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O Jegue
Para Otávio Mota
Era uma daquelas reuniões tediosas que soem suceder em nossas
pequenas cidades simplesmente porque as autoridades estaduais, em
dia qualquer, lembram-se delas e dizem: Diabo! Tinha-me esquecido
completamente daquele cu do Judas, vamos realizar lá a primeira
sessão preparatória do Congresso Estadual sobre a Imortalidade da
Alma da Muriçoca. Pronto! Acionam a Secretaria correspondente,
que aciona as autoridades municipais que, impossibilitadas pela
incompetência de acionar a indiferente e descrente população, faz
uma terrível balbúrdia na mídia local, ou seja, no fanhoso e
barulhento serviço de alto-falantes de um dos seus apadrinhados e
realiza-se a cerimônia inócua, cujo único mérito é interromper a
modorra e tudo volta a ser como dantes no quartel de Abrantes...
A cidade onde moro não é uma exceção. Mas tem um agravante: entre
as pessoas que, a duras penas, se esforçam em promover algum
evento cultural sério na cidade está justamente um amigo meu,
Odilon Moura, pessoa abnegada que, até hoje, não compreendi por
que se esforça tanto por trazer cultura para quem dela só quer
distância...
Odilon Moura é o diretor do centro cultural, suntuoso prédio
construído pelo Estado que, apesar de seus esforços, vive às
moscas. E se mais não vive é precisamente por ele ter uma
capacidade infinita de não desistir nunca. Nunca. Odilon Moura,
conta, ademais, com o apoio moral de uns outros poucos abnegados
que disputam com as moscas a assistência nos eventos que Moura
realiza. Fazemos parte deste grupo a poetisa Maria do Carmo
Rodriguez, seu marido, o artista plástico Esteban Rodriguez e
eu... Como o marido de Maria do Carmo é paraguaio e como em
espanhol Carmo é Carmen, chamo-a Carmencita Rodriguez. No dia a
que me refiro, além das habituais moscas, estávamos Carmencita e
eu, já que os burocratas estaduais e municipais presentes não
formavam bem uma platéia.
Mas, melhor começar do começo...
O telefone tocou em minha casa e uma voz perguntou:
– Sampaio?
Como sou tratado por Sampaio, devido ao sobrenome do meu pai,
respondi:
– Sim.
– Você quer comparecer a um evento que o Estado vai realizar...
Não o deixei terminar.
– Sim, pode contar comigo, Odilon.
Feliz, ele desligou. Porém, não quero que pensem que eu, por
falar assim, faço algum favor ao meu amigo comparecendo aos seus
eventos. Compareço porque dediquei quase toda a minha vida a essa
causa perdida: a da cultura. Compareço porque já fui um
batalhador tão abnegado quanto ele, embora já tenha perdido a
galhardia. Compareço porque é o mínimo que posso fazer, em nome
do meu antigo entusiasmo, como a dizer: você não está só... E,
finalmente, compareço porque ele é meu amigo e pronto!
Bem... Fui.
Sabia de antemão quem estaria lá e qual não foi a minha surpresa
em ver que um terço dos freqüentadores habituais do Centro
Cultural tinha faltado ao evento... Explico melhor. Como éramos
três os habitués e como Rodriguez, o marido de Carmencita, estava
no trabalho, pois o dia era da semana, a matemática fica
prontamente esclarecida... Havia outro detalhe, mas esse não era
surpresa e sim coincidência. Depois de formada a mesa diretora
dos trabalhos – com os políticos regionais interessados em
elogiar o governador frente aos seus prepostos, com os burocratas
ávidos em agradar aos seus chefes, com Odilon e a sua cruz
cultural – uma burocrata estadual constatou que, havendo na mesa
doze pessoas e no auditório vinte e quatro, dois terços ouviam um
terço falar. Aquele – pensei – era o dia dos terços...
Como sabia que logo começariam os cansativos discursos
laudatórios, que eu conhecia de cor, sentei-me em um rincão
afastado da platéia, pois desejava ficar isolado, coisa, aliás,
que não era difícil, porque a platéia estava repleta de rincões
isolados. Volta e meia, eu dava uma olhadela em meu amigo, em seu
posto na mesa, no desejo de que ele recebesse esta muda e secreta
mensagem minha:
“Suporte com resignação o seu calvário, afinal você o escolheu.
