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Almanaque Fontoura
Em memória de Painho,
Tio Sinhô e Tote da Quixabeir
A casa tinha quatro janelas coloniais de almofadas, a pesada
porta principal talhada em cedro, à fachada pintada num tom de
verde-musgo com detalhes em ocre, imponente no meio da praça, era
a residência das Moças da Gerema, aquele pequeno bangalô
sertanejo em que qualquer viajante que chegasse intuiria que ali
morava gente de posses. Ficava na rua Argemiro Guimarães, próximo
ao Clube Euterpe Jacuipense, e dividindo parede-meia de um lado
com Roque Fiscal, exator do estado e do outro com José Aloir
Carneiro de Araújo, ex-alcaide da terra. De sua sala de estar se
avistava o cofre do dízimo, e os primeiros bancos para
genuflexão, da bela matriz que os jacuipenses ergueram em 1890,
para louvar Nossa Senhora da Conceição do Riachão, Mãe de Nosso
Salvador, Jesus Cristo.
Dentro da casa o cheiro de goiaba e de compotas exalava no ar, e
também um cheiro bom de feijão de corda com toucinho cozinhando
no imenso fogão de lenha chamava a atenção pelo barulho da
panela, o chilrear semelhante a um passarinho, quando a comida
tinha personalidade própria. A casa, quando o sujeito entrava,
parecia um mosteiro beneditino, o silêncio pontuado por um
cântico ao longe de um bem-te-vi dava a senha da paz. Aquela
bonança só encontrada nos conventos e nas bibliotecas. O piso em
toda ele era de lajota fabricada no sertão. Aquelas paredes altas
e o pé de direito parecendo querer chegar nas nuvens. Existiam
muitos quartos e em cada um deles uma irmã ali fazia seu ninho.
Um imenso corredor que levava à sala e nela uma cristaleira com
vidros bisotados com aparelhos de janta, travessas, terrinas,
pratos de louça inglesa e xicrinha de pele de ovo com motivos
orientais encantavam os olhos, a imensa mesa de jacarandá
torneada era arrodeada por seis cadeiras de espaldar, e sobre a
mesa um caminho de linho bordado em ponto de cruz com os dias da
semana.
Na casa das Moças de Gerema também havia o quarto dos Santos que
ficava ao lado da sala de estar, um grande oratório com um
crucifixo de marfim, um Deus menino no Monte e uma bela imagem
barroca de Nossa Senhora da Conceição que era adornada por três
anjinhos a seus pés embelezava aquele nicho. Pelas paredes,
vários registros de santo e entre eles se destacavam pelo tamanho
as imagens impressas de São Jorge, São Sebastião e São Jerônimo.
O cheiro do quarto dos santos era peculiar, parecia cheiro de
sacristia de velhas igrejas, pois o perfume do incenso de mirra
exalava no ar. Ao deparar-se com a imensa mesa de madeira da
sala, via-se o quintal repleto de pedras em forma de seixos que
servia de coradouro. Três grandes pés de araçá ensombreava aquela
paisagem. No portal dos fundos da casa, ficava o quart dos
arreios. Em forquilhas dependuradas nos caibros desciam quatro
selas de banda com estribos de prata. Eram selas de montaria
fabricadas na cidade por Agenor Seleiro, um dos mais competentes
artífices daquela profissão, na região do Vale do Jacuípe. Uma
dorna no canto da parede e um tanque de cimento completavam a
geografia daquele bucólico cenário.
Eram quatro irmãs imersas na solidão daquela imensa casa. Eulália
tomava conta das finanças da família. Administrava de longe a
fazenda Poço Preto, em Pé de Serra. Aos sábados acorria ao
Riachão o vaqueiro Aurélio Bode para receber o soldo da semana e
trazer as novidades: eram litros de leite bom de vaca agasalhado
dentro de um carote de alumínio; ovos de galinha da terra,
cambucá ou folha-larga se estivesse na época; umbu; algum teiú ou
mocó no moquém; e a notícia de alguma rês ou criação que tivesse
dado cria.
