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A Azenha da Saudade Um trabalhador rural, vergado ao peso do sol por entre alguns destroços das cheias recentes, "tentava salvar as vinhas para beber", como me disse com tristeza a que não faltava uma réstia de esperança. Outro objectivo não podia almejar depois duma enxurrada como a que havia assolado a região e pintara de laivos terrosos o sazonal vigor da criação. Eram despojos dos últimos temporais, responsáveis por quase uma dezena de mortos e por prejuízos incalculáveis nos mais diversos sectores da economia. Deixei-lhe algumas palavras de consolação e segui pelo caminho estreito e saibroso que sabia levar-me ao destino previsto. Tratava-se dum moinho de água, tão vulgar nos arredores saloios de Lisboa e em tantos pontos do país onde a energia hidráulica ainda era a principal fonte de trabalho e subsistência nos tempos que antecederam a modernização dos dias de hoje. - "Esta azenha já vem do tempo do meu bisavô" - começa a dizer o moleiro com ânsias de a perpetuar para sempre. - " Sempre achei que a minha obrigação era continuar com ela, não está certo deixar estragar o que os nossos fizeram à custa de tanto esforço e sacrifício..." Desabafa como se estivesse a falar sozinho, oitenta vezes quatro estações bem lhe granjeavam o direito ao monólogo sem interrupções. De estatura média e costas arqueadas, rosto magro e matizado de rugas, como num quadro a óleo maltratado pelo tempo, malares salientes, olhos negros e vivaces, o Manel da Zenha crispava a boca algo desdentada, num gesto resignado e desdenhoso, alisando com a mão nodosa a neve rala do cabelo. Iniciei esta experiência por atracção dos contrários. Nada como uma perspectiva material e ergonómica para atalhar divagações especulativas. Pés bem assentes no chão, problemas concretos com soluções adequadas e objectivas. O que na verdade me interessa é aprofundar as tecnologias tradicionais enquanto resposta cultural. Pensará o Manel da Zenha que alguma vez o tempo volta para trás? - "Se ao menos houvesse ali um ponteco... Quantas vezes o meu avô e o meu pai - que Deus os tenha em descanso - o tentaram construir! Mas nunca conseguiram e eu também não fui capaz..." Só poldras, semeadas de forma irregular através do vau, permitiam ligação à outra margem, dificultando um acesso que, se fosse mais fácil, decerto se reflectiria nos lucros do fim do mês. E mais: permitiria a passagem rápida e discreta, tornando mais sigilosas algumas das aventuras que, não raro, ali se terão vivido. O conjunto arquitectónico era constituído por duas casas justapostas e perpendiculares, de maior extensão a mais afastada da margem e muito mais antiga a que se debruça sobre o rio, a azenha propriamente dita. Terá mais de trezentos anos e uma das provas da sua anterioridade foi o facto de, nos alicerces da casa anexa, terem sido encontrados bocados de mó, aquando de obras relativamente recentes. - "E depois foram estas enxurradas, que tal é que se amanhou com elas?" - "Cá acima é que ela não chegou, essa água daninha!" - Suspirou, como quem sentia a segurança dum refúgio seguro, ao mesmo tempo que olhava a paisagem circundante com ar dominador. - " Da outra vez é que foi muito diferente, com as de '67! Isto ficou tudo parado e destruído. O açude rebentou, a roda de água, onde tinha os cubos, ficou toda partida, um lamaçal por todo o lado..." - "Ó Sr. Manel, adonde está o sarrote grande?" - Era a D. Eulália, sua mulher, que se aproxima de nós e logo se afasta com a ferramenta que procurava. - E com esse amor todo pela azenha nunca pensou em reconstruí-la? - Perguntei, em jeito de provocação. A D. Eulália aproximava-se de novo e ouviu a pergunta. Alguns anos mais jovem que o marido, embora envelhecida pelas canseiras das lides domésticas, traje escuro e lenço negro na cabeça, apressou?se a responder: - " Sabe lá as voltas que demos... O Estado deu dinheiro a