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Femme Cousant, Henri Lebasque |
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Até um poder
desconhecido
Olhou para o quadro e sentiu-se, literalmente, en-golida pela
paisagem.
Tratava-se de uma pintura em tons fortes e traços largos,
representando uma senhora, de chapéu, a coser, e uma rapariga, de
vestido rosado, a ler, sentadas, ambas, tranquilamente, em
cadeiras de lona, sob a copa pujante de uma árvore. Ao longe, o
mar profundo alongava-lhe o olhar, e os verdes, azuis, amarelos e
rosas intensos, de um parque próximo, algemavam-lhe os sentidos,
sem pudor.
Em vão procurava arredar a vista dos confins da tela e
concentrá-la no espelho, à sua frente, pelo qual terminava a
maquilhagem matinal, antes de sair para o emprego.
O quadro, comprara-o no dia anterior, em sereno passeio pelo
centro comercial. Incauta, observava os posters expostos, um a
um, quando inesperadamente lhe surgira aquela paisagem de amena
tarde de verão à beira mar.
Fulminada, suspendera o movimento dos braços, das pernas, até do
diafragma, no subir e descer da respiração.
Tentara depois retomar o controlo do corpo, encetar o gesto largo
que tornaria aquela visão em passado, na sua retina. Recompondo
as feições, simulara até observar outras gravuras. Mas, nelas, as
linhas pareciam diluídas, os tons baços, sem rigor ou viço. Em
suma, sem vida!
Mesmo assim, ensaiara alguns passos no sentido do expositor
vizinho, perante o olhar já desconfiado da vendedora.
Só que a atracção daquele quadro parecia-lhe inexorável e não
conseguira opor-lhe resistência. Febrilmente, perguntara o preço,
passara o cheque e trouxera, debaixo do braço, Femme Cousant, de
Henri Lebasque, abrigado da chuva fria de Dezembro.
Já em casa, dedicara-se a desventrar uma moldura antiga,
extraindo-lhe a desbotada estampa inglesa de paisagem campestre.
E, novamente com serenidade, medira, cortara, implantara, colara
e pendurara o novo quadro do seu quarto.
À noite, deitada na cama, protegida do frio por grossos
cobertores, e do escuro pela luminosidade aconchegante do
candeeiro de mesa-de-cabeceira, perante o romance israelita do
momento, vagueara-lhe a atenção para a parede fronteira, junto ao
armário. Mas fora só isso. Nada mais acontecera, para além de uma
suave sensação de prazer e de um sorriso terno que lhe invadira a
alma e o sono repousado.
Agora, de manhã, é que, já vestida e quase pronta para sair, ao
passar o blush sobre as faces, olhara para o quadro e sentira-se,
literalmente, engolida pela paisagem.
Inicialmente, fugira-lhe a vista para a esquerda, atraída pelas
nuances rosadas e verdes, apelantes. Depois, o ouvido perseguira
os sons de parque soalheiro e o longínquo bater das ondas contra
os rochedos. Nos braços, sentira nitidamente uma temperatura
cálida, ao passo que o odor a flores lhe chegava, forte e
imperativo, às narinas.
“Que agradável está a tarde!”, soou-lhe de uma fonte próxima.
E reconheceu-se na figura sentada, de vestido rosa, banhada pela
luz quente da tarde de Verão.
Às suas mãos, sobre o regaço, estendia-se um livro aberto que,
naturalmente, continuou a ler.
As palavras escritas soavam de tal modo familiares que pareciam
fluir-lhe ao cérebro sem passar pelos intrincados mecanismos da
compreensão. Mas, em contrapartida, exibiam um tão intenso brilho
e significado, que a seus olhos surgiram como uma revelação.
“Escute, mãe!”, ouviu-se dizer, com veemência.
De sob o chapéu de palha esboçou-se um sorriso de assentimento,
confirmado pelo breve gesto da cabeça debruçada sobre o trabalho
de costura.
“Escute, mãe!”, repetiu, quase gritando de alegria e entusiasmo
ilimitados. “ ATÉ UM PODER DESCONHECIDO:
I. VIAGEM
Espreitei para o cimo, alonguei a vista,
até que meus olhos conhecessem
Os traços suaves do horizonte.
