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Eu Fennergan´s wake “Algumas pessoas brotaram no beco não se sabe de onde e haviam se agrupado em torno de Macabéa sem nada fazer assim como antes as pessoas nada haviam feito por ela, só que agora pelo menos a espiavam, o que lhe dava uma existência”.
Clarice Lispector TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TRÊS TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC DOIS TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TUM TAC TIC TAC TIC TAC TIC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIO TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIN TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAT TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAA TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIG TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAE TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIM TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC RAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC EAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC GIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC RIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC EAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC SAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC SAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC IAC TIC TAC TIC TAC TIC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC VAC Longas horas prolongando a hora de não dormir. Algo nele ainda revela uma certa mocidade, algo que seus 21 anos são incapazes de provar. Tal qual falássemos de um Canyon, onde os fósseis incrustados nas pedras indicam a existência longínqua de algumas vidinhas, nosso personagem dava sinais de também já ter sido feliz. Senão feliz ao menos satisfeito. Alma anciã; traços de Radiguet, permitam-me cotejar. Ainda não viu publicado nenhum livro, como seu precoce equivalente francês. Nenhuma “Estação no Inferno”, embora todas as noites, vítima da insônia, fizesse uma paradinha por lá. Nos olhos olheiras rosto roxo cabelos sebosos cheirando à falta de sabão. Todas as manhãs um vidro de formol para manter a forma, um bule de café pra cada gole tic tac de solidão. As idéias acometem-lhe a cabeça em lampejos desconexos, frases soltas, elipses intermináv...eis a vida desse rapaz. De tal modo confusa, que Fennergan aos próprios sonhos vela, desimportantes, sem do novo hipérbato que aprendeu saber. Caso sínquise seria houvesse o das palavras lugar mudado. Entretanto, sua mente onomatopéica funcionava mais como uma anti-sintaxe, sempre substituindo os verbos defectivos pelos defeitos próprios do seu defectivizar. E a buon intenditore mezzo mistero basta. Ele torna o contexto cativo dos seus fragmentos e não seus fragmentos cativos do contexto. Questão de filosofia de vida. Importa mais o fim, estatizante, ou o meio carnavalizante? Wörtet, words. Laconique to do not enslave the Verbo. O apartamento é espaçoso e à tarde pode-se ver o sol. A tinta é que descasca do lado de fora; pelo de dentro, outrossim, descasca ele. Na esquina ao lado a Terra gira puta pobre girando essa bolsinha azul. E apesar desse palanfrório perfunctório procacissimamente adiáforo, impossível descrevê-lo linearmente sob o jugo de padrões psicologizantes e métricas estrabíblicas. Insônia, mais café, mais contradição e menos respostas tornam a estória peculiar. Tente apreender o sentido do tic tac mundo organizado civilizado legalizado politizado hierarquizado em que tal jovem se situa e assim estará reconhecido seu valor subjetivo. Buscai entender que este trapezismo literário hanti-semântico-hortográfico-demagógico diz muito mais sobre ele do que qualquer ficha de inscrição ou foto três por quatro. A arte, tanto quanto a vida, está farta destes incontáveis democrápulas e seus sexismos patifálicos. Na geladeira gela o amor e outras frutas podres. Cabeça de metal com cocaímã e águardente da torneira. É que ele não dá nó sem ponto, compreende? Lou Reed, Rimbaud, Joyce, a noivinha, nada de sono; só um cansaço Ana crônico nem tenta concatenar. A cabeça inerte e os axônhos ativos no coração. Sem cor. Ação! Corta... Werthentes diferentes, da-ti-lo-grafa uma carta para a amada imortal do Goethe. Mas não morre. Tampouco