alguns, um deles até foi fazer uma moagem lá perto da Vila. O pior era o açude... Nem luz eléctrica conseguimos, que isto também podia trabalhar a electricidade. E ficámos sem trabalho, o meu homem foi para a construção civil e eu fui trabalhar a dias..." - " Mas se o Estado estava a dar dinheiro..." Nem me deixou continuar: - " Sabe, há pessoas mais metediças e quem não tem padrinho morre moiro!" - E afastou-se, com um tique de superioridade, como se com aquela frase lapidar tivesse terminado um grande discurso. Terá de ser sempre assim? Até quando continuarão o compadrio e o nepotismo? O que eu não tenho é nada a ver com o assunto, que aliás já pertence ao passado, e não vim aqui para me deixar envolver emocionalmente. - "Quando isto trabalhava" - prossegue o Manel - eram os moleiros que iam buscar o grão e entregar a farinha. O transporte era com gado cavalar, burros e machos, com os talegues em cima. Cada animal carregava aí uns 200 quilos. Fazia-se a viagem duas vezes por dia, quase sempre com quatro animais. O pagamento era aí de um a dois quilos por saco. Pesava?se o grão e tirava-se o nosso restante."- O moleiro fixa um ponto longínquo, no horizonte, está a reviver momentos saudosos da juventude. - "Quando comecei esta faina tinha sete anos. Era tão pequeno que os fregueses é que tinham de pôr e tirar os sacos dos animais..." - "E como é que isto funcionava, Sr. Manel?" - "A água vinha pela levada e fazia andar a roda de água, onde tinha os cubos, metade dela ficava debaixo d'água. Quanto maior for a roda, se tiver espaço para ela, mais velocidade ganha, mais balanço, menos água é precisa para ela trabalhar. Sendo pequena já precisa muita água para lhe dar balanço. E a nossa era das grandes, mas tive de a tirar que já estava toda podre. No eixo, mas já dentro do inferno, havia a outra roda, a entrosga, onde estava a engrenagem com trinta e dois dentes, que ligava ao carreto pequeno, só com seis fuseis. O veio do carreto é o veio das mós. Cá em cima havia uma caixa, o teigão, onde se colocava o grão que caía para o olho da mó através duma quelha. - "Os piais eram de madeira de carvalho," - prossegue - "havia ainda os cambeiros para amparar a farinha e duas tábuas, que eram as guardas para não a deixar espalhar à volta. Em frente, um pano - o panal - em linho ou algodão. Com o rodo puxava-se a farinha. - "Havia ali dois casais de mós. As do trigo eram de pedra de Pero Pinheiro e as do milho de 'granizo'. Ainda ali está o aparelho de aviar o trigo, o aviador." Continua a explicação, longa e exaustiva. Uma lição completa por um catedrático da vida. Já nem me parece que o cenário é de desolação. Ouço o murmúrio da água corrente e é fácil imaginar tudo em movimento, os ruídos peculiares e o odor da farinha acabada de moer. A ideia sistémica sobrepõe-se a qualquer outra. A convergência de funções, a sua complementaridade, a inteligência por detrás desta concepção global são por demais evidentes. Tudo bate certo neste microcosmos artesanal. A energia e o tempo perfeitamente geridos, afinando aqui, retocando acolá, uma perfeita orquestra regida apenas por um maestro. - "Um dia, andava eu pelos catorze anos, enamorei-me duma cachopa que era um mimo de rapariga. E ela também estava caída por mim. Por essa altura, juntava-me com os rapazes da minha geração. Quantas vezes regressava dos "bailaritos" e já caminhava atrás de mim o pessoal que vinha trabalhar... Eu gostava era andar na "galderice", enquanto houvesse acordeon e uma rapariga não queria sair, tinha de ser eu a fechar o baile... - "Foi numa dessa festas que travámos conhecimento, aquilo foi um estalar de dedos e já está! E então o que nos havia de passar pela cabeça? Como conhecia os costumes da casa, resolvemos ir namorar para o inferno da azenha... O meu pai havia de demorar pelo menos umas duas horas a tratar das vinhas e a oportunidade era mesmo a calhar. E foi o que fizemos. - "Diz-se