Os fugitivos

José Arrabal
[Do livro de contos “O Dia em que Partiu o Vidro do Espelho ”]

Chamam-me Francisco Macedônio. Este, porém, nem sempre foi meu nome, sendo assim chamado desde que resido aqui, no feitio desta história.

Antes de ser o que sou, era um dos sócios de uma pequena casa de tangos, a “Espelho de Prata”, no bairro da Boca, em Buenos Aires.

Tropeços da vida me trouxeram aos meandros do que se passou e conto agora.

Desconfio que não irão me acreditar. Mas, juro, foi o que se deu, desde há muitos anos. Desde uma tarde de domingo frio, em um fim de junho.

Na ocasião, eu e meu sócio, mais um velho empregado, limpávamos o salão de nossa casa de tangos, quando lá nos apareceram Vitório e Silvana, um casal que se apresentou como cantores e dançarinos, ele trazendo sua guitarra, os dois me espantando um tanto. Mais por suas aparências arregaladas, embranquecidas, um certo porte de silhuetas medrosas tiradas às pressas de uma página em um livro.

Diziam vir de Junín e nos ofereciam seus serviços.

Logo desconfiei que de Junín não eram, pois que também sou de Junín e quando lhes falei disso puseram-se a desconversar. E não demorou a se confirmar essa minha desconfiança.

Ambos, nos dias que se seguiram, um tanto despreparados para suas invencionices, andaram também dizendo a uns e outros, ora, que eram de Baia Blanca, ora, que vinham de uma cidadela aos pés da Serra de La Ventana.

Intriga, porém, que pouco importou.

O certo é que precisávamos do que nos ofereciam.

Há três dias, havíamos despedido nosso guitarrista, por ter se metido em briga de faca com um freguês, na disputa de uma dona que convidara para dançar entre um ato e outro de sua apresentação.

Propusemos a Vitório e Silvana que, então, se mostrassem. E, do que sabiam, nos ofereceram com bastante habilidade.

De início, meteram-se a dançar um escondido. Em seguida, uma chacarera.

Não foram, porém, muito adiante com esses estilos, ainda que bem dançassem assim.

O certo é que logo pedimos um tango, por ser de feitio mais próprio à nossa casa.

Puseram-se, então, ele, a tocar, e ela, a cantar.

Justo “Caminito”, de Filiberto e Coria Peñaloza, nos parecendo sobrenaturais desde já, por terem adivinhado a preferência de Bustos Casares, meu sócio. E mais nos impressionaram, quando de “Caminito”, num salto imediato, foram ao “Milonga Sentimental”, com que me arrancaram lágrimas.

Passamos a cantar juntos com Silvana. Eu, Bustos Casares e o velho José Fernández, nosso empregado, completamente embalados pela guitarra de Vitório. E não foi pequena a nossa surpresa, quando o casal nos deixou cantando, pondo-se a dançar por voltas tão fortes, passos tão loucos, arrebatados de tal modo que, num repente, se fixaram em nossos olhos como desenhos, velozes gravuras azuis, dessas por costume gravadas em nossos azulejos portenhos, desses mais belos, tão belos que parecem vindos do céu.

Quando findaram a apresentação, já dançávamos, também, eu e Bustos Casares, sob os “Bravos!” de José Fernández, nosso empregado.

Sequer duvidamos um instante.

Naquela mesma noite, Vitório e Silvana haveriam de se apresentar na “Espelho de Prata”.

Estávamos decididos.

Bustos Casares trouxe, então, até eles, uma minuta de contrato. Situamos as condições de pagamento e lhes pedimos os documentos de identidade para preenchermos a página fixando um acordo.

Vitório e Silvana miraram o papel com sustos nos olhos e se entreolharam buscando proteger-se.

No instante, pareceram-me que viam algemas e nada entendi do que se dava. Só mais tarde é que alcancei compreendê-los.

Indispostos, não assinaram o contrato. Apenas nos entregaram a guitarra que traziam.

- É só o que temos - foi o que nos disseram.

E quando lhes pedimos fotos para cartazes, novamente se negaram com os mesmos olhos medrosos, nos apontando a guitarra já em minhas mãos.

Outra vez insistiram:

- É só o que temos...

Claro que estranhamos, mas não havia porque descontentá-los.

Bustos Casares e eu entramos em acordo.

Sem nos recusarmos, assumimos os riscos daquele mistério. O que foi um grande acerto.

Por seis noites, mil e um tangos guitarreou o casal, dando-nos, também, alguma chacarera e um tanto de escondido.

Deveras, com eles, deixamos de ser o que éramos, mero embuste da Boca. E, noite após noite, Vitório e Silvana nos tornaram famosos.

