|
 |
 |
O Retrato
Patrícia da Fonseca
Encantei-me com aquele retrato desde a primeira vez que o vi.
Quanto tempo fazia? Muito tempo. Eu era só uma criança, talvez
tivesse seis ou sete anos. Mas como não se apaixonar por uma
figura tão distinta? A figura vinha a ser um antepassado meu. Era
um homem, na casa dos trinta anos, com um belo bigode e vastos
cabelos castanhos. Um rosto másculo. Lembro das horas perdidas em
que ficava a admirá-lo, nos meus sonhos infantis, enquanto a
tarde se descortinava lá fora e meus primos e irmãos - já
cansados de me chamar - gritavam e se divertiam com suas
brincadeiras de quase quarenta anos atrás. Eu imaginava mil
coisas. Qual seria a mulher que teria casado com ele? Alguma
prima distante? Ou uma tia? Depois que cresci e cheguei à
adolescência, costumava fantasiar que era eu que havia casado com
ele em outra reencarnação. Então, quando menos esperasse, o meu
amante do retrato apareceria do nada, para entrar na minha vida e
nunca mais sair. Fui ficando mais velha, mas minhas fantasias com
ele não se foram. Elas se aperfeiçoaram um pouco, mas eram
basicamente as mesmas. Ele me salvaria do marasmo que minha vida
estava se tornando. Quem sabe em uma longa viagem eu topasse com
ele em alguma esquina? Ou se sentaria ao meu lado no ônibus? Ou
bateria na minha porta, vendendo enciclopédias? Não,
enciclopédias não! Vender enciclopédias não era nada romantico.
Certo dia recebi a notícia que minha avó havia morrido. Fiquei em
alerta. Ela era a dona do retrato! Foi na casa dela que o
conheci. Céus, aquele retrato era meu por afinidade. Durante o
velório, enquanto minha família velava a velha, entrei
sorrateiramente na casa e peguei o quadro para mim. Se era roubo,
não sei. Mas era meu. O homem da tela era era meu. E se o
quisessem, também teriam que me matar. Deixei o quadro na minha
casa, seguro no meu quarto e voltei a tempo para o enterro.
Fiquei esperando, nos dias seguintes e enquanto namorava meu
amado, que algum parente emitisse algum sinal, reclamando do
desaparecimento do quadro. Mas não aconteceu nada... para minha
felicidade. Assim, por dois ou três meses, fiquei namorando meu
amor, preso naquela moldura antiga, pendurado ele que estava na
parede do meu quarto. Sentia os olhos dele me velando enquanto
dormia e me desvendando quando me despia, todas as noites. Não
eram raras as vezes em que sonhava que ele saía da prisão que era
o quadro e se deitava na minha cama, ao meu lado. Quase podia
sentir seus braços me enlaçando e muitas vezes acordei beijando
meu travesseiro. Lógico que nunca contei estas particularidades
para ninguém. Afinal, quem iria entender? Chamariam-me de louca,
eu sei, só porque era apaixonada há mais de três décadas por uma
pintura. Mas e daí?
Um dia recebi a visita da minha irmã mais velha. Visita normal,
ela só queria uma peça de roupa emprestada para ir a um
casamento. Mas aconteceu de eu ter que ir ao banheiro e quando
voltei, encontrei-a no meu quarto. Ela admirava o quadro, com um
sorriso maroto nos lábios. Meu coração disparou. Ameaçei que não
emprestaria roupa alguma se ela abrisse a boca e revelasse onde o
quadro da vovó estivera todo o tempo. Confessei, também, que eu
não poderia viver sem aquele quadro e que a única coisa que me
deixava feliz naqueles tempos era aquela figura. Declarei, ainda,
que era uma honra saber que um antepassado meu havia sido um
homem tão encantador. Minha irmã, felizmente, não emitiu maiores
comentários. Mas me contou algo que me arrasou. Ele, o cara do
quadro, nunca fôra antepassado nosso, nem de ninguém. Aliás, ele
era um ninguém. Ele nunca existiu. Vovó havia dito que ele era
nosso antepassado, mas na verdade, fôra ela que pintara o quadro
e a testemunha era nossa própria mãe, que poderia confirmar tudo.
Segundo minha irmã, vovó falara que ele teria sido nosso
ancestral para deixar a história da nossa família mais bonita.
Minha irmã sabia disto há um tempão. Eu, a bobalhona, era a
última a saber. Por isto ninguém reclamara do quadro. Ele só
tinha valor para mim.
Minha irmã, sem saber do tamanho da minha tristeza, foi embora,
deixando-me eu e ele. Eu e o ninguém. Ele continuava lá,
fitando-me, com aquela mesma expressão no olhar. Expressão,
aliás, que eu jamais havia encontrado em homem algum. Senti
vontade de chorar, mas me segurei. Mas a frustração, a raiva - de
mim e da falecida vovó - e até um sentimento de rejeição, eram
tão fortes que pensei que nunca iria superá-las. Por um centésimo
de segundo, pensei em atirar o quadro pela janela. Mas... ruim
com ele, pior sem ele. Afinal de contas, quem mais iria me olhar
daquele modo? Ninguém. Por isto, decidi ficar com o "ninguém"
pendurado no mesmo lugar.
Dia seguinte era sábado. Saí de manhã para comprar pão em uma
padaria que havia aberto semana anterior, pertinho de casa.
Estava pagando no caixa, quando percebi que alguém havia parado
perto de mim. Com o canto do olho, vi que ele vestia uma camisa
vermelha, de um time de futebol aqui da cidade. Já não gostei,
porque torço para o time que veste a camisa azul. Pensei em
ignorar totalmente aquele torcedor do time rival, mas uma vontade
quase incontrolável de olhar para o rosto dele fez com que eu
voltasse minha cabeça para seu lado.
Era "ele". De alguma forma, "ele" saíra da moldura e do século
passado e voara diretamente para os anos 00, trajando uma linda
camisa vermelha, com seus belos cabelos castanhos presos em um
rabo de cavalo, uma barba mal feita e um piercing na sobrancelha.
Estava comprando pão. E a aquela expressão no olhar... Achei-o
tão jovem que me compadeci. Vai que ele precisa de uma mulher
mais velha que o proteja?
Bem, hoje vivemos juntos. Eu, meu amor e meu quadro. Meu
amorzinho garante que o quadro e ele "não têm nada a ver.". São
muito diferentes, a começar pelo piercing e pelo rabo de cavalo.
Por mim, ele pode achar o que quiser, desde que não perca aquele
jeitinho de me olhar.
|