que não há amor como o primeiro e acho que é mesmo verdade! Nem sei contar bem o que senti nesse dia, mas foi melhor que os sonhos que costumava ter. Eu sei lá, beijos, abraços, estávamos meio malucos e foi ela que me pediu... tudo. Que maravilha das maravilhas, que coisa mais linda... Mas de repente começou a chover, ao princípio nem demos por isso. O pai deixou o trabalho do campo e não tardou que sentíssemos passos por cima das nossas cabeças. Apagámos o candeeiro e ficámos quietos que nem ratos. - "'Ó Zé, toca pra cá a mó.' - Era a voz do meu pai, acompanhado dum amigo que tinha um moinho de vento, estava-se mesmo a ver que iam aproveitar para picar as mós, era um trabalho que tinha que ser feito muitas vezes e demorava o seu tempo. Eles lá iam conversando enquanto trabalhavam e a dada altura até cantarolavam:
'Moinho é coisa volante, - "Parecia uma desgarrada, pois o meu pai lá respondeu:
'Não há quem queira dar - "E a gente continuava lá em baixo, cheios de medo e bem agarrados um ao outro. Depois do primeiro susto, achámos que ia tudo acabar em bem. Haviam de ir tomar um copo à taberna quando acabassem a picagem e seria a altura prà gente cavar. E continuámos com os nossos amores, ao som das conversas e de mais uma ou outra cantiga... - "Por fim lá saíram e a gente aproveitou para se esgueirar com todos os cuidados..." - "Ó Sr. Manel, e a cachopa, como é que se chamava, era Eulália? - "Não, aquele diabrete só tinha menos um ano que eu... Dela... tivemos que fazer desvios, desta... nunca tive filhos!" Depois de ter passado por momentos de euforia que lhe suscitavam aquelas recordações, olha à sua volta com tristeza renovada, decerto pensando que nem vai haver quem olhe pelas ruínas... Chama então a minha atenção para um utensílio que já me mostrara antes, o cadêlo. Ultrapassou a nostalgia e parece mais bem disposto. - "Um dia veio aqui um freguês e perguntou para que é que servia o cadêlo. 'Para que serve? Então não vê que se não tiver cadêlo não corre trigo pra dentro da mó?' Ao homem a quem expliquei, meteu-se?lhe aquilo na cabeça. Matou um porco e quando tornou a vir à azenha trazia?me um presunto e diz: 'Ora aqui está um cadêlo pra você pôr em cima da mó pra correr mais trigo quando houver muita água.' E era um presunto que o gajo me trazia..." O Sr. Manel da Zenha continua bem "entrosgado" no fio das suas histórias. Afinal, parece que a azenha não passa dum pretexto para me imiscuir na vida duma família, ou duma comunidade, sem a vibração das quais seria extremamente árido fazer um trabalho de base antropológica... Aqui reside o grande dom da coisa cultural, não existem fenómenos isolados, tudo são elementos dum sistema, pedaços ou fragmentos compreensíveis ou interpretáveis apenas no seu conjunto. - "Quer ver como era o nosso despertador?" - O velho moleiro continua com a corda toda - "Enchia o teigão e ia dormir. Pra fazer dois moios em 24 horas era preciso acelerar. Em média fazia dez sacos em 24 horas. Então atava uma série de objectos metálicos à ponta dum cordel e eles caíam em cima da mó quando a outra ponta, presa por uma espera no fundo do teigão, era solta por falta de peso do cereal. O barulho que fazia era o dum verdadeiro despertador... - "Mas vamos lá então ver o açude. Esta azenha, em toda a região, era a que tinha o açude a maior distância." Deslocamo-nos para cerca de duzentos metros a montante. Vamos conversando pelo caminho e o Sr. Manel sente-se feliz por ser o herói da festa, papel que muito lhe apraz como saudoso apaixonado da sua azenha. Ouve-se murmurar a água que corre e nos obriga a falar mais alto, mas sente-se a presença incómoda do engenho parado, mutilado na sua juventude por uma cheia que veio mudar os destinos de tantas famílias. E ali estão as ruínas do açude - era norma serem construídos pelos proprietários das azenhas - e sinais do começo da vala e do sistema de comportas. Além da