|
 |

|
Despertares
Mais uns instantes e ela dobrará a esquina. A blusa branca, a
saia azul, a mochila às costas, os cabelos distribuídos em
tranças, o riso maroto. A menina. Todas as tardes, naquela hora,
dobra a esquina em direção à casa. Todas as horas, de todos os
dias, o homem no outro lado da rua, na casa em frente à dela, o
homem a vigia. Cada passo, cada movimento. O gesto afastando o
cabelo dos olhos, a maneira como carrega a mochila, o modo do
andar descompromissado, com quem ela fala, o movimento dos
lábios, o balanço das cadeiras, tudo o homem observa. Tudo ele
sabe de cor. A menina é sua razão e seu desatino. Ele sabe e
disso se alimenta. Houve um tempo em que ainda se questionava,
buscava explicações, procurava um mínimo de sensatez em suas
atitudes. Não mais. Nos dias que correm, é fato consumado. Não
discute com o espelho, não carrega culpas pelas noites insones,
simplesmente aceita. A menina o consome, dela o homem se nutre,
mesmo que ainda e apenas em sua imaginação. Ele a vê batendo à
sua porta, ele a vê entrando, tirando a roupa, oferecendo-se. Ele
a toma, e é como se realidade fosse, ele a possui, desfolha a
pequenina rosa pétala por pétala, lambe-lhe o corpo, gruda-se em
sua boca e sente –divina e delicada- a língua e seus humores. Há
noites em que é a menina que o toma, esfrega-se em seu corpo,
enrosca-se em seus pelos, desliza em suas pernas másculas,
arranha seu ventre e quando o homem, sem forças para respirar,
quase se esvaindo em lágrimas, a menina o submete de vez, gruda a
boca em seu sexo e o leva à loucura. Na manhã seguinte, e em
todas os dias que se seguirão, o homem se postará à janela para
vigiá-la.
A menina adivinha, sabe, é dobrar a esquina e os olhos do homem
irão grudar-se nela. A menina sente o bafo do homem, percebe a
baba gosmenta que escorre em todas as horas de todos os dias. Por
isso, no momento em que dobra a esquina, diminui o passo, arruma
os cabelos lentamente, balança um pouco mais os quadris. Se
ocorre de encontrar outros de sua idade pára e conversa. Ouve
histórias e ri, passando a língua pelos lábios como se os
acariciasse. E se a amarelinha se desenha na calçada, ela pula
várias vezes para lá e cá. E se acontece de ventar ela rodopia
junto e permite que a saia se alce exibindo, sem que isso a
perturbe, um pouco mais de seu corpo. A menina sabe, mais cedo ou
mais tarde, dará para o homem. Não da forma como ele imagina, mas
do seu modo. E a seu tempo. E enquanto o momento não se
apresenta, ela se permite algumas compensações. O urso de pano,
de olhos brilhantes, que ela encontrou à sua porta em uma das
tardes em que voltava da escola e que ela adivinha, com sensatez,
de onde viera. Ela o acarinha, ela o beija, ela o carrega de um
lado para outro enquanto dentro de casa, dorme abraçada a ele. Ou
o delicado colar de pedras coloridas que ela encontrara envolvido
em papel de seda ao dobrar a esquina numa tarde de inverno.
Sempre que volta para casa a menina abre a gaveta do armário e o
apanha. Coloca-o e se intui uma dama. E imagina criados a
satisfazerem suas vontades, vestidos novos, sapatos de salto,
jóias de verdade. E todos estes criados têm o mesmo rosto. Do
homem. A menina sabe, um dia. Mas antes que esse dia chegue é
preciso que se prepare. Por isso, quando todos dormem, ela se
levanta, acende a luz do quarto, abre as cortinas que protegem a
janela, e se despe lentamente. E acaricia os pequenos seios em
formação. E desce as mãos, de um jeito suave, pelo corpo até o
meio das pernas. E descobre, a cada noite, novos pelos. E sorri
deliciada. Do outro lado da rua há um homem, provavelmente em
transe. E tudo deve ser feito para que este homem arda e se
esvaia cada vez e sempre até o dia em que ela bater-lhe à porta.
SERGIO NAPP
nasceu em Santo Ângelo, em 1939. Além de professor e engenheiro,
formado pela UFRGS, é escritor e compositor, com publicações em
Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires. Também é
produtor de shows e de discos, com inúmeras premiações como
letrista, em festivais no Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de
Janeiro. Foi editor responsável da Tchê! Editores de Livros.
Diretor da Casa de Cultura Mário Quintana de 1997 a 1999. Voltou
à direção da Casa de Cultura Mario Quintana em 2003. Publicou:
Quintais da madrugada (poemas). Ed. Tchê!, 1985; Para voar na
boca da noite (contos). Ed. Tchê!, 1987; A construção da casa
(poemas). Ed. Tchê!, 1992; Jogo de circunstâncias (novela). Ed.
Tchê!, 1993; Pássaro dos dias de verão (novela). Ed. Tchê!, 1994;
Estranhos sentimentos (contos). Fumproarte/WS Editor, 2000;
Delicadezas do espanto (juvenil). Ed. Saraiva, 2004.
|