As venezianas são azuis

Carol Bensimon

O all-star vermelho de Sofia pisa no freio, eu dou um tranco pra frente. Assim acabam as cinco horas de vacas e outdoors vendendo tratores, de motoristas grosseiros dando cantadas, cinco horas de Sofia tensa com os peitos quase tocando a direção, um tempo que foi só silêncio. Eu olho para a casa e vejo se a mãe não está na janela. Ela pintou as venezianas de azul. O sonho era morar no interior da França. Venezianas azuis talvez ajudem.

Com os olhos abertos, beijo Sofia com pressa e desço. Logo eu vejo o Bob Esponja pendurado no vidro de trás, as perninhas balançando cada vez mais distante, até que Sofia dobra para a direita e me deixa solitária encarando o passado fazendo careta. Com o sumiço dela, posso ser fraca, deixar que as pernas amoleçam e sentir o gosto de sangue no lábio que eu mordi entre o quilômetro setenta e o setenta e quatro.

Nessas horas a cabeça não quer muito ser instigada e vai entrando num ritmo de robô pra fazer as coisas sem interrupção do bom-senso. E então de repente já estou enfiada na casa que viu sorriso e choro, embora a memória seletiva do triste só lembre desses últimos. Eu de cara com o sofá xadrez, focando um ponto onde o encosto encontra o assento. A mãe oferece café. Tudo tá claro na minha cabeça: não e não, porque esse café sempre foi muito bom, e no paladar é que vão me comendo pelas mordidinhas. Eu sento no sofá e ela puxa uma cadeira e se acomoda bem na minha frente, tão perto que eu posso ver que três anos fazem diferença nos dentes de uma fumante. Ela pergunta se eu gostei das venezianas novas, e eu digo que ficaram legais. Levanta e vai esquentar o café pra ela. Continua colocando umas calças apertadas, sabe que é bonita para a idade que tem. Não dá pra ver nem um fio de cabelo branco, tingido há anos pelo mesmo cara.

O armário dá um rangido ao abrir e, pelo barulho da louça, sei que ela pegou dois pires e duas xícaras. Todo o passado testemunhando ali o sorriso que eu dou, menos ela e menos o persa, que foi pro Rio comigo e fugiu pra nunca mais, como se soubesse que tinha que desaparecer pra eu começar vida toda nova. A mãe volta da cozinha equilibrando as duas xícaras e me alcança uma com a maior naturalidade, se fingindo realmente esquecida do meu não.

“Como é que tá o Rio?”

“Tá bom, mãe.”

O café continua daquele mesmo jeito. Ela sempre diz que o segredo é a temperatura da água, mas nunca ensina como fazer.

“E o apartamento novo?”

“Tô gostando. Bem perto da praia. Às vezes eu saio de noite pra caminhar.”

“E não é perigoso?”

“Vou sem bolsa.”

Ela diz que anda sendo uma boa senhora. Que plantou vários tipos de flores no jardim, eu não vi? Suja as mãos de terra e depois as coloca perto do nariz para sentir o cheiro. São as coisas boas da mãe, que quando aparecem trancam a garganta e por dentro escorre um gosto de decisão errada, que é na verdade um gosto de caminho não escolhido.

“A Regina perguntou se você tá namorando alguém do Rio. Se tá morando com o namorado.”

“E você disse o quê?”

“Que não tem namorado. Que mora sozinha”.

“Mãe, você sabe que eu não moro sozinha.”

“Mas a Regina não.”

Ela levanta brusca da cadeira, arranca a xícara vazia da minha mão e vai para a cozinha. Eu ouço a água correndo e a louça se encontrando até quase tirar pedaço. Quero sair pelo ralo também. Vou até a janela procurar pelo carro da Sofia. Lá fora, aquela paisagem em pausa. Sinto de volta a presença da mãe.

“Quem sabe se a gente conversasse direito”, eu digo.

Ela vai até a mesa e volta acendendo um cigarro. Ela pega a minha mão e começa a tocar os dedos e a mexer os anéis. Diz que antes eu usava dourado, e agora tudo é prata. E me manda embora dizendo que precisa de um bom banho.

E de novo a água corre porque ela quer esquecer, enquanto eu ando pela casa buscando o momento em que cresci mais que a caixinha das expectativas dela e desengoçada pulei pra outros caminhos. Talvez tenha sido essa marca discreta na parede do corredor, um coturno que deixou um traço negro quando ela disse, de algum jeito irritantemente sutil, que eu devia manter os pés no chão e estar consciente das minhas limitações. Pois veja, não mantive, chutei a parede, chutei os teus sonhos, ensaiei meu ódio quando você não estava em casa, e daí você chegava trazendo um livro, achando que assim podia me conquistar, me ter só pra você.

Os livros que você dava diziam que eu não podia ficar.

Cinco horas na estrada para descobrir que eu não ganho mais colo, que, no mundo das venezianas azuis, não há espaço para mim. Eu saio. O sol me acerta na cabeça e vai queimando enquanto eu vou em direção à praça. Ouço um carro que vem pela rua vazia. É Sofia e, quando ela grita meu nome e diz para eu entrar e pergunta se eu estou bem, de novo a vida parece do jeito que devia mesmo ser. E então eu levo Sofia comigo para a praça, comigo para a igreja, comigo para o meu passado, para a cidade que também é minha. Quero que ela tome conta, conquiste, percorra toda essa extensão da minha vida, coma o bolo de chocolate que eu comia, sente na grama pensando em morar no Rio e se levante coçando as pernas. Quero fazer marcas e depois esquecer, formar um rastro visível aos olhos de mãe, pra ferir e maltratar. Vou-me embora e deixarei a dor deitada e chorando numa cama de solteiro e lençol rendado, nessa cidade que me lembra, me esquece, me rejeita, com essa mãe que devia me amar incondicionalmente.