O velho Aurélio, de tez esturricada pelo sol, parecia um desses
índios mexicanos, de fala mansa e arrastada, tratava Eulália
de”Minha Senhorazinha”. Fora vaqueiro do pai, o velho Isidoro
Joaquim dos Santos, o coronel mais rico de que se ouviu falar
pelas terras do Pé de Serra, que vivera entonado num terno de
linho, dirigindo o jeep e um parabélum amarelo na cintura, era o
homem respeitado daquelas bandas. Tinha mais afilhados que
estrelas no céu. Em época de eleição escolhia o prefeito da joça.
Um chapeuzão panamá na cabeça e um lenço azul à mostra no bolso
do paletó, era a estampa daquelas bandas.
Sentada à mesa da sala com um par de óculos, de aro de ouro,
Eulália tinha à frente um masso de papel de embrulho pardo no
qual fazia anotações das finanças da família. E embaixo de cada
página, escrevia um verso de Santa Tereza D’Ávila, a santa de sua
devoção, ao término de cada operação aritmética.
Parecia que aquele paraíso não se desmoronaria com o açoite do
tempo a cada crepúsculo. Parecia incólume entre as décadas que
vinham trazendo a carestia, botando o povo mais pobre e as Moças
da Gerema continuando com o grande cabedal. Em sua casa
continuava tudo na ordem, sem nenhuma besuntaria.
Do outro lado da praça estava a rua Alexandre Carneiro de
Figueiredo, negociante de peles da cidade, da família tradicional
que fundara aquele ermo e dava nome àquela via pública. E ali
numa casa pintada de amarelo-ouro, a cor de Nossa Senhora das
Candeias, havia a venda das Moças da Gerema e quem tomava conta
era um sujeito alto, de dois metros e noventa centímetros que
atendia pelo nome de Né. Naquele pequeno armazém se vendia sabão
em barra, querosene, pavio de candeeiro, fósforo, carne de
sertão, formicida para matar rato, cachaça, açúcar e farinha. O
balcão ensebado de lodo era marcado por contas aritméticas que o
próprio Né fazia dos clientes. Da janela da casa das Moças da
Gerema elas avistavam o entra-e-sai dos fregueses no empório. Ao
cair da noite, Eulália se dirigia de vestido azul marinho para
recolher o vil metal e saber dos fiados. Né tocava o negócio como
um sacerdote, leal a seu senhor.
As madrugadas rompiam e os galos acordavam todos debaixo do seu
canto rouco. Numa dessas madrugadas quando um galo cantou fora de
hora, Maria dos Prazeres, a irmã mais velha, amanhecera aluada.
Quando não há amor e ele não encharca o solo do coração
ressequido de paixões, a pessoa enlouquece. Maria dos Prazeres
somente se apaixonara pela paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, e
na época da quaresma se vestia de luto para glorificar o sangue
do cordeiro derramado no cruzeiro do Gólgota. Vivera durante
sessenta anos na fazenda Poço Preto, ao lado do pai, e quando o
velho Isidoro Joaquim dos Santos se mandara para a morada
definitiva, Maria dos Prazeres Santos passou a viver ao lado das
outras três irmãs, na cidade, perto do progresso e da igreja.
Eulália, ao chamar todas com uma pequena sineta que ficava no
alto da cumeeira observou que o aposento de Maria permanecia de
portas fechadas. Todas se entreolharam. E daquela manhã viriam as
mais amargas quadras que elas já atravessaram nessa vida. Maria
dos Prazeres acordara em posição fetal, a gritar aos berros:
“Mamãe, mamãe venha me acudir!”. E as três irmãs em colegiado
tentavam descobrir se Maria estava sentindo alguma dor. E logo a
carretilha da fala desbandeirou até o cair da noite. Na cidade
não havia um médico e quem enlouquecia era tratada com mezinha,
orações e simpatias. E quando o mal se agravava, recorria à ajuda
do sacerdote da paróquia para que promovesse a sessão do
exorcismo.