Não tenho a sua coragem de ser um Cristo da cultura nesta cidade
inculta, não chego a ter o valor de ser um dos ladrões para ser
crucificado ao seu lado, porém de uma espécie de Maria Madalena,
para enxugar o seu suor e sangue, serei: desde que você não se
incomode com um Maria Madalena assumidamente viril e de
pantalones bien puestos, como se diz em espanhol, quando se quer
realçar a masculinidade de alguém.”
Estava perdido com meus pensamentos, justamente para não ouvir o
amontoado de baboseiras dos puxa-sacos de plantão, quando outro
abnegado da cultura, Nelson Melo – amigo de Odilon, que tinha
vindo de Salvador, de quem eu ouvira falar, sem, contudo,
conhecê-lo pessoalmente – pediu a palavra. Foi o único que não
falou bobagem; discorreu sobre o folclore da região, sutilmente
lamentando o descaso de quem deveria preservar a cultura popular.
Mas, apesar do seu conhecimento da matéria e as suas preocupações
com os descasos, melhor não tivesse falado...
O crime de Nelson Melo foi, ao enumerar as diferentes
manifestações folclóricas da nossa microrregião, citar – ainda
que de passagem – um folguedo ingênuo e despreocupado que sucedia
na festa da padroeira de uma cidade vizinha que, ao meu ver,
encerrava uma insensata maldade. O folguedo consistia em se
roubar um jegue de algum imprevidente amigo, enfeitá-lo e
percorrer a cidade, acompanhado por charanga, parando em todos os
bares, bebendo e cantando. No fim da tarde – disse ele – todos
estavam bêbados, inclusive o jegue – enfatizou – Porque o jegue é
obrigado a beber em todos os bares onde param...
Foi o bastante.
Uma chispa fulgurante, luminosa como uma estrela candente, passou
por minha mente. Senti-me transportado para Salamanca, no ano de
1936. Claro que era uma transposição intelectual, onírica, pois a
minha vinda ao mundo dera-se naquele ano. Sendo recém-nascido não
poderia estar lá. Mas a informação cultural, aquela coisa da qual
a maioria da população endinheirada da minha cidade corre mais
que o diabo da cruz, faz desses milagres. Transportei-me para a
universidade de Salamanca e senti-me Unamuno. Então pedi a
palavra, disposto a fazer o discurso da minha consagração
histórica municipal.
“Senhoras e senhores, é com profundo pesar que ocupo o precioso
tempo de Vossas Senhorias para, possivelmente, aborrecer os
vossos ouvidos. Neste momento, por um milagre do qual só a mente
humana é capaz, lembrei-me de Miguel Unamuno, o grande filósofo
espanhol e magno reitor da universidade de Salamanca, cuja obra –
tenho certeza – todos os membros dessa augusta mesa estão
familiarizados”. Sabia que ali ninguém, ou quase, conhecia merda
nenhuma de Unamuno. Mas, como a minha intenção era esnobar,
continuei: “Lembrei-me desse irmão de Cervantes. Lembrei-me, mais
especificamente, do dia 12 de outubro de 1936, o dia da raça, na
Espanha, quando Unamuno – ao ouvir da boca do gen. Astray o
grito: ¡Viva la muerte! – disse que não poderia calar-se frente a
tanta insensatez, porque: ‘conservar-se calado equivale a mentir’
– e desferiu o seu famoso protesto”.
Armado de razões histórica, comecei:
Neste momento quero fazer igual ao que Unamuno fez, ainda que
esteja ciente da distância que separa o citado do “citador”, e
dizer que não posso silenciar-me frente ao que nos informou o
senhor Nelson Melo. Porém, quero deixar bem claro que não vai
aqui, nestas humildes palavras, nenhuma intenção polemista com o
referido senhor, tampouco desejo que ele se sinta atingido, posto
não haver nelas nenhuma intenção de desdoiro contra a sua
integridade intelectual...”
Ao chegar àquele ponto, sentindo-me dono da situação, dirigi-me
ao senhor Melo. “Creia-me, senhor, que o ouvi como se ouve a um
repórter que apenas relata uma notícia desagradável, da qual não
tem responsabilidade alguma, salvo a de informar. O meu coração
recebeu a sua informação como se olha uma fotografia de uma
tragédia que envolve o ser que mais amamos. Olhamos a foto,
sentimos a dor, mas sabemos que o fotógrafo não foi o
responsável, apenas a registrou.