destruição implacável pela força das águas, a vala está completamente assoreada e toda a área é um repositório de detritos e sedimentos, até à altura que seria a normal da água corrente. Quanto às comportas, eram quadrangulares, de cerca de um metro de lado, de madeira de pinho - tábua de solho tosco - e tinham um postigo até cerca de dez centímetros desviado do fundo. Jogavam numa calha de pedra que ainda é visível. Encetámos o regresso à azenha. A D. Eulália tinha-nos preparado um petisco com queijo, chouriço, pão e vinho, mas fora discreta e já se retirara. Merendámos, continuando sempre a conversar. O Manel está mais corado, a sua adrenalina produz-se em maior quantidade, transformou-se num autêntico contador de memórias, encarna a sua própria personagem com orgulho e ostentação. Sim, que uma vida aventurosa e diversificada como a sua não estaria ao alcance de toda a gente. E no entanto, em certos momentos, parece que se lhe faz silêncio na alma e se encontra longe, muito longe, a divagar para si próprio como se eu ali não estivesse. - "Ó Sr. Manel, quando é que este negócio começou a correr mal?" Teve um pequeno sobressalto, como quem despertou para a realidade, e começa a explicar: - "O que matou mais esta arte de 'mulero', e eu já tenho uns anecos, como disse ao senhor, já conheci esta arte umas poucas de vezes má e boa. Nos princípios da minha vida, que eu fui nascido nisto, nesta coisa de engenhos, esteve muito ruim. Mas o que matou isto tudo foi o Estado: pôs a venda livre na moagem, na alta moagem, agora o freguês já nem vem às azenhas, mesmo às que trabalham. Isso foi agora há um ano para cá. As farinhas são melhores que as nossas, têm outra limpeza, não é mós, é feita em cilindros, é sempre melhor que a nossa e torna-se ainda mais barata." Estas últimas palavras são quase murmuradas, em busca de cumplicidade, e a sua entoação é bem reveladora duma tristeza profunda, duma irreversível falta de esperança no ressurgir da sua arte. Aqui está um artista preso de alma e coração ao objecto da sua arte. E eu, que comecei por querer fazer uma abordagem pragmática e crítica, começo a sentir por dentro o fascínio que durante centenas de anos prendeu homens e mulheres ao labor do pão, ultrapassando o rigor dos invernos e a concorrência do progresso. Quase perco a noção do tempo, viajo pelo passado, estou particularmente preso ao feitiço do casamento feliz entre a entrosga e o carreto, cérebro e alma de todo o engenho. Depois de me despedir, quando já percorria o caminho de regresso, sou subitamente abordado pela D. Eulália, preocupação estampada no rosto: - "Volte cá mais vezes, sim? A conversa só faz bem ao meu Manel, quando estamos sós nunca diz nada, passa o tempo todo a pensar, ou a sonhar, nem sei. Come mal e durante a noite acorda a transpirar, sempre cheio de pesadelos. E olhe que falar consigo é uma sorte, ele não quer estar com ninguém, nem mesmo da família..." - "Esteja descansada, eu vou aparecendo... Já pensou em levá-lo ao médico? - "Já pensei, já, mas quem é que o convence? Só sabe dizer que não está doente, que quando morrer é de saudades e tristeza..." Pois é. O Sr. Manel está com um sindroma depressivo. Perdeu a confiança em si próprio, não crê na utilidade do que fez durante a sua longa vida, não acredita que possam vir dias melhores. Ao crescimento do meu entusiasmo por estas coisas, contrapôe-se a sua frustração, só mitigada quando sonha com o passado distante, produtivo e feliz, por mais cansativo que fosse. Depois das minhas visitas iniciáticas ao Sr. Manel da Azenha, meu principal professor desta disciplina, deambulei por muitos outros engenhos, na região e fora dela. Em alguns - poucos - encontrei vida, uma poalha esbranquiçada sobre quase tudo, as entrosgas e os carretos pintados com os sinais brancos da fertilidade, o cheiro da farinha acabada de moer, um sorriso optimista e gratificante no rosto dos moleiros, uma