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Uma
mulher à beira do caminho
Os vidros fechados quase impedem-no
de ouvir o chiado das rodas deslizando sobre o asfalto molhado, o
repenicar dos pingos da chuva fina (mas persistente) no vidro
dianteiro. Entrevê apenas, através dos vidros respingados, tiras
de vegetação rasteira, úmida, devorada quase toda pelas mansões
do Park Way / e o empreendimento imobiliário se amplia,
estendendo-se, cada vez mais, em direção a Valparaíso, a
Luziânia, ao sítio que mantém pros lados de Cristalina, num
entremeado de condomínios, cidades, cidadelas, assentamentos //
desordem de casas casebres casarões, motéis postos de gasolina
prédios ruínas /// súbito, uns resquícios de cerrado resistindo
heroicamente aos avanços do homem e suas máquinas.
Que ninguém se iluda: não se trata de um ecologista — o ser ao
volante apenas constata friamente esses rasgos no corpo do
cerrado, sem que isso possa, no entanto, desviar-lhe a atenção,
acelerar-lhe os batimentos cardíacos, inundar-lhe a alma de
angústia e revolta. Com o mesmo olhar com que analisa um
processo, registra agora essas alterações lentas e progressivas
na paisagem. Tudo isso seria mesmo inevitável, sentencia: o
crescimento populacional, a ausência de uma política habitacional
séria, a esperteza de alguns vigaristas desaguando no mar da
desordem, no loteamento desenfreado de cada palmo de terra nos
arredores da Capital...
Mas que fastio pensar em tudo isso! Que perda de tempo se
desgastar tentando encontrar solução para esse caos. No futuro,
vaticina, tudo isso aqui será uma megalópole, de Planaltina a
Luziânia, um mundo só. Talvez cheguem até o seu sítio, na ânsia
de se juntarem também a Cristalina. Depois, premidos pela
necessidade ou pela ganância, perguntar-se-ão com ar de
desbravadores, — e por que não emendar com Paracatu?
Ah, como é difícil esvaziar a mente! A todo instante, assalta-o a
imagem do tribunal, arrastando-o para o julgamento, para a
reflexão. E ele aproveita essa ida ao sítio exatamente para se
desvincular desse universo de leis e sentenças. Do conceito de
certo e errado. Sentir-se livre, quase outro, é tudo o que
almeja.
A chuva persiste. Persiste, também, a prudência, a falta de
pressa de chegar ao sítio. Não fosse isso, nem teria notado a
figura esguia de uma mulher pedindo carona, perto da entrada do
Catetinho, protegida apenas por um pedaço de plástico. Devia
estar com metade do corpo encharcada. Devia estar congelada sob
aquelas roupas mínimas. Devia estar ali há horas tentando comover
os carros.
Sempre se orgulhou de ser um homem prudente, incapaz de agir por
impulso, daí quase não se reconhecer na súbita decisão de frear o
carro e dar carona à mulher.
Contrai a barriga murcha, dando passagem à mão desvairada que
busca, com a ponta dos dedos, tocar-lhes os pêlos pubianos,
ralos, ásperos. Mas que sensação primordial essa de adivinhar
pelo tato o vão úmido entre as coxas! E a mão vai deslizando com
muito custo até tocar uma carne magra, grudada aos ossos, tão
grudada aos ossos que parece não haver ali cavidade alguma. A
mulher, incomodada com a pressão dos dedos, retira a mão que a
escava abaixo do ventre em busca de reentrâncias, — você está
dirigindo, recrimina-o com uma voz inexpressiva, exausta, — não
tem problema, ele retruca, consigo fazer as duas coisas ao mesmo
tempo, e tenta desabotoar-lhe a calça, procura avidamente por um
zíper, mas a mulher retira-lhe novamente a mão trêmula, — tô é
com fome, moço, andei a noite toda. Só então ele se dá ao
trabalho de observar atentamente a figura ao seu lado, muito
diversa agora daquela que ele vislumbrou ao lado da pista sob a
chuva rala (que persiste), uma ninfeta, pensou de chofre, a calça
de cós baixo e o bustiê deixando à mostra uma barriguinha com
piercing e tudo. Nota, no entanto, sua barriga magra, sem
piercing, o rosto seco e a boca meio puxada para um lado, o olhar
embaçado, denunciando uns resquícios de álcool ou droga, — o que
você fez durante a noite pra ter andado tanto assim? A mulher se
tranca numa frágil redoma de cansaço e tristeza, deixando escapar
apenas um leve sorriso de deboche e mistério. Mas aos poucos, com
enfado, vai revelando fragmentos da sua vida: mora no Jardim
Ingá, com a mãe e o filho de dois anos, — como você se chama?