Voltei a olhar, peguei numa lupa,
Subi os degraus resgatando as nuvens
Que em cima vogavam.
Escalando o ar, galguei-a de novo,
Da base ao topo,
Escutando o silêncio,
Sorrindo aos montes confusos
Que em baixo se erguiam
Deixando seus cumes fabricarem
Nuvens rosadas, de aroma singelo,
Doce confusão.
Colhi uma flor, tão leve e suave
Que por entre os dedos se desvaneceu.
Estaquei, alarmada, subitamente
Imaginando qual o Poder que no fundo,
Para além das montanhas e das flores,
Por detrás das nuvens rosadas,
Governava tal mundo abstracto.
Voltei a descer, a voar
Os mil degraus da minha alma desconhecida,
E, ofegante, percorri os mil compartimentos
Que ela encerra.
Escorreguei por corrimões
E paredes forradas de sonhos.
Finalmente atingi a porta,
Desvairada.
Saí e tranquei-a com um cadeado,
Não fosse a minha alma fugir!
II. FUGA
Depois despertei em corpo, com doze sentidos,
Num quarto fechado, de seis paredes
E doze janelas voltadas para o nascente.
Em doze cadeiras sentavam-se
Doze corpos esguios, transparentes, suaves,
Puros na simplicidade das suas formas.
Inexplicavelmente se ergueram todos
Quando, a um gesto, me ergui.
Rapidamente se aproximaram da janela
Quando, ligeiro, o meu movimento se deu.
A um só impulso as cabeças se levantaram.
A um só sopro as doze janelas se abriram,
Os doze rostos se voltaram e avistaram
Doze paisagens de céu azul.
E em asas que nasceram,
Não sei eu, ninguém sabe, donde,
Precipitaram-se para o abismo da paisagem.
III. AVE
Ser ave é ser universo,
De bosques a campos, de mares a montanhas,
Bebendo as gotas de orvalho
Nascendo ao luar.
Gotas que são mundo,
Mas um mundo transparente e enorme,
E tão vivo, e tão pleno daquele desconhecido Poder
que eu busco há tanto.
Pois universo que sou
Reconheço o mundo que és,
Compreendo os teus cânticos à lua
E, mais do que à lua,
Ao milhão de pequeníssimas estrelas
Que, brotando do escuro, salpicam o infinito
Até uma quinta dimensão.
IV. QUINTA DIMENSÃO
Lá longe, em silêncio,
É a Terra um globo azulado,
E as estrelas diminutas, girantes, luminosas,
Os habitantes vivos do Universo.
E os planetas, e constelações, e manchas,
E círculos, e pontos velozes disparam,
Projectam-se, abruptamente arremetendo-se
Para cada caminho de luz.
Nós, os insignificantes seres
Que frente a nós mesmos nos julgamos universos,
Quedamos mudos perante o próprio Universo.
E, para além de uma quinta dimensão,
Só o PODER DESCONHECIDO!”
“ Só o Poder Desconhecido!”, murmurou, já para si, com convicção
profunda. “ Só o Poder Desconhecido...”
Logo da cadeira vizinha lhe acenou novo gesto concordante, que se
foi esbatendo e diluindo, transportando-a em intensa calma, sem
sobressaltos.
Diante de si avistou uma cara expectante, mas serena, os cabelos
ruivos, densamente encaracolados, emoldurando o oval da face.
Identificou-se, rápido, no reflexo desalinhado do seu quarto pela
manhã, enquadrado no espelho diante de si.
“Vens?”, ouviu, então. “ Estamos outra vez atrasados...”
“Sim, é só um momento!”, respondeu.
E passou o batom pelos lábios.
ILONA BASTOS nasceu em 1959, na cidade de São Paulo, Brasil.
Frequentou o Curso de Formação de Professores da primeira à
quarta série do primeiro grau, no Rio de Janeiro. Licenciou-se em
Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa em 1983. Exerce
advocacia em Lisboa. Publicou: A Espantosa História do Dinossauro
de Fraldas e outras misteriosas narrativas", Editorial Minerva,
1998 (infantil).
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