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Quanto tempo se demora
para chorar de novo?
Daniel Mendelski Ribeiro
Lembra de gente chorando em torno dele, de pessoas com as roupas
verdes do hospital, de gente gritando e da forte pressão na
cabeça, quando do acidente. Agora se descobre diante de uma praça
de cidade pequena, um quarteirão com plantas rasteiras, cercas
vivas e caminhos de brita, cercado de casas, pintadas de tons
alvos e rosáceos. As portas das casas têm maçanetas antigas e
compridas, e não abrem. Suas janelas estão fechadas, e não há
movimento por detrás delas. As ruas que circundam a praça são de
pedras irregulares e escorregadias – ele lembra dos sapatos novos
da infância – mas não sente dificuldade em caminhar por elas. Não
há pessoas nas ruas, tampouco na praça; às vezes parece avistar
crianças brincando entre as cercas-vivas que dividem os
canteiros, vultos envoltos no mormaço. Mas, ao aproximar-se,
desvanecem. Uma claridade forte vem do canto da praça
imediatamente à esquerda ele, e imagina que está muito quente,
contudo essa sensação física não lhe atinge; antes, a claridade
lhe turvaria os olhos e o faria lacrimejar. Descobre que a rua
mais próxima do brilho do sol é uma subida, apesar da praça
retangular – a tal rua fica no extremo mais curto do retângulo –
ser estranhamente plana, sob qualquer circunstância. Não consegue
olhar para trás dele mesmo, tampouco para o que seria o lado
direito da praça, se ficasse de frente para ela. As esquinas que
sobram de cada canto do quarteirão infundem-lhe vago receio, não
consegue ultrapassá-las: quando se aproxima seus ângulos se
comportam como agudos ao invés de obtusos.
Na parte da praça em que fica a ladeira há uma espécie de coreto,
coberto, mas não circular; também ali a forma retangular
predomina, e não é plano, antes lembrando uma arquibancada: três
degraus altos de cimento cinza-escuro. Quando vai ali, sente uma
repentina vontade de sentar-se, embora sequer tente – crê que não
vai conseguir, que falta algo. Há quanto tempo está ali naquela
praça? Nunca anoitece, nem a luz se modifica.
Ele retorna ao ponto inicial, de frente, obliquamente à esquerda,
da praça. Vê uma figura descendo a ladeira, vindo da esquina
superior ao coreto. Tem vestes escuras, e, estranhamente, ele não
consegue ver-lhe as pernas movendo-se, somente da cintura para
cima é nítida a imagem. Subitamente, ele está na arquibancada,
defronte à pessoa que avistou – é um jovem de cabelos e olhos
pretos. Aliviado por ver uma figura humana, ansiosamente pergunta
ao rapaz:
- É aqui o céu?
O outro não lhe responde, olhando-o interrogativamente.
- É aqui? – insiste.
Finalmente o jovem responde, e ele só percebe o movimento dos
lábios, sem ouvi-lo, e ainda assim "céu", dita por ele, como uma
interrogação, e imagina ver a claridade inicial do pranto nos
olhos do rapaz. Uma vertigem o assalta, e ele parece querer cair,
mas não cai justamente por não sentir as pernas... O rapaz o
segura pelos braços, como se fossem brincar de roda, e sente
puxá-lo. Surge então outro jovem, não se sabe de onde, com as
roupas claras, e os separa sutilmente, tocando cada um no ombro
para afastá-los. Num segundo, está de volta de onde saiu. Sem
noites, mais uma vez fica sem saber quanto tempo passou desde que
viu os dois homens.
