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Negro
O elevador escancara-se — e o negro vai parar ao lado do
ascensorista, as outras pessoas se aglomerando na porta. Rostos
pálidos pelo branco intenso da luz, quando entram. A mulher de
sombrinha berra que é falta de organização — por que não uma fila
para respeitar a vez de cada um? O senhor ruivo, o nó apertado na
gravata, é dos últimos a entrar e, antes, atira a ponta de
cigarro no cesto com terra e cuspe. Agora, bem apertados, o ar da
respiração de um é o da respiração do outro. Um velho, lentes
grossas, virando-se para a jovem ao seu lado, diz ficar tonto
quando anda de elevador. A porta aberta deixa um que outro. O
negro fica observando os números que correm: 13... 14... 15...
16...
— 18º — comanda o ascensorista.
Este o andar que o negro deseja. A camisa azul surrada, a
preocupação desenhada no rosto, livra-se do elevador, já agora
bem vago. A porta aberta, ainda volta-se para saber algo do
ascensorista, que lhe aponta uma outra porta, de vidro, o
indicador no ar mostrando a tabuleta
EMPURRE
— Obrigado —
muito seco.
O negro segue. Passa pela porta. Chega-se à recepcionista — diz
que quer falar com o chefe do setor de admissões do banco.
— O chefe do setor de pessoal, o senhor quer dizer?
— Tanto faz, minha filha.
A moça, lambuzada de batom, ouro escorrendo do pescoço e braços,
informa que não é ali, mas, a voz mansa, olhos arregalados e
ligeiros, diz que o homem espere um pouco. O indicador desce ao
interfone — espera brincando com a caneta. Fala com alguém e
afasta o aparelho um pouco da orelha. Pergunta o que o moço
deseja mesmo. O homem diz que é um problema com o último concurso
público do banco. A mulher transmite para o outro, no lado de lá
da linha. Aí deita o aparelho no gancho, o sorriso muito alvo —
que ele entre pela porta ao seu lado.
— Aquela ali?
— Sim.
Um senhor atrás da escrivaninha, o paletó na poltrona, anota
algo. Preocupado. Joga a mão na testa careca, abre a gaveta,
retira algumas pastas, tudo muito agitado. Faz, mesmo, que o
homem não está ali. Aí, parece, se arrepende:
— Sente-se.
O homem espia ao redor. Escritório como muitos de repartição. Por
trás da poltrona do outro, no papel de parede, a paisagem amarela
de outono, com as árvores desflorando. Mais no alto, a foto do
presidente da República, a faixa tomando-lhe o peito. Escrever
para ele, se for o caso.
— O senhor deseja?...
Diz o homem que fez, ultimamente, concurso aqui para o banco e
tirou terceiro lugar. Que acontece: chamam até o vigésimo
colocado, e nada do seu nome. Terceiro lugar! (mostra nos dedos).
O nome no jornal e tudo. O recorte já agora na mão, mostrando
para o outro:
— Aqui.
O do banco retira os óculos. Aperta os olhos, observa. Pois não.
O homem volta a abordar. Seria algum problema com o computador? O
próprio cunhado conferira-lhe o teste: perfeito. E ali a grande
prova: o jornal. Um amigo, dos últimos colocados, já estava
trabalhando. Caramba, como entender? Mas insistia mesmo era com o
fato de o nome constar da lista estampada no jornal. E mostrava
novamente o recorte, o nome sublinhado de caneta.
— Aqui, amigo. Edmundo dos Santos.
Nunca tivera problemas com ninguém, nem vizinho, nem polícia,
nada! Trinta e seis anos, aniversariou no último 18 (mostrando a
data na carteira de identidade).
— Pois não. O senhor vai falar com este moço aqui...
O do banco anota algo num papel.
— Pronto. Fale com o Dr. Jaime.
Era um endereço, o nome JAIME destacado no alto.
— Sim, Dr. Jaime — confirma Edmundo.
E, já agora enfiando o papel no bolso da camisa:
— Eu estou tratando com...