Maria dos Prazeres temia a chegada de uma suçuarana em seus
domínios. O pavor do animal lhe revirava a cabeça. E de fato
desde criança que ela ouvira histórias marcadas pelo sangue dos
bezerros que amanheciam degolados pelo felino, de quartos
dianteiros de borregos que restavam esquecidos no oitão do curral
naquela sanha enfurecida do animal. A onça de olhar esfaiscante
no breu da noite esturrava perto de casa. O pai, o vaqueiro e os
agregados, na vigília de trabucos na mão, para derrubar o
terrível animal. Toda uma história de pavor foi, com o passar dos
anos, no vergar do corpo, transformando-se numa paranóia. Para
Maria dos Prazeres a suçuarana preta era a personificação do cão
na terra. A rosnar, a bufar, a dilacerar almas inocentes.
Um cavalo foi arreado e nele seguiu Elesbão do Amargoso, portador
da casa para os domínios da fazenda Poço Preto para que Aurélio
Bode viesse socorrer a filha mais velha de Isidoro que amanhecera
louca pela suçuarana preta. Na madrugada com a cor da noite
tomando conta do mundo, desapeou Aurélio, de jaleco, perneira,
luva, guarda-peito e chunço na mão para espantar o fantasma da
onça preta. Batera com a mão meio sorumbático no portão dos
fundos do quintal para guardar a montaria, saudou as três de
olhares pânicos dentro da casa, àquelas horas sem dormir, e se
encaminhou para o aposento de Maraí (assim ele a chamava) para
tirar o espírito da suçuarana do corpo virgem. Com aquele
sortilégio ele já estava acostumado a lidar. Foi assim com
Lindinalva de Zinho da Venda, foi assim com Celeste de Di do
Ouro. Todas acometidas do mesmo mal. A onça entrava porta adentro
dos espíritos das moças e não as deixava em paz com a própria
alma. Eram gritos semelhantes aos urros da onça, rugidos roucos
semelhantes ao felino, e as mãos em posição de garra semelhante a
uma pata. Quando ameaçava de dedo em riste riscar o rosto dos
conhecidos, todos tremiam das unhadas que ficavam marcadas por
todo o corpo. A suçuarana preta se entronizava de uma forma que
as moças andavam de quatro feito o animal. Na filha de Filhinho
dos Barreiros a onça se chegara numa noite de lua nova para o
dia. Num relance a pequena Dita virara uma verdadeira felina por
dentro da casa. Já não mais falava nada compreensível, o idioma
era de grunhidos e berros. De anca baixa a balançar como se
acoitasse a própria cauda imaginária de seu fantasma.
Todo mistério do cão se acaba sem oração. Bastou Aurélio adentrar
o aposento de Maria dos Prazeres de maracá balançando no punho,
de chumbo para o golpe, e chamar pelo sangue do cordeiro
derramado, para que o semblante da moça velha fosse voltando a um
estado de serenidade e os grunhidos desaparecessem. Nessa mesma
noite, para que o encanto não voltasse, Aurélio apeou seu cavalo
Viadim, na poeira de seu tropel, desapareceu no breu até os
caminhos da Cutilada até bater no Pé de Serra antes que o astro
rei levantasse no horizonte. Assim ia-se vivendo pela caatinga,
pelo Vale do Jacuípe, pelos aceiros de macambiras da serra do
Bugio.