“Por isso digo a V.Sa. e a todos os presentes que não posso
calar-me – como o fez Unamuno – frente a essa insana crueldade ao
asno. Pobre animal! Aproximou-se dos homens em um passado
milenar, porque, como muitos de nós, acreditava na falácia do
humanismo e, assim, selou a sua desgraça... Esse tranqüilo animal
que, segundo o folclore e as crenças populares do sertão” – sou
sertanejo fanático, tinha que meter minha terra na história –
“transportou a Virgem Maria e o Menino Jesus, recebendo dele uma
cálida e carinhosa mijada...” Escuto um murmúrio na platéia,
preocupado – achando que alguma carola pudesse ficar puta por não
admitir que o Menino Jesus mijasse –, corto a continuidade do meu
consagrador discurso para acalmar os meus ouvintes. Sabia que
eram poucos, mas necessitava deles mais do que o ar para
ratificar a minha efêmera glória.
“Sim, senhoras e senhores, não é de causar espécie o fato de o
Menino Jesus ter feito xixi”... Fiz uma pequena pausa, calculando
o efeito da minha sagaz troca de palavras (mijar por fazer xixi),
constatando o acerto da medida, continuei: “[...] Não é de causar
espécie o fato de o Menino Jesus ter feito xixi sobre as patas
dianteiras do jegue, no exato lugar onde começa a crina, como se
pode observar olhando no animal a marca que formam dois
triângulos isósceles unidos pela base. É isso o que pensamos nós,
os sertanejos. Permitam-me, pois, senhoras e senhores, retomar o
fio da mijada... Desculpem. Quis dizer, o fio da meada” ... A
minha intenção, obviamente, era fazer uma gracinha, mas logo vi
que não havia ambiente e, muito menos, humor. Então se fez um
silêncio aterrorizador, com muitos olhares desaprovativos sobre
mim. Temendo que alguém ensaiasse um gesto de interrupção, fui
rápido e gritei: “Por favor, senhoras e senhores, tenham
paciência, serei breve e, por isso, peço-lhes para não ser
interrompido”.
E retornar ao fio da mijada...
“O jegue aproximou-se do homem – dizia – e só lhe prestou bons
serviços. Suas fêmeas, conforme sucedeu em imemoriais tempos
bíblicos e como acontece ainda hoje no sertão, continuam dando o
seu parco leite para curar crianças desnutridas. Sempre com
docilidade e mansidão transportou o homem e suas tralhas através
das páginas da história e pelas trilhas da vida. Nunca recebeu
nenhuma demonstração de carinho, apenas pancadas e tão-somente
pancadas. Isso quando não sofria impiedosamente com as
brincadeiras dos meninos, esses mesmos meninos a quem salvara da
fome. E essas brincadeiras, senhoras e senhores, todos sabemos,
nada mais eram, muitas vezes, que a prática de desenfreada
libidinagem no barranco, malsão lugar onde os meninos costumam
fazer iniciação em labutas de sexo. Quem não está lembrado da
matança indiscriminada dos nossos jumentos, que eram sacrificados
e transformados em alimentos para os cachorros ricos do Primeiro
Mundo? Esse mesmo Primeiro Mundo que tanto fala em defesa da
vida...”
“Com toda a sua folha de serviços prestada à humanidade, o jegue
só tem recebido ingratidão e desdita. Toda vez que o homem se
aproxima do jegue é para vilipendiar-lhe, aviltar-lhe. Quando
não, é para arrancar-lhe os preciosos testículos, cuja utilidade
na perpetuação da espécie, como todos sabemos, é fundamental. Que
coisa triste, senhoras e senhores...”
E eu pensando que no folclore brasileiro só existia crueldade na
malfadada Farra do Boi, em Santa Catarina, descubro agora que,
sob nossos narizes, aqui bem próximo, em um dia de festa
religiosa, ocasião em que deveria reinar bondade e
confraternização, o homem novamente se aproxima do jegue para
transformá-lo em um vulgar bêbado...
“Meu Deus, que indignidade! Que coisa mais degradante; e
degradante para quem o faz. Senhoras e senhores, em nome do jegue
e da sua dignidade, protesto!”
Houve um silêncio de vidas extintas. A perplexidade se impôs como
soberana absoluta. O meu amigo Moura, olhou-me como a me dizer:
“Seu sacana, não estrague a minha festa”. Mas o seu olhar era o
de um pai benevolente frente a um filho travesso, ainda que ele
fosse mais jovem que eu. Minha amiga Carmencita Rodriguez, com
seus expressivos olhos brilhantes, irradiando felicidade e
satisfação, levantou-se aos gritos:
– Bravo! Bravo!