vive. Passa pela história como um preâmbulo ao fim do texto porque diz tudo que o texto não diria em dois bilhões de páginas ou mais. Continua seu híperbalismo holometabólico lexicolibertista anti-prosodico sem se importar muito com adjetivos. Encosta a cabeça na al-mofada velha, grita pra escutar a voz de alguém e sonha com os sonhos da morte. Desiste da idéia. Seriam eles tão terríveis assim? Melhor virver...Seja lá o que for. Não. Prefere sair a pé pra visitar o doutor que lhe re seita re médios estúpidos. Viva a geração coca e cola! (Os médicos se tornaram publicitários de farmácias). Talvez uma hora de sexo algum bem lhe pudesse fazer. Não gosta de pagar, mas paga outra vez mais quer se matar. “As pessoas têm conjeturado o sexo como panacéia para todos os males do mundo. E eu, desmundo, também conjeturei”. Sofistas dividem a mesma onda; Fennergan surfascismos diferentes em seu estado de catatonietzsche típico. Liberta o fluir do mal, pra não citar Baudelaire, mas Pandora. Fennergan pensa com os olhos já que nada vê. Procura não um estacionamento, mas o ponto morto nas estradas e ré na contra mão do sol maior. Aprendeu sozinho a detestar os antidepressivos, os antisser o que se é e ponto e vírgula porque essas coisas se ingerem sem copo d´água. O ser mastigado é pobre. Encontrou utilidade pras bochechas. Bochecha, então. Apesar da noivinha, a mulher de sua vida cabe, volta e meia, numa garrafa de vodka vagabunda. Mas não era cabível. Cabide balde onde se penduram pesadelos, acordado, afogados. Insófere a si próprio, sôfrego, dilapidado. Hermann Hesse disse: Depois da fome de viver talvez não tenha o homem outra mais forte do que a fome de esquecer. Fennergan, deslembrado ele mesmo, muda o rumo da história e fomenta o consumo próprio através do álcool e da espora...Espúrio mal quisto. A normalidade é a mais cruel das insanidades, mas sabedoria na voz de outrem talvez seja ainda pior. Ainda tentando dormir, nosso personagem vai estudar astronomia chinesa. Descobriu ter sido construído num ex-califado de Bagdá chamado Meragá, destruído pelos mongóis em 1258, a leste do Lago de Urmia no Azerbaidjão, grande observatório, dotado de uma rica biblioteca, para o célebre astrônomo e astrólogo Nassir Edin Thusi. Parece que os chineses também dali tiraram proveito, embora se trate de uma mera hipótese, considerando-se a extensão do império mongol. Apenas tic tac entre os calendários gregorianos e os treze satélites que giram ao redor de Júpiter. Grande merda. Ainda não sabe direito como ser feliz. Admite-no-mundo-os-elos, mAs nuNca a sImeTria entRe eleS. No admirável mundinho novo tão científico das Hipnopédias e das Strobonic Injection, o homem que não dorme é o mais recente rebelde fora-da-lei. Lei da persuasão subconsciente. É no lamento da história e na insônia do pensamento que se fomenta libertação, mas o homem que desafia seu tempo já não é super-herói. Fennergan´s till awake in my dreams, trying to find a sense in this grotesque chaos of machines. Tira a cabeça pra fora da janela, observa os automóveis indo, indo pra lugar algum, indo labirinticamente ao encontro do regresso. Esfrega os olhos, coça a barba com a palma da mão e tempera a monotonia com o óleo que escorre dos cabelos. Deita, passa horas tic tac contemplando o teto branco, esgotado. Rende-se ao peso das pálpebras e dorme, enfim. Quatro horas depois levanta, escova os dentes, toma um bom banho, barbeia-se, penteia os cabelos, esquenta a água do café, arranca o relógio do pulso e, por incrível que pareça, ainda mais forte é a vontade de morrer. Fenergan: Nome comercial do Cloridrato de Prometazina – Fármaco utilizado como antialérgico, com fácil absorção através da barreira hematoencefálica, causando efeitos colaterais de sonolência. Isso explica sua auto-administração por insones e hipocondríacos. M. R. MELLO nasceu em 1984 na cidade de Curitiba/Paraná, onde publicou seu livro de contos e poesias através do Fórum Popular de Cultura de Curitiba – FoPoCCu. Foi um dos fundadores do fanzine literário o “LÁ”, no ano de 2004, para divulgar a obra de autores desconhecidos. Além disso, colabora em projetos relacionados à motivação de crianças carentes através da arte, em regiões periféricas da capital.
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