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Dois contos
A gorda do lotação
Era quase fim de tarde, mas o sol parecia não dá nenhum sinal de
que iria se pôr. Parecia acuado ante o entardecer. O calor tava
de rachar, mas eu tinha que ir até a casa de Dalva devolver-lhe
um livro de antropologia. Troquei de roupa e corri até o ponto de
ônibus que ficava bem em frente ao quartinho da Vila onde eu
morava, juntamente com outros colegas também do interior.
Antes de chegar ao ponto avistei o ônibus que fazia a linha 411,
o qual eu iria tomar, saindo com uma ruma de gente espremida
dentro. Quando fui chegando mais perto, uma senhora gorda que
decerto não conseguiu chegar também a tempo, tapou o olho
esquerdo com um das mãos, talvez para enxergar melhor com o
direito espichado em minha direção e foi perguntando, que horas
são moço?
Três horas e 45 minutos eu respondi, mas logo vi que ela não
prestou à atenção na minha resposta, virando-se para esbravejar
com um dos meninos que a acompanhava, e que teimava em ficar
rente ao meio fio por onde paravam os ônibus.
Sai daí mode os carros... desgraçado!, berrou rangendo os dentes.
Quando fui chegando mais pra perto, pude ver melhor o motivo do
aperreio daquela senhora. Ela tinha duas ou três sacolas
penduradas em cada um dos ombros, equilibradas pela posição, com
certeza muito cansativa, arribada dos braços cheios de banha e
vigiava três moleques ladinos que não paravam de andar obrigando
a senhora gorda a espichar o olhar, de um lado para outro.
Tô mais suada que a tampa de um cuscuzeiro quando está fervendo,
resmungava diante do calor insuportável.
Parei perto dela. Pensei em oferecer ajuda, mas me contive,
achando que ela pudesse não entender meu gesto. Mesmo assim não
me segurei e, me disfarçando pra senhora gorda não perceber,
murmurei no ouvido de um dos moleques que a acompanhava.
Aquieta o facho moleque. Obedece tua mãe... tua tia...ou sei lá o
quê! Ele não gostou e se amuou.
De repente avistei outro ônibus da linha 411 se aproximando.
Acenei com mão para que ele parasse e enquanto esperava que ele
encostasse, notei que aquele era também o lotação que a senhora
gorda estava esperando pelo alvoroço que ela fazia juntando os
moleques e arribando as sacolas que a essas alturas já estavam
espalhadas no banco de cimento do ponto de ônibus.
Quando o ônibus parou fui logo subindo na frente e talvez por um
certo sentimento de culpa por não ter ajudado a senhora gorda,
pedi ao cobrador que tivesse um pouco de paciência e não mandasse
arrastar o ônibus até que ela se acomodasse com toda aquela sua
ninharia e meninada. Passei pela catraca e me posicionei de pé
próximo à porta de saída. O meu destino era as duas paradas do
ponto em que subir.
Depois que fiz sinal para o ônibus parar, vi os moleques ladinos
que estavam em companhia da senhora gorda escorrendo um a um por
baixo da catraca sob o olhar cúmplice do cobrador. Em seguida a
senhora foi entregando as sacolas, uma a uma, para o moleque
maior que ainda estava de pé, enquanto os outros dois menores se
espremiam numa única poltrona vazia. Passada a ultima sacola foi
à vez da senhora gorda passar pela catraca. E como que já sabendo
das dificuldades que tinha de se locomover em ônibus carregando
aquele corpanzil, empurrou-se com força contra a catraca.
No que eu ia descendo ouvir o desespero de um dos moleques.
Tenha calma, cobrador, por favor, não deixe que o motorista
arraste o ônibus agora, que minha tia ficou entalada na catraca.
Tarde demais. O motorista tinha, mecanicamente, arrastado o
ônibus antes que cobrador ouvisse os apelos do moleque.
Eu já estava chegando na casa de Dalva, mas ainda pude avistar a
pobre senhora gorda se espremendo numa luta infortúnia para se
livrar da catraca daquele lotação que sumia rua abaixo, veloz e
barulhento.
O mesmo copo d’água
Começamos pelo sexo, quando tínhamos apenas uns treze anos cada
um. Aconteceu assim de repente num puxadinho que havia no quintal
da casa dela. Aí, depois foi que veio mesmo a paixão, o que fez
com que eu nem ligasse quando o besta do pai de Rita, todo
enfezado, me obrigou a casar. Casar mesmo, não. Nada dessas
coisas de igreja, nem de papel passado. Fomos morar juntos e na
casa do velho que era quem também botava a comida dentro de casa
Era tanta paixão e tanto sexo que até parecia que a dor que um
sentia o outro também sentia. E sendo assim, para a dor passar,
tomávamos a mesma pílula com o mesmo copo d’água.
Hoje em dia, tudo, inclusive a paixão, acabou. E cada um tem a
sua própria dor, toma a sua própria pílula com seu próprio copo
d’água.
FRANCISCO PIPIO, é sociólogo, poeta e contista. Autor do
livro de poemas Asas do Entardecer (Papel Virtual Editora,
2005). Estes contos pertencem ao livro O mesmo Copo D’água
(inédito).
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