loquacidade tranquila de quem fala do que está a produzir e sabe que no dia seguinte não lhe vai faltar trabalho. Noutros - a maioria - apenas ruínas mais ou menos desprezadas, com ervas daninhas a crescer desordenadamente no seu interior, à mistura com restos ferrugentos de utensílios outrora funcionais. E quanto aos moleiros, cada vez em menor número, alguns tinham-se convertido a outras profissões. Ainda tinham idade para isso. Os restantes, ou repousavam saudosos à entrada das suas casas ou, os mais cansados, com uma cruz erguida junto à cabeça. Será que a "Terceira Vaga" reserva algum lugar para estes abencerragens do passado que são as azenhas e os moinhos de vento? Não serão cada vez mais símbolos da arqueologia industrial que interessa preservar como monumentos culturais? Mas será de conservar, ou até restaurar, artefactos que deixaram de ter utilidade em termos de custo-benefício apenas porque são bucólicos e têm as raízes profundamente mergulhadas na história e na tradição? Terei alguma coisa a ver com isto? Não existem poderes próprios e departamentos específicos para tratar destas matérias? Para quem nunca se quis envolver emocionalmente, a verdade é que guardo as azenhas num escaninho muito especial da alma, particularmente as que não passam de manchas degradadas na paisagem romântica dos nossos rios e ribeiras, a que emprestavam a vida do seu bulício e o sabor do seu pão. Alguns meses se escoaram sem que tivesse voltado à Azenha da Saudade, como resolvera baptizar os domínios do Manel da Zenha. Ao aproximar-me, depois de vadear os 20 metros de rio por cima das poldras, senti que algo de anormal se tinha passado. Do cão de guarda, que costumava estar à entrada do quintal, nem vestígios. Quem veio à porta foi a D. Eulália, mais envelhecida do que antes, olhos entumescidos, vestes ainda mais negras do que habitualmente, a desgraça estampada no rosto. Não lhe perguntei nada. Olhou para mim com um olhar vago e só depois dum silêncio longo é que começou a falar: - "Foi o meu Manel..." - "Está doente? - Fez que não com a cabeça - "Morreu?" - "Não, não morreu, matou-se! Enforcou-se na trave da azenha..." - "Mas então porquê? Deixou alguma coisa escrita?" - "Como é que podia deixar alguma coisa escrita se o pai nunca o deixou aprender a ler para o ajudar no trabalho?! E também não era preciso explicar nada... Ele não dizia que ia morrer de tristeza e de saudade? Pois olhe, como nunca mais acontecia, teve de dar uma ajuda ao destino..." As minhas palavras seguintes devem ter sido perfeitamente patéticas e nem consigo reproduzi-las aqui. Mas lembro-me de ter dito, como se fossem condolências: - " O Sr. Manel da Zenha não se matou! Morreu de amor pela sua azenha! Não há tanta gente que ainda hoje morre de amores?" A D. Eulália não respondeu. Dirigiu-se para a porta da azenha, retirou dum prego uma ferradura enferrujada, estendeu-a para mim e entregou-ma sem nada dizer. Fiquei a olhar para ela. Só algum tempo depois de ter passado um lenço branco pelos olhos, limpando lágrimas furtivas, é que foi capaz de quebrar o silêncio, com a voz embargada pela comoção: - Ele com certeza queria que o senhor ficasse com isto como recordação. Gostava muito de si. Era a ferradura da sorte, veja lá a sorte que lhe deu!..." Passaram-se anos. Estou sentado à mesa do meu escritório a tentar terminar esta história o mais desapaixonadamente possível. O que não é nada fácil. Ali, mesmo à minha frente, está a ferradura da sorte da Azenha da Saudade. (in "Sombra em Clave de Sol", Contos, esgotado, Universitária Editora, Lisboa, 1999) JOAQUIM EVÓNIO Rodrigues de Vasconcelos, nasceu na Freguesia de Santa Maria Maior, Funchal, Madeira, a 3 de Setembro de 1938. Licenciado em Ciências Sociais e Política Ultramarina pela UT de Lisboa. Publicou "SOMBRA EM CLAVE DE SOL" , Universitária Editora Lda., Lisboa, 1999.
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