— Anselmo... Dr. Anselmo Bastos.
— Agradecido, Doutor.
Saiu.
Sentia mesmo, já agora, uma ponta de esperança. Ir, pois, falar
com esse Dr. Jaime! Fez, agradecido, na outra sala, elogios à
moça dos ouros — era muito delicada, muito atenciosa.
— E bonita!
— Ah, obrigada.
Edmundo procurou o outro, Dr. Jaime. Este avaliou a sua causa,
prometeu empenhos — que ele voltasse depois. Sem, no entanto,
nada resolver. Que ia ver os papéis, as coisas, tivesse calma,
teria, com certeza, cedo ou tarde, uma solução. Por último, Dr.
Jaime sustentou que levaria o caso à presidência do banco. Assim,
que ele esperasse um pouco mais.
— Estamos trabalhando.
Mas Edmundo, antes, procurou um advogado. Esteve no escritório
dele, os braços muito agitados. O advogado, paciente, escutou-o
de sua poltrona, a mão escorando o queixo. Edmundo contou-lhe a
sua história toda, as andanças, o desperdício de tempo, a
necessidade; bem detalhada — idas e vindas. Que foi tudo à toa.
Que não admitia isso. Que não podia mais ficar assim. Que não
confiava no tal do Dr. Jaime. Que isso não é justo. Que vai abrir
processo. Que o nome saiu no jornal (voltava a mostrar o recorte,
o nome sublinhado de caneta). Aí engoliu a fala, os olhos
fuzilando o advogado:
— Doutor, me desculpe, mas eu tô de saco inchado com isso!
O caso foi parar na justiça. Edmundo cortou muita calçada, tomou
muito cafezinho nas salas de espera. Após três anos, sem que a
questão tivesse sido solucionada (um pedido de revisão da prova
girando em várias mesas), descobriu a úlcera. Entrou em fila para
consulta, para pegar medicamento. Teve breve melhora. Escreveu
para o presidente da República. Tremelicou pelas praças. Numa
tarde de janeiro, quando seguia mais uma vez para o escritório do
advogado, um ônibus o atropelou ao atravessar a avenida. E, uma
outra vez, seu nome voltou a ser linha de jornal:
Ontem, por volta das 16h00, o ex-marchante Edmundo dos Santos, 39
anos, residente à Rua das Palmeiras, na Graça, foi atropelado e
morto por um ônibus da Empresa Souto Maior, na Av. Costa e Silva,
próximo à agência do Banco Misto. Algumas testemunhas do acidente
garantem que Edmundo dos Santos se jogou debaixo do coletivo.
Garantem ainda que o motorista do ônibus, Antônio Messias (que,
logo após o acidente, evadiu-se), não teve culpa alguma pelo
ocorrido. O trânsito na avenida ficou interrompido até as 16h30,
quando fez-se a remoção do corpo para o Instituto Médico Legal.
Edmundo dos Santos deixa mulher e dois filhos menores. Um tio da
vítima disse à nossa reportagem que Edmundo andava muito
esquisito ultimamente. Não sabia bem, mas talvez fosse porque o
ex-marchante tivesse com receio de perder uma questão na justiça,
relacionada a um concurso público que ele prestou há uns três
anos atrás. Comenta-se, no bairro em que Edmundo morava, que sua
mulher andava o traindo com um motorista de táxi.
RINALDO DE FERNANDES – é doutor em Letras pela UNICAMP e
professor de literatura da Universidade Federal da Paraíba.
Organizador do livro “O Clarim e a Oração: cem anos de Os
sertões” (São Paulo: Geração Editorial, 2002). Como pesquisador,
fez os textos da antologia Os cem melhores poetas brasileiros do
século, organizada por José Nêumanne Pinto (São Paulo: Geração
Editorial, 2001). Já teve contos publicados, entre outros
suplementos, pelo "Rascunho", de Curitiba. Autor dos livros de
contos “O Caçador” (1997) e “O perfume de Roberta” .
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