Às três horas da tarde aparecia no bangalô das Geremas: Ioiô, o
tabelião de notas da pequena comarca, velho amigo da família que
para lá acorria trazendo as novidades do mundo. E na sala de
visita, todos os cincos se sentavam na velha mobília forrada de
cetim e boquiabertos escutavam o tabelião discorrer sobre a
chegada do homem à lua. Maria, a mais incrédula das três,
balançava a cabeça como que repreendendo a novidade. O bate papo
decorria, descia ladeira abaixo e quando estava preste a acabar,
Laia seguia para a cozinha e vinha com uma taça contendo
requeijão com doce-de-leite para o convidado. Aquela cerimônia se
instalava por uma vez por semana no casarão das Geremas.
Ioiô ao se sentar cruzava as pernas feito um francês, bem
humorado, voz grave, sempre de paletó engomado e sapatos bem
lustrados, trazia uma calvície qual era motivo de chacota. Vivia
dependurado no dinheiro a juro que tomava a Eulália para pagar
mediante promissória durante um ano. Era um bom pagador, gozava
da amizade de todas as Moças da Gerema. Pagava um juro alto, mas
na cidade, os únicos agiotas de plantão em que ele confiava e não
botavam seu nome na rua eram elas. Agência bancária não existia e
a mais próxima distava dezoito léguas num lombo de boa mula, era
em feira de Santa Ana. Nem só o tabelião recorria ao dinheiro
emprestado pelas moças, ali se via o chefe do IBGE, Florival
Ferreira Carvalho, com seu porte nórdico parecendo estar numa
parada militar.
Numa tarde quando os quintais das Geremas mermavam de romãs pelo
chão, podia se observar Judite, a mais nova, com cerca de
quarenta anos, nua, sentada debaixo dos pés de romãs do quintal,
a saborear e fazer dos cachimbos da planta motivos de
deslumbramento erótico. Ela trancava a porta que dava para os
fundos e dizia a todas da casa que iria fazer a colheita daquela
tarde e que não a perturbasse por motivo algum.
Um dia sem quê nem pra quê, sem Folinha de Coração de Jesus
indicando bom tempo para a colheita, Hercília, no meio da tarde
gritou de seu aposento:
- Socorro, socorro! minhas irmãs, venham cá.
Todas as três em correria se encaminharam para o aposento da
irmã, a botar ovos do tamanho do de uma perua. Logo as três em
risinhos desavergonhados observavam a irmã caçula a botar meia
dúzia de ovos, brilhantes e bonitos.
Aquele segredo foi selado naquela mesma tarde, pela irmã Eulália,
para que aquele episódio não fosse conhecido por ninguém na
cidade e nem mesmo o velho vigário, Dom Dário Di Ciesco, poderia
de inteirar daquela esdrúxula situação. Daquele dia em diante os
ovos de Hercília seriam chocados por uma verdadeira galinha para
verem o que dali sairia. Do Poço Preto uma galinha choca foi
requisitada para a empreitada. Chegou num dia de feira, aos
sábados, pela mão de Aurélio Bode, a vistosa galinha pedrês, que
de longe se ouvia o cacarejar. E naquele mesmo dia deitou-se o
galináceo com os ovos de Hercília. Todo o dia Eulália botava de
comer da pedrês após ir no aposento de Hercília buscar mais ovos
para deitar. Foi formando aquele mundo de ovos que nem mesmo uma
galinha daria conta do recado. E novamente do Poço Preto no outro
dia da feira chegou mais uma galinha, dessa vez uma galinha de
angola que tivera as asas cortadas para não poder voar. E com o
passar dos dias naquela casa a única que produzia de verdade
alguma coisa para a humanidade era Hercília com seus ovos.
Eulália, como sempre, a sentar na cadeira imponente de espaldar,
na cabeceira, diante de um calhamaço de papel pardo, a fazer
contas da fortuna.
Num certo dia, quando o silêncio dentro da casa estava
incomodativo, Maria dos Prazeres, deu a senha de que estava cega.