Sumiam com o fim da madrugada, mas, no pé da tarde, antes de qualquer freguês, já estavam dispostos, na “Espelho de Prata”, para outra apresentação.

Foi na sétima noite que se deu o que se deu.

Havíamos até proposto que descansassem, ainda que fosse um sábado.

Achávamos mesmo que assim mereciam. Porém, se negaram.

- É só o que temos - foi o que nos disseram e cedo, com o nascer da tarde, chegaram, para mais uma vez nos atender.

Maldição que nos pôs perdidos!

Logo no começo do espetáculo, quando Vitório e Silvana por suas loucas tentações guitarreavam o “Buenos Aires”, de Joves e Romero, já arrebatando o público, vi entrar em nossa casa de tangos um jovem de porte aristocrático, bastante exibido com sua elegância.

Não custei a reconhecê-lo, embora fosse pouco comum a sua presença entre nós.

Tratava-se do filho do velho advogado Dom Jorge Guilhermo. Moço dado a contar histórias estranhas em jornais e mesmo em livros.

De imediato, ele bem atentou sua escuta. E, mesmo de pé, fixando nossos cantantes com olhar implacável, pôs-se a escrever de modo brutal tal qual o destino, em uma página branca de papel pautado.

Vitório e Silvana, ao percebê-lo no salão, pareceram-me, sem dúvida, tomados de pavor.

Às pressas, deixaram a guitarra tombada no chão, fugindo rumo aos camarins.

Corri também para os bastidores, antes que se exaltasse o público.

Nos camarins, deparei-me com Bustos Casares assombrado.

- Desvaneceram! Desvaneceram! - foi o que me disse, repetindo mil vezes apenas isso, com os olhos parados num nada.

O velho José Fernández melhor me explicou o que se dera.

- Os dois cantantes! Os dois cantantes! Suas carnes se tornaram ar, feito palavras! Feito palavras, se tornaram ar! - contou, não menos impressionado.

Vitório e Silvana haviam desaparecido assim. Não mais.

Tornei, correndo ao salão, a tempo de perceber o moço indo embora.

Clamei por ele, certo de que tinha alguma responsabilidade em tudo o que havia acontecido.

Virou-se, sem tremor, mirando-me nos olhos.

- Não se espante. Estão de novo aqui, de onde jamais deveriam ter escapado - confirmou minhas suspeitas, exibindo o papel pautado, agora, pleno manuscrito.

Nada satisfeito, procurei arrancar de suas mãos a página perversa.

O escriba impostor, porém, bem resistiu.

E, na ânsia por retomar o que havia perdido, numa só vertigem, vi-me, também, transportado, capturado para o mundo mais próprio de Vitório e Silvana, preso à resignação de ser personagem.


JOSÉ ARRABAL
é professor universitário, jornalista, tradutor, ensaísta, poeta e autor de contos, novelas e romances.
Lecionou por muito anos na PUC de São Paulo, na Universidade Metodista, na UNIP e na FAAP, ministrando aulas, conferências e oficinas de criação nas áreas de Letras e Comunicação Social.
Jornalista, trabalhou em revistas, jornais e agências de notícias do Rio de Janeiro e de São Paulo, onde exerceu atividades de redator, articulista e editor de Assuntos Internacionais, Crítico de Literatura e de Teatro, editor de Cultura e correspondente estrangeiro em países da América Latina.
Traduziu obras literárias, coordenou coleções, analisou e preparou originais para muitas empresas editoriais paulistas. É autor de livros de ficção para crianças, jovens e adultos, assim como de ensaios, biografias, peças de teatro, poemas e roteiros para cd-rom, com cerca de 40 títulos publicados por editoras de São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba.
Entre suas obras, sobressaem “O Nacional e o Popular Na Cultura Brasileira – Teatro” (Editora Brasiliense), “A Princesa Raga-Si”, “O Livro das Origens” e “Lendas Brasileiras, Vol 1 e Vol. 2” (Editora Paulinas), “As Aventuras de El Cid Campeador” (Editora Paulus), “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem), “O Noviço”, “O Curumim Dourado”, “Demeter, A Senhora dos Trigais, “O Monstro e a Mata” e “O Nariz do Vladimir” (Editora FTD), “Arai, Pele de Tigre” (Editora do Brasil), “Candido” (Editora Scipione), “A Estrela de Rabo” e “Waldemar, O Rei do Mar” (Editora Nova Didática), “Histórias do Japão” (Editora Peirópolis).
Com o livro “A Princesa Raga-Si” (Editora Paulinas/1985), recebeu o prêmio de Melhor Autor do Ano, na categoria de Literatura para Crianças, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte.
Por duas vezes foi indicado para o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro.
Na recente Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, seu livro HISTÓRIAS DO JAPÃO foi premiado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Natural do Espírito Santo, vive há 28 anos em São Paulo.