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Asdrambúzios
ou O dia que a verdade passou por nossas cabeças
- Sonhei que era um anjo... - disse o homem à sua mulher, ainda
na penumbra suave da manhã.
Iniciamos aqui a narração daqueles acontecimentos miríficos,
assustadores e fantásticos a que passou a tenra Porto Alegre,
esta cidade tão cheia de mistérios. Esclarecemos - sobretudo para
os mais curiosos - que tudo aconteceu na época da Feira do Livro,
ali na Praça da Alfândega, num passado não muito longe e,
deixando uma fresta para a imaginação, situe o leitor onde bem
entender.
Mas eis que o Destino, às vezes chamado de imprudente e
sarcástico, uniu no mesmo dia e lugar estranhos personagens, como
veremos. O primeiro deles é o autor da frase e que chamaremos
simplesmente o-homem-que-sonhou-que-era-um-anjo, mas sobre ele
vamos falar depois.
Vamos ver, então, o segundo, que é aquele ali: o curioso Jogador
Mascarado do Sport Clube Internacional. Famoso na época pelas
inegáveis razões de ser um grande atacante, claro, e usar uma
máscara negra onde apenas os olhos ficavam de fora. Logicamente,
poderá imaginar o leitor os inúmeros apelidos que tinha: o
Fantasma Colorado, o Demônio, o Terror Mascarado! Os gremistas o
queriam morto, esquartejado e enterrado vinte palmos abaixo da
terra. Era realmente um terror: diblava, chutava e berrava. Mas,
afinal, quem era ele?
Deixamo-lo envolvido nos seus treinos e vamos à Dona Eulália,
humilde funcionária pública e viúva. Solitária na doce companhia
dos seus gatos, era pessoa das mais queridas no antigo bairro
Cidade Baixa, mas o mistério que a acompanhava era aquela música,
tão rica, tão melodiosa, que muitas vezes se ouvia na sua casa
nas horas mortas da noite. E quando lhe perguntavam quem era o
tocador de violão, o gaiteiro ou o flautista, Dona Eulália
explicava simplesmente que era... o rádio. Diziam também, e isso
já era pura fofoca, que um mulatinho chamado Lupi era visto
sempre na porta da sua casa, sentado, ouvindo... ouvindo
devagarinho aquela música...
Agora, astuto, sim, foi o Destino, porque, lembrando bem, foi no
final da tarde que estavam lá pelas bancas da Feira do Livro
o-homem-que-sonhou-que-era-um-anjo, Dona Eulália e, sem que
ninguém desconfie, o Jogador Mascarado! – obviamente, sem a
máscara... Falta apresentarmos outro que por ali circulava: o
brigadiano Zacarias. Pouco preocupado em vigiar assaltantes e
curioso demais pelas lindas mulheres que distraídas escolhem seus
livros, Zacarias era um conquistador sem brilhantina e em nada
lembrava os brigadianos sérios da coorporação.
Entretanto, é chegado o momento, após essa longa e entediosa
apresentação, de desvendarmos a intrincada trama que o Destino
montou. O-homem-que-sonhou¬-que-era-um-anjo caminhava e de súbito
parou, olhou para a mulher e disse:
- Eu sei, depois de tanto tempo, quem sou de fato. Sou
Asdrambúzios e um dia fui um anjo do Senhor, até que fiz parte da
primeira rebelião no Céu.
As suas longas asas apareceram e devagar abriram-se na praça, no
meio daquela multidão toda. Ali! Na Feira do Livro! Entre os
Machados, os Verissimos, os Rosas! E foi como se aquela
revelação, tão veradeira, tão distante das verdades dos homens,
por um momento envolvesse, contagiasse a todos numa vontade
demoníaca para dizerem as suas verdades escondidas, macumunadas,
sorrateiras. E daqueles que antes apresentamos e descrevemos,
Dona Eulália foi a primeira a gritar:
- Os músicos na minha casa são os meus gatos! São eles que tocam!
Meus gatos!
E disse tímido e cabisbaixo o brigadiano Zacarias:
- Não sou brigadiano, uso esta roupa só para conquistar as
mulheres.
E gritou com todos os pulmões o homem ao lado de Zacarias:
- Sou o Fantasma Colorado! Sou o Mascarado!
Voou silencioso o anjo Asdrambúzios sobre as nossas cabeças e
aqui e acolá ouviam-se as mais tenras verdades dos homens, e não
mais a dos anjos: Sou ladrão! Vou fugir! Eu te amo! Eu te quero!
Eu matei! E houve com certeza aqueles que disseram verdades no
desejo profundo de também criarem asas e voarem. Porém, na terra
ficaram os homens e lá longe pela Rua da Praia seguia a sombra do
anjo.
E disso tudo conclui-se o óbvio: a verdade liberta. Libertou
naquela tarde o anjo Asdrambúzios da sua triste vida com os
homens. Libertou Dona Eulália e sua orquestra de gatos para
ensaiarem à luz do dia. Libertou as mulheres das mentiras do
falso brigadiano Zacarias. Porém, ironicamente, como é típico do
Destino, a verdade não libertou o Jogador Mascarado pelo simples
fato que ninguém acreditou que aquele que estava ali, com aquelas
pernas tortas, era o famoso craque.
ALAN MENDONÇA é formado em Comunicação Social pela UFRGS.
Trabalha com cinema.
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