Nada enxergava em volta, nem mais um vulto. O breu do olhar tinha
tomado conta do mundo. Amanheceu nessa segunda-feira de novembro
tateando para levantar da própria cama. Os pés estavam como que
adormecidos de cãibras. A geografia do espaço em que se
encontrava ainda guardava na memória. Sabia que se levantasse em
linha reta acharia a porta para o corredor, se andasse para a
esquerda toparia em sua mesinha com seus pertences pessoais, e se
voltasse para a direita encontraria o baú com as suas roupas e
mais ao lado o guarda-vestido.
A impaciência tomou conta de Maria e a envolveu naquele
torvelinho incomodativo como se estivesse impregnada de algum
medicamento antidepressivo. Ficou a zanzar pelo imenso corredor
da porta da rua para o quintal, e quando as pernas já não
suportavam tanta caminhada, sentava na cadeira da sala e ali
cochilava por volta de três minutos, aquele cochilo incaico que
não lhe deixava a sossego. Maria dos Prazeres passou a ser um
fantasma dentro do monastério das Gerema, de saia longa e preta,
um corpete também preto, e no peito um rosário de contas de jade
tilintava em seu andar.
O que tanto a atormentava ela não revelava a ninguém. Só quando a
onça tomou conta de si é que teve forças para gritar. Ficava
Maria dos Prazeres com aqueles murmúrios interiores e a resmungar
sempre: “Te desconjuro” a cada quadra de meia banda de minuto.
Aquela cantilena miserável começou a impregnar a casa, a ponto de
as irmãs a trancarem dentro do seu próprio aposento.
Maria dos Prazeres passou a viver reclusa. A medida fora tomada
para protege-la, já que ela estava também sujeita a acidentar-se
dentro do casarão. Eram quedas constantes que deixavam seu corpo
coberto por marcas e arranhões como um flagelo de penitentes de
Remanso em plena quaresma do Salvador do mundo. A chegada da
cegueira não apaziguava a alma atormentada de remorsos. E por
dentro da casa se ouvia:
- Ó gente vem cá me acudir!
Torno-se com o tempo à anormalidade da angústia de Maria, algo de
corriqueiro dentro do casarão das Gerema. É que assim entediada
com o breu de seu mundo de trevas passou a ter estranhas visões
de casas alheias, então passou a ver o que se passava dentro do
universo fechado de cada lar jacuipense.
A primeira visão que lhe chegou foi o que se passava na casa de
Mário Santana, em que a esposa Jovita estava a fazer dentro da
casa em volta dos filhos. A devotada genitora lia pausadamente a
história bíblica de Jonas e a Baleia.
Maria dos Prazeres conseguia enxergar o bater dos lábios e o
olhar terno daquela mãe para com os filhos. O vestido longo de
anarruga azul, as sandálias macias de feltro e até os biscuits na
mesa de centro ela de seu estado conseguia enxergar. Aquele
bisbilhotamento do que se passava na casa alheia era um fenômeno
involuntário, algo que lhe transportava para in loco testemunhar
o cotidiano de cada lar. Porém, quando um dia voluntariamente ele
quis ver o que se passava na casa de Alexandre Bispo, cujo
patriarca atendia pelo nome de Alexandre Barbeiro, regente de um
terno de música na periferia da cidade, foi impedida de ali
curiar. Alexandre, era de origem mulçumana, negro haussá e vivia
próximo a seus deuses africanos. E nenhuma intrusa, por mais
clarividente que fosse, conseguia adentrar o seu território.
Maria dos Prazeres não percebeu que aquele dom da cegueira só a
fazia vislumbrar as casas dos brancos, no território do povo
negro jacuipense ela jamais conseguiria adentrar.