Hesita, como se revelar o nome fosse se desnudar ou se desarmar
de vez, — Nara. Talvez nem seja o nome verdadeiro, mas, de
qualquer forma, é um belo nome, — o que faz na vida? — nada.
Mente, deduz, deve fazer programa, sabe-se lá como, em que
condições, com que espécie de gente. Agora, já se desvencilhando
do desejo cego do início, ele, um quase-ministro do STF, um homem
de notável saber jurídico e reputação ilibada, começa a sentir
nojo ao imaginar que ela nem se lavou ainda, — transou muito?,
indaga-lhe, e ela continua a olhar para fora, deixando-se evadir
para o interior da paisagem molhada, melancólica. Parece que
falar rouba-lhe energia, esfacela sua pobre existência. Enfado e
gelo. Seu corpo, então, se deixa violentar, permite que as mãos
brancas e trêmulas rompam seus limites. Os dedos, grossos e
lisos, tentam alcançar, por dentro do bustiê, seu peito murcho, —
me paga um lanche?, pede, impondo à voz um tom de sedução. A
melodia dessa voz, ainda que mutilada pelo cansaço e pela fome,
arrasta a presa para os seus labirintos. Ávido, o homem procura
envolver, na concha da mão, os seios flácidos, mínimos. A mulher,
embora esteja fraca, sem couraça, amplia os seus recursos:
acaricia-lhe o rosto, despentea-lhe os cabelos brancos e ralos. A
razão, porém, começa a se impor novamente, restabelecendo a
conexão entre os neurônios, plugando-se ao que ele considera sua
fonte de sabedoria: os preceitos da justiça. Então vai parar numa
lanchonete qualquer e correr o risco de deparar com um advogado
conhecido? Mas meritíssimo, o senhor aqui, nesse fim de mundo?!,
e no outro dia toda a magistratura estaria sabendo, todos os
acólitos, toda a plebe, mas que alegria dos adversários, que
farra pelos corredores dos tribunais (suspendam os julgamentos,
suprimam os artigos, ignorem os acórdãos, os mandados de busca e
apreensão, neguem habeas-corpus, todos os recursos, arquivem os
processos), ih, o riso avassalador dos técnicos e analistas
judiciários, o palavrório dos advogados nos debates públicos,
transmitidos ao vivo pela TV, o promotor, ah, aquele
promotorzinho que o odeia, um iniciante ávido para se expor na
mídia, ah, canalha (homo homini lupus ), aqui tens o meu ser
abatido, aviltado, destroce ainda mais a minha alma, arraste o
meu nome para o lamaçal! — Quer que eu faça um boquete?, — o
quê?!, ele deixa escapar num susto, — um boquete, e com certo ar
de deboche, — não sabe o que é isso? Começa a se sentir ridículo:
que faz ali, escavacando aquela mulher sem eira nem beira? Ainda
que estejam só os dois no interior do carro, sob o cerco da chuva
rala, não pode furtar-se à pressão de uma consciência que não o
abandonará jamais. Pode parar o carro e pedir que ela desça.
Exigir que ela desça, se for preciso. Mas por que não o faz? Por
que não lhe dar um pé na bunda ali mesmo, logo depois de
Valparaíso? Como se estivesse adivinhando-lhe os pensamentos, a
mulher desliza a mão sobre sua braguilha, despertando o que já
estava quase adormecido. O incêndio, que parecia controlado,
volta a se alastrar. Ainda não está livre do desejo insano, por
isso lhe indaga com voz abafada, vacilante, — e você tem
camisinha? — não, ela responde lacônica, e, depois de um breve
silêncio, pergunta, — será que posto de gasolina vende? Ah, então
ele vai parar agora num posto de gasolina para comprar camisinha
e correr o risco de ser surpreendido por um dos colegas de
tribunal (nos limites já do estado de Goiás!), logo aquele que
anda de olho numa das vagas do STF, — mas meu caríssimo, que
fazes aqui a esta hora? e quem é aquela no carro? a tua filha?
