-se a
impressão que a fuga dos holofotes de Fonseca é mais por timidez
do que rabugice e espírito de superioridade, como no caso do
contista paranaense.
Além do inegável talento literário, Rubem Fonseca colocou seus
dotes também a serviço do cinema. Fez vários roteiros para a
telona e ganhou muitos prêmios. Com a longa carreira não tardaria
muito para que algum jovem com veleidades literárias e fanático
pelo estilo do escritor tomasse partido e surgisse como o novo
discípulo do mestre do conto. Esta pessoa é Patrícia Mello. Mello
é assumidamente a versão de saias de Rubem Fonseca. Suas
temáticas e estilo lembram, a toda hora, o jeito de Fonseca
contar histórias. Mas o certo é que as “viagens literárias” do
velho escritor andam por toda parte. Pelas praças, ruas e ônibus
há sempre um seguidor do homem que tenta desvendar os mistérios
da caótica vida na metrópole. 64 Contos de Rubem Fonseca , além
de ser um resumo da criação literária do escritor, é também uma
oportunidade para que jovens leitores descubram o autor. Mais do
que isto, que comecem a olhar de modo diferente para as ruas,
praças e avenidas das metrópoles, onde o anonimato é sempre a
melhor opção.
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