Numa tarde clara de sol a pino quando a Cordilheira do Espinhaço
do Cavalo reluzia azul no horizonte do piemonte da Chapada
Diamantina, surgia na estrada da cidade um bando colorido de
gajões, cujo barulho e risadinhas denunciavam suas presenças ao
longe. Eram três camionetas C-10 repletas de bugigangas e se
abancaram na praça Joaquim Camiro. Logo se viu barracas sendo
levantadas e um pequeno circo com arquibancadas toscas que
chamava, a atenção dos passantes pela altura do mastro que
segurava a estrutura da lona que cobria todo o circo. Por todo o
dia, o que se comentou pela cidade foi a chegada da comitiva dos
gajões. O chefe se chamava Lourenço Leite, tinha os dedos
repletos de anéis de ouro, o cabelo longo, os dentes também
cravejados de ouro, e se comunicavam entre si num dialeto que
ninguém entendia nada de nada. Ficavam os bestas boquiabertos
tentando entender aquele dialeto. E o grupo naquele gestual
nervoso, repleto de signos para aquela própria cultura, dominava
aquele pequeno território onde se achava instalava.
Logo a notícia do vagalhão de ciganos, que tinha tomado conta da
pequena cidade deixou Judite em alvoroço, louca para admirar os
olhos verdes daqueles homens fortes, com camisas de tecidos
espalhafatosos, de mangas abotoadas nos punhos e relógios de
pulseiras de prata à vista.
Na noite de estréia do circo, soube-se que não haveria
acrobacias, homens que engoliam fogo e nem haveria palhaços. Ali
de circo só tinha empanada. Logo na porta havia uma placa de
zinco em letras garrafais: “Gajão Apresenta – Por um Punhado de
Dólares”.
O pequeno arruado, ávido por uma novidade, acorreu em peso na
noite da estréia. Gente que nunca tinha visto uma película, se
abaixavam na cadeira quando assistiam a troca de tiros entre
mocinhos e bandidos.
Os ciganos foram tomando conta do pequeno arruado, indo de porta
e porta durante o dia vendendo tachos de cobre para as donas de
casa. Em cada visita os gajões iam se familiarizando com a índole
e a geografia do arcabouço da alma de cada jacuipense visitado.
Em uma dessas visitas, o cigano bateu na porta das Moças da
Gerema e se deparou com a mulher nova que os atendeu despida e
cega. Naquele dia todos que ali moravam amanheceram tomadas pela
cegueira. E dali passaram aquelas mulheres a viver tateando as
paredes do grande casarão. Não haveria mais madrugadas e nem
crepúsculos, a cegueira tinha tomado conta do velho casarão.
MIGUEL CARNEIRO nasceu em Riachão do Jacuípe em 14 de Junho
de 1957. Poeta, ficcionista e dramaturgo. Na internet duas de
suas obras estão no site: www. secrel.com.br/jpoesia; www.
Ocaixote.com.br; www.edicoes.com.br. Inserido com verbete na
página 438 volume I da Enciclopédia de Literatura Brasileira de
Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, Editora Global, São
Paulo, 2001. Publicou: – Poèmes. tradução de Pedro Vianna, Paris:
1977. – Pelas lupas do Jaguaracambé e outros poemas. Salvador:
Empresa Gráfica da Bahia, 1986. – No país dos kiriris. Salvador:
Editora do Brasil na Bahia, 1995. – Os cânticos. Salvador:
Gráfica da Assembléia Legislativa da Bahia, 1996. – Esconso e
outras histórias. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia,
Coleção Selo da Bahia, 1996. – O diabo em desordem. Salvador:
Secretaria da Cultura e Turismo, Coleção Apoio, 2001. – Boca do
tempo. Salvador: Editora Maracujá de Vez, 2002. – A chegada da
comitiva de FHC ao inferno. Cordel. 2003. - A visita de Lula a
Satanás. Cordel. 2004. - A visita do Capitão Virgulino ao
Presidente Lula. Cordel. 2004.– A peleja da mulher cacaueira
contra o pão que o diabo amassou. REVISTA do CEAS, Cordel. 2003.
Sete Cantares de Amigos, Edições Arpoador, Salvador, 2003.
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