mas ela não se encontrava nos Estados Unidos? e continuaria a
falar assim, uma interrogação após a outra, quase um inquérito
inteiro, tentando minar o seu futuro, canalha!, e no outro dia
toda a magistratura estaria sabendo, as manchetes dos jornais,
sensacionalistas, arrastando a sua imagem de homem público,
íntegro, ( e repete para si mesmo, de notável saber jurídico e
reputação ilibada) para o lixo, ele, o mais cotado para assumir
uma das vagas no STF, dono de um trabalho intelectual expressivo,
voltado para o engrandecimento da justiça, para o bem do Estado,
ad majorem Dei gloriam, e de repente o escândalo, o linchamento
em praça pública, que chance lhe dariam de se defender? de
justificar seu ato absurdo? os princípios da lei seriam
suficientes para julgá-lo? — dura lex sed lex, parece ouvir a
própria voz sentenciando, e Pôncio Pilatos oferece enfim a sua
pessoa à sanha da multidão ignara, e sua filha vindo de Nova
York, acompanhada do noivo ianque, de cara rosada e gorda (um
típico filho do Tio Sam), só para indagar-lhe atônita, — mas,
pai, que loucura foi essa?! & as socialites, com as quais sua
esposa sempre toma chá, joga gamão, promove eventos beneficentes,
todas todas negando ( uma, duas, três vezes até) fazerem parte do
círculo de amizade da sua família, e imagine ser surpreendido em
plena felação, como aquele ator norte-americano ( ou inglês, não
se recorda bem), acusado de atentado ao pudor ao ser pego fazendo
sexo oral com uma prostituta (como é mesmo o nome dela? só se
lembra de que era negra), um escândalo em escala mundial, a noiva
dele, coitada, tão bonita e sofrendo tanto!, a esposa dele
esvaindo-se em lágrimas, a filha vindo dos Estados Unidos (o
noivo de cara gorda e rosada a tiracolo, sem entender bulhufas do
que está acontecendo, — what’s going up? ) só para lhe jogar na
cara, — mas pai, o senhor não pensou no mal que faria à sua
família?, e a farra então nos corredores do tribunal, os jornais
escancarando seu nome, com foto e tudo, jogando anos e anos de um
laborioso trabalho intelectual no lixo, no esgoto.
Raiva e nojo. Todos os sentidos parecem funcionar agora. Há um
cheiro forte, denso, quase irrespirável no interior do carro. Vê,
nitidamente, os pés sujos, encardidos, de quem vagou a noite
inteira em busca de nada, deixando marcas incriminadoras. Corpo
seco, vazio. Olhar arrasado, sem sol. Quando chegar ao sítio, vai
lavar as mãos infinitas vezes, na ânsia de se livrar da presença
desse ser na sua pele. Vontade de pedir que a mulher desça, mas,
dominado ainda por sentimentos e sensações contraditórios,
vacila: sente pena (a chuva ainda persiste), sente raiva (nunca
fez nada parecido assim na vida), sente medo (deseja tanto que
nada dê errado agora, que é bem capaz de acontecer um acidente
por puro escárnio do destino: o carro derrapar, sair da pista,
bater numa árvore, e, no outro dia, os jornais estamparem:
ACIDENTE DE CARRO MATA JUIZ E PROSTITUTA. Vexame para a família!
Passaporte para o inferno!), sente vontade de escancarar os
vidros e respirar ar puro, pois o interior do carro, embora o
ar-condicionado esteja ligado, tornou-se sufocante. Parece
faltar-lhe espaço. A vida, submetida assim a uma convivência tão
estreita com o oposto, torna-se insuportável. Irrespirável! Mas,
apesar de tudo isso, inexplicavelmente, não se liberta do desejo,
e arrasta-o ainda a vontade de bolinar na mulher, tocar de novo
na sua vulva seca, hermética, fria, como se durante todo esse
tempo estivesse tentando seduzir um cadáver. Contra todas as leis
da prudência, decide: vai até o fim. E, apartado ainda do homem
sensato que sempre foi, acelera o carro, ignorando a pista
molhada, a irregularidade das construções, a melancolia da
paisagem úmida e devastada.
GERALDO LIMA nasceu em Planaltina (GO) em 1959 e
vive em Sobradinho (DF). É professor de Língua Portuguesa e
Literatura Brasileira. Já foi premiado em vários concursos
literários. Publicou os seguintes livros: A noite dos vagalumes
(contos; Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF, 1997)
; Baque (contos; LGE Editora/FAC, 2004); Nuvem muda a todo
instante (infantil; LGE Editora, 2004). Participou, em 2004, da
Antologia do Conto Brasiliense (Projecto Editorial, org. por
Ronaldo Cagiano). É autor das peças de teatro Error (encenada
pela Oficina do Teatro de Periferia, 1987) e Trinta gatos e um
cão envenenado (inédita).
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