Tenta lembrar algum detalhe do momento em que surgiu o jovem no
coreto, para antever uma nova aparição e esperá-lo, mas tudo lhe
parece opressivamente igual, segundo por segundo, em pé, de
perfil para a pequena praça. Seu raciocínio, contudo, começa a
ficar mais claro. Se está ali, sozinho, é porque algo está
errado, e a cada vez que lembra a resposta dúbia e lacrimosa do
rapaz de cabelos pretos, um sentimento de receio e, pela primeira
vez, o medo assoma-lhe de leve. O que teria feito para deixar a
si mesmo nessa situação? Sempre levou uma vida comum, talvez das
mais ordinárias até: infância no interior, os pecadilhos de
sempre até arrumar o primeiro emprego, os estudos e as pequenas
conquistas, um casamento e insatisfações tão comuns, as
desonestidades do dia-a-dia... Mas também as pequenas grandezas e
conquistas, benemerências aos pedintes, rifas e roupas para as
instituições de caridade e miseráveis em geral, a complacência
aos subordinados, até o eventual perdão das idiossincrasias
alheias... No que teria errado? O pensamento voa, desde a
infância até o mais próximo que se lembra do acidente que o levou
até ali, desde as mentiras à mãe até as promessas descumpridas
aos filhos, passando pelas faltas à esposa e aos amigos, pelas
esmolas negadas e até as aulas cabuladas. Supõe que, se algo
disso fosse tão relevante, não estaria ali sozinho, naquele
espaço imutável, e concentra-se novamente no que teria feito, no
que significa tudo isso por que passa. Olha novamente a praça e
tenta, num esforço inumano, computar a quanto tempo está ali –
dias, semanas, meses? Subitamente, a lembrança da família
assalta-o; como estarão a mulher, os filhos, aqueles que o
prantearam? Acham que ele está bem agora? Os chorosos amigos,
imaginam que ele foi "para um lugar melhor"? Se soubessem onde
está, o que pensariam? Diriam que merece o que está sofrendo?
Será que saberiam dizer porquê?
Agora parece ter transcorrido muito tempo, e um estranho cansaço
apodera-se dele, e ruma para o espaço coberto onde viu os jovens
e examina atentamente os três degraus; é difícil escolher em qual
deles repousar. Quando ergue os olhos, o primeiro rapaz de olhos
e cabelos negros está diante dele, a face impenetrável parecendo
refutar, de antemão, qualquer indagação. Estende os braços para o
jovem e toma-o pelo ombro, em desespero:
- Por favor, eu não quero mais ficar aqui, quero ir para um outro
lugar.
O outro não responde, e ele arremata, desesperado:
- Para qualquer lugar, até – ele gagueja - para um lugar pior.
Subitamente, há vultos, como sombras de outras pessoas, em torno
dele, e sente uma vontade enorme de chorar, de gritar, e solta o
jovem, saindo do coreto. Às lágrimas, descobre que, desde que
está ali, jamais fitou o céu. Ergue a cabeça e vê o azul
entremeado de nuvens, as quais se movem extraordinariamente
rápido, com num filme meteorológico acelerado. Tenta descobrir
nelas uma imagem, uma figura, quiçá um rosto nos retalhos de
branco acima dele; contudo, esses permanecem amorfos, imutáveis
em seu movimento.
De novo a vontade de chorar sobrevém, e as lágrimas brotam dos
olhos. Uma frase ecoa na mente, e ele abre a boca para
pronunciá-la, no mesmo instante em que percebe, agora, o outro
jovem – o de branco – no último degrau do coreto, e parecem
pronunciar em uníssono "Porque me abandonaste?"
Ele finalmente consegue sentir as pernas, e essas se dobram, o
corpo caindo junto com as lágrimas que fluem pelo rosto, e tomba
no caminho de brita da praça, a face chocando-se com o chão duro.
Fica ali até que os espasmos do pranto cessam, e ele percebe que
chorou ao ponto de molhar a terra das laterais do caminho, onde
os seixos centrais não alcançam. Ergue-se, apoiado nos braços, e
percebe que o curso das lágrimas, na terra batida, criou pequenos
canais, e que esses formam pequenas figuras, à guisa de
caracteres. Detém-se ali por um instante, e reconhece a grafia de
um nome.
Olha novamente par ao alto: é isso, um nome, o motivo de estar
ali. Tenta chorar novamente, como se outras lágrimas pudessem
apagar o que está escrito, e constata, desesperado, que não
consegue – quanto tempo demora para se chorar de novo?
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