leituras do verão

das leituras do verão deste ano, separei cinco (pedro gonzaga, mara coradello, julián fuks, antonio prata e leonardo felipe) que gostaria de destacar; são escritores pouco conhecidos (como de resto, no brasil, noventa e oito por cento dos escritores são) mas que repercutem e provavelmente repercutirão nos próximos anos

CIDADE FECHADA
(EDITORA LEITURA XXI, 2004)


pedro gonzaga armou um quinto de blocos com histórias que abarrotam de referências cínicas o leitor desavisado, revelam a neurose e a mediocridade portoalegrense, de um modo como eu ainda não tinha lido; o tom central é o sarcasmo (e não se enganem com o aparente academicismo de uma frase ou outra, de uma citação ou outra, pois na cabeça desse jovem – sim!, esse é mais um talentoso escritor gaúcho com menos de trinta anos – é totalmente proposital) gerado na incapacidade completa do indivíduo (um indivíduo relativamente culto qualquer) de sobrepujar a estupidez e os padrões suicidas e previsíveis da juventude que o cerca, das máquinas-gerais que a alimentam (da universidade à loja de conveniências do posto de gasolina), da idiotice que se espalha num ritmo vertiginoso desde os anos noventa; o autor escolheu para a prosa de seus contos um estilo de crônica que é mordaz e desnuda a fragilidade de toda cidade, sobretudo, da classe-média, no seu pedacinho óbvio e quase sempre bem protegido; há trechos de impagável vivacidade, como este: “8:40. Deixo tudo e corro para a janela do meu quarto. Graças ao espaçamento entre os prédios imposto pelas empreiteiras, tenho uma vizinha que dorme a menos de cinco metros de distância. Deve ter uns 17 anos e gosta de ser espiada. Faz o possível para ficar sempre bem exposta. Ao se levantar, geralmente 8:45, ela abre a persiana e fica parada em frente à janela, observando desnuda, coisas como o céu lá fora. (...) Nesse primeiro momento, enquanto ela se espreguiça e me demonstra toda a elasticidade de seus músculos e de sua pele jovem, aproveito para sentar na poltrona posicionada de véspera (...) Hoje o quarto dela está na penumbra. Abro meu vidro para tentar ver melhor e percebo pelo espaço de sua persiana um vulto ainda deitado sob os lençóis. É ela. Espero um pouco: tenho tempo. Noto alguma movimentação. Ela caminha até a janela (...) Vejo sua pequena mão de unhas perfeitas e não-pintadas estender uma folha de papel para fora: estou dodói. Querida! Se existisse Deus, se tal monstruosidade ainda fosse possível e tivesse um pingo de vergonha na cara, deveria deixá-la vibrando dessa maneira, assim, jovem e para sempre, adorável, distribuindo um pouco de alegria da janela, trazendo luz ao brejo sujo de meu apartamento”; fazia tempo que eu não ria tanto lendo um texto propositadamente cretino de escritor brasileiro

O COLECIONADOR DE SEGUNDOS
(7 LETRAS, 2004)


mara coradello tem um exagero estético singular e, até onde percebo, nada gratuito, isso pode ser constatado no seu blog caderno branco de mora may; os argumentos que a impulsionam são de verdade, sua audácia e o seu talento são de verdade; a autora trilha um caminho solitário e articula uma prosa que borbulha de poesia (não no mau sentido, aquele do rococó meloso, mas no que se refere ao vigor presente nas tentativas desesperadas de sintetizar em jóias a originalidade da vida e das paixões), expõe as feridas do viver como poucos da sua geração conseguem fazer; este seu primeiro livro (uma coletânea das coisas que ela pratica desde antes) resulta num desequilíbrio interessante; claro, há um contraste natural entre os textos muito bons e os que não são exatamente tão bons assim, mas esse é um risco que a autora parece ter assumido com plena consciência (quando compilou texto antigos e recentes); destaco os seguintes contos: minhas mais sinceras desculpas, trillum, pílulas sujas, o colecionador de segundos; vejam os trechos que sublinhei: “Ela colecionava camisinhas usadas, em caixas de biscoito dinamarquês. Ao final de tudo eram seis caixas, uma em cima da outra, quase do tamanho de uma criança de dois anos” e “(..) uma princesa sádica brinca com um plebeu masoquista. Como? Nunca lhe concedendo nenhum prazer e com requintes de ferocidade: ele não vislumbraria jamais o rosto da princesa. Ele: sofri deliciosamente construindo a imagem da cruel nas nuvens do céu e nos objetos a seu redor. Masturbava descrições mentais do rosto da princesa. Ela: mandava sinais de sua existência – em boatos, lembranças do que jamais houve e truques com perfumes. Torturas e delícias a ambos, ao mesmo tempo e através de um só instrumento: o desconhecimento.”