E aplaudia com vibração, no que foi acompanhada por algumas
palmas chochas. Eu, que havia me inclinado e dito: “Muito
obrigado”– saí impoluto, cabeça alevantada, sem olhar para
ninguém. O meu pensamento estava longe, com Unamuno: As veces
quedarse callado equivale a mentir. Estava satisfeito comigo
mesmo. Mas, ao chegar ao foyer, invadiu-me uma leve melancolia.
Não me preocupei, sou assim mesmo, sempre que estou alegre fico
logo triste. Voltei à sala e chamei Carmencita Rodriguez e lhe
repeti todo o meu discurso. Era um ardil que eu sempre usava para
evadir-me da tristeza. Pensei que ela ficasse assustada por eu
estar repetindo o que ela acabara de ouvir. Mas eu estava tão
aplicado em escamotear a melancolia que não notava que, enquanto
reproduzia minha peça oratória na íntegra, sem nenhuma falha,
Carmencita parecia perplexa. Terminei e ela perguntou:
– Por que você não falou?
Fiquei lívido. Só então me convenci de que tudo não passara de um
desejo, um a mais, que a minha covardia impedia-me de realizar. O
sangue subiu-me às faces, mas consegui esmagar as lágrimas sob as
botas orgulhosas da hipocrisia. Nisso sou bom. Desculpei-me com a
minha amiga, dizendo-lhe que precisava ir ao banheiro. Enquanto
saía sem nada lhe ter respondido, ela voltou a perguntar-me:
– Por que você não falou?
Depois, como começasse a notar o meu embaraço, acrescentou
carinhosamente:
– Teria sido tão bom...
Parei, escorando-me valentemente nas pernas da covardia, e
respondi-lhe:
– Bobagem, isso era apenas um conto, um esboço, que me ocorreu
enquanto ouvia os caras falando.
E saí, cambaleante, rumo à escada que me levaria ao andar térreo,
onde havia um bar. Tomaria um conhaque e tudo voltaria ao seu
lugar. Cheguei ao andar térreo, fazia um calor úmido e abafado.
Aproximei-me do bar e, ao encostar-me ao balcão, avistei
justamente o Nelson Melo que tomava um uísque. Ele ou não me viu,
ou fingiu não me ver. Notei que aquele não era o seu primeiro
aperitivo da manhã, talvez estivesse apenas um pouco chateado com
o marasmo da cidade. Não nos conhecíamos bem. Odilon Moura nos
apresentara rapidamente e, generosamente, dissera que eu sempre
prestigiava os eventos culturais da cidade.
– O Sampaio está sempre aqui, nos dando uma força e trazendo a
sua energia.
Comentei que era preciso não confundir os amigos com as
companhias de eletricidade, posto ser elas que geram força e
transmitem energia. Queria ser original e sarcástico para
impressionar o visitante, para que ele visse que no interior tem
gente com verve. Na verdade, nada dissera. Aquele não era o meu
dia bom. Eles se afastaram e eu só tivera tempo de dizer o
clássico “muito prazer”. Nelson Melo, emborcou o que restava da
dose e saiu, com passos apenas vacilantes, sem aparentar ter se
fixado muito em minha pessoa.
Como um autômato, consultei com os olhos a prateleira e fiquei um
instante indeciso, sem saber o que pedir. Depois me lembrei
também da conversa com Carmencita Rodriguez e de como era, e
estava sendo, covarde. Então resolvi, com o único fito de
punir-me, pedir uma água mineral. Recebi o “precioso líquido”
naquela poluente e horrorosa embalagem azul e saí em direção ao
portão. Nisso, uma caminhonete azul parou. Era a minha mulher que
vinha buscar-me. Entrei no carro e ela perguntou-me:
– Tudo bem?
– Tudo bem... – Respondi.
De pronto, senti-me feliz; ao vê-la, a melancolia se dissipara.
Afortunadamente a minha mulher é muito distraída... quero dizer
que quando ela está dirigindo só tem atenção para o ato de
dirigir. Tudo bem – voltei a comentar, olhando disfarçadamente
para o lado. E pensei, assim ela não nota as minhas lágrimas.
E não notou mesmo...
ARAKEN VAZ GALVÃO – dramaturgo, cronista e romancista baiano.
Possui diversas obras publicadas e foi o ganhador do Concurso do
Banco Real “Talentos da Maturidade” com o conto “O jegue”.
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