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Insight
Nasci em Rapa-Nui. Sou filho de Moais. Minha mãe foi pulverizada
sob o jugo de Uwala Waili, o Tirano. Meu pai não viveu.
Sobrevivemos. Tentaram fazer com ele como fizeram com minha mãe,
mas não foram capazes. Pesava demais. Ainda assim, deixaram-no
avariado para sempre. Pessoas estranhas invadiram a Ilha e nos
trouxeram para cá. Os tormentos do meu pai secaram-lhe tanto a
alma que o coração virou fruto de mandacaru. E o corpo de pedra,
um imenso cacto recoberto de espinhos. Com uma diferença: eram
invertidos. E em vez de protegerem, perfuravam-no.
Jamais conheceu qualquer prazer. Exceto quando, picado por
insetos venenosos, sua seiva se impregnava de estupefacientes e
circulava na cabeça, antes maltratada pela dor. Logo cessava o
efeito. E os cardos pontiagudos, aguçados pela abstinência, o
dilaceravam ainda mais. No entanto, sentia um medo terrível de
morrer. Que estranho apego à vida seria esse, cujo nome inventado
pelos homens é tão pequeno, mas expressa uma necessidade tão
intensa? "Instinto de vida”? Mal pode ser comparado a duas
lágrimas salgadas diluídas naquele oceano de angústias.
Como filho de Moais, também sou feito de pedras. Mesmo tendo sido
cinzelado a partir das rochas mais resistentes, tinha tudo para
ter virado pó, como minha mãe. Ou um vegetal igual ao meu pai. A
deusa Indra é minha madrinha. E me protege. Descontado o desgaste
natural causado pelo tempo, estou íntegro como meus irmãos de
Rapa Nui. A deusa providenciou para que meu corpo fosse esculpido
num granito especial, vomitado pelo vulcão Rano Raraku, perto do
qual vim a existir. Além disso, toda vez que sou ameaçado, minha
madrinha envia emissários para me defender.
Apesar da resistência pétrea e da proteção de Indra, conduzo
minha própria vida. A se esbater como uma borboleta, nas mãos
semicerradas em forma de conchas. Desconfio que, embora sendo
feito de pedras o meu corpo, trago as mãos acolchoadas pelo
veludo dos ternos sentimentos. Talvez a borboleta se sinta antes
protegida do que ameaçada. Ou não. Quem sabe, sou eu mesmo que a
retenho, com as minhas mãos rochosas. E ela, apesar do desespero,
não logra escapar...
Travei muitas batalhas. Todas em legítima defesa. Mal pus os pés
neste solo, contraí um inimigo que tentou me escorraçar. Dizia
que Moais não foram feitos para conviver com gente. Então,
acertou-me um golpe de picareta no meio da testa. Estremeci, mas
não caí. Nem revidei. Embora ainda traga a cicatriz, consegui
sobreviver. Enquanto ele já se preparava para desferir mais um
golpe, surgiram no céu objetos luminosos que subiam e
desciam. Foram trazidos por criaturas voadoras, com os olhos
imóveis, do tamanho de focinhos de focas. Eram emissários da
deusa. Então, um deles se aproximou e me disse: "Indra te envia,
para a vitória, esta carruagem afortunada, exterminadora de
inimigos, e o grande arco feito por sua mão, e esta couraça de
fogo, e estas flechas feitas de raios de Sol. E esta lança de
ferro reluzente”. O adversário bateu em retirada.
É curioso: ao contrário do que aconteceu a Laoconte, foram duas
serpentes que socorreram, a mim e a meus filhos, durante uma das
mais ferozes batalhas que enfrentei. Acredito que isto só
aconteceu porque nunca usei a minha lança para sondar ventres de
cavalos de madeira, como fez o sacerdote de Apolo. Provavelmente
à cata de fáceis tesouros. Não! Tirante a proteção de Indra, nada
me foi dado. Tudo o que sou e o que tenho foi conquistado a duras
penas... Ou a duras pedras. Como aquelas de onde fui tirado.
RAYMUNDO
SILVEIRA é médico e escritor. De Novembro de 1979 a Junho de
1990 foi membro do Conselho Editorial da Revista FEMINA, órgão
oficial da Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e
Obstetrícia onde publicou cerca de meia centena de artigos
científicos. Tem também trabalhos publicados em livros e outras
revistas médicas. "Prevenção e Diagnóstico do Câncer na Mulher",
"Ceará Médico", "GO Atual" e "Revista Brasileira de Ginecologia E
Obstetrícia".
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