FRAGMENTOS DE ALBERTO, ULISSES, CAROLINA E EU
(7 LETRAS, 2004)


julián fuks, paulistano, é o mais jovem dos cinco escritores que lhes mostro, escreveu este seu primeiro livro com menos de vinte e dois anos de idade; o que mais surpreende no sujeito é a temática madura dos seus contos e o emprego da estrutura clássica gestada entre a última década do século XIX e a terceira do século XX; o autor (mesmo que sua juventude acabe transparecendo na maioria dos contos, em outros ela praticamente não existe) conduz com sutileza e elegância (às vezes acadêmica demais, acaba pautando os contos por um hermetismo – quem sou eu pra falar? – exagerado, mesmo que já se tenha a certeza de que vale à pena enfrentá-lo) seu leitor para as inevitáveis estranhezas do bom texto; na minha opinião, têm inatacável valor literário os seguintes contos: o menino sobre a capela, relato de um viajante, relato de uma senhora, exício, o convite, ela se refugia no sofá, ulisses; vejam o trecho que destaquei: “Nina acordou. Surpreende-se com Beco. Ele nunca a beijara assim. Ele nunca a abraçara. Mas não pôde fugir do seu mareado. Era amargura, sim, ela não podia nega-lo. Esperara, sim, desesperançosa é claro, o abraço pelas costas. Não olhara para trás simplesmente para criar a si mesma a ingênua fantasia consciente de que alguém a seguia. Soube de tudo isso, mas não disse nada. Abraçou-o sem tentar fantasiar que abraçava o outro. Abraço Beco com força e nele encontrou, por alguns instantes, um amigo. Um amigo quente e tão embriagado quanto ela quisera estar.”

O INFERNO ATRÁS DA PIA
(OBJETIVA, 2004)


antônio prata, paulista, é outro com menos de trinta anos; o sujeito tem uma imaginação sem limites, conecta e reconecta os maiores absurdos fáticos em argumentos estapafúrdios, num texto sem gorduras, sem excessos; não li seus livros anteriores, por isso, fui pego desprevenido: nos seus mais de vinte contos não há um que seja descartável, são todos muito bons; quando eu li o “inferno atrás da pia” estava em garopaba (SC), com todo o tempo do mundo – até parece verdade –, e confesso que reli a maioria dos contos pelo simples fato de querer apreender a capacidade absurda do autor de escrever coisas muito (muito mesmo) engraçadas; o sujeito é mestre (a exceção do conto ‘aleph da vila madalena’, consegue levar o mesmo ritmo lisérgico do início ao fim); mostro o seguinte trecho: “Ontem, enquanto tentava consertar um vazamento atrás da pia do banheiro, deitado sobre o chão frio e úmido de azulejos, tateando uma zona de trevas onde nem a luz nem os olhos de vivente algum jamais alcançaram – entre o sifão e o flexível –, dei de cara com o Demônio. O Diabo, assim como Deus, mora nos detalhes. Não é entre os estalos dos campos de batalha, no pega-pra-capar dos linchamentos públicos ou no trottoir do baixo meretrício que ele procura suas vítimas, mas nas rasas e insuspeitas bordas do cotidiano. Quando menos esperamos, ele aparece para seduzir-nos e levar nossa alma para o quinto dos infernos.”

AUTO
(IDÉIAS A GRANEL, 2004)


leonardo felipe tem o mérito de construir um narrador verdadeiramente imbecil, como de resto tendem a ser os filhotes da classe média alta que, para justificar o vazio de sua existência, ficam ensaiando de garotos perdidos (imitando, com toda a segurança de quem tem uma casinha para onde correr quando a coisa aperta, os seus ídolos maluquetes, geralmente do rock), constrói um desfile de clichês (inclusive com o emprego ostensivo de palavras moderninhas em inglês – coisa que por sinal faz o maior sucesso em porto alegre, exemplo disso são os provincianos que adoram dizer whatever a cada dez minutos) que poderiam ser enjoativos se não fossem um propósito deliberado do autor; o narrador escolhido é engraçadinho, é o garoto branco, ‘magro e bonitinho’ típico de porto alegre, com seus truques para vencer a monotonia da cidade classe média; destacam-se os contos (muitos em tom de crônica): a maior roubada, lola, restaurante chinês, dilemas de um jovem escritor, o velho; vejam os trechos que selecionei:”Um lugar sombrio, com duas máquinas de fliperama e um jukebox, freqüentado por uns tipinhos estranho, nerds do mundo das drogas. Em vez de colecionar gibis Marvel e jogar RPG, essas figuras cultivavam skunk hidropônico na banheira de seus apartamentos e se reuniam nos smart shops para trocar informações sobre as sementes mais possantes da temporada. Um bando de corvos vestindo camisetas pretas estampadas com rostos de defuntos: Jimi Hendriz, Bob Marley, Jim Morrison, Kurt Cobain, olhos vermelhos e inchados, chupando suco integral por canudinhos de plástico” e “Mesmo depois de assumir a chefia do departamento, delegava decisões, fugia das situações de risco e nunca objetava os ditames do partido. Apenas fazia seus cálculos e projeções e segui, cabeça baixa, reparando no piso cada vez mais gasto da repartição.”

PAULO SCOTT é autor do livro de poesia "Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimento dos monstros" (Sulina, 2001); com a ajuda do músico Flu e do desenhista Fábio Zimbres, criou o cultuado evento literário de Porto Alegre ´PóQUET: rUÍDO & LITErATUrA >>> ESCRITORES QUE TOCAM – MÚSICOS QUE ESCREVEM <<<´. Publicou o livro de contos "Ainda orangotangos" pela editora Livros do Mal.