Um mestre do desassossego

Everardo Norões

A editora UFC, da Universidade Federal do Ceará, acaba de lançar na sua coleção Literatura no Vestibular, o livro Dos valores do inimigo, do escritor Pedro Salgueiro.

Trata-se do 4º livro do contista cearense, que estreou na literatura em 1995, com O peso do Morto (Editora Giordano, São Paulo), seguido de O espantalho (Alagadiço Novo, UFC, Fortaleza, 1966) e Brincar com armas (Topbooks, Rio de Janeiro, 2000).

Os contos desse seu novo livro – uns já publicados, outros inéditos – revestem-se das mesmas características de seus trabalhos anteriores: uma linguagem escorreita, utilização de artefatos do cotidiano, com desfechos quase sempre inusitados, capazes de suscitar uma atmosfera de desassossego e de angústia, característica da linhagem de contistas a que se filia o autor.

E essa filiação é clara. No rio de águas profundas do conto moderno, cuja nascente maior foi Tchekov, Pedro Salgueiro é certamente tributário de dois grandes veios de nossa literatura: Machado de Assis e Moreira Campos.

Raquel de Queiroz não conhecia Pedro Salgueiro quando, ao escrever o prefácio à obra completa do grande contista cearense (Moreira Campos: Obra completa, Maltese, São Paulo, 1996) afirmou que Moreira Campos não havia feito escola. Por uma dessas ironias da literatura, no mesmo ano em que a autora de O Quinze escrevia essa observação, Pedro Salgueiro fazia sua iniciação como contista e, de imediato, integrava-se na escola do grande mestre cearense.

Não foi por acaso que já no seu primeiro livro, O peso do morto, Pedro Salgueiro utilizou em epígrafe uma frase de Moreira Campos (de As vozes do morto). A reprodução daquele trecho que diz ser “possível acreditar nas vozes do morto”, presentes em tudo, indicava, a nosso ver, que Pedro Salgueiro não apenas fazia uma profissão de fé, mas, acima de tudo, confirmava, sem ambigüidades, a filiação estética de sua literatura. Em vez de negar influências, como faz muitos autores, confirmou-as; atitude que, no domínio das letras, sempre rendeu bons frutos. Basta citar o exemplo do virtuose do conto, Guy de Maupasssant, cuja ligação com Gustave Flaubert, seu “cher maître”, lhe valeu, durante dez anos, os conselhos do autor de Educação sentimental, fundamentais para o aprimoramento de seu estilo, a precisão de suas descrições, necessários para torná-lo uma referência universal na arte do conto, como Flaubert já o era na arte do romance.

As “vozes” moreirianas permeiam boa parte dos contos de Pedro Salgueiro, misturadas a um tom irônico de boa tradição machadiana e a uma concisão de linguagem que às vezes nos faz lembrar certos contos de Antonio Tabucchi. Seus personagens são os de nosso cotidiano, como também o são os de Moreira e os de Machado, sempre envolvidos por uma atmosfera mágica, dentro da qual, segundo observou Francisco Carvalho, “transitam figurantes e personagens que mais parecem criaturas fantasmagóricas acabadas de sair de uma oficina de pesadelos”. Essa oficina de pesadelos é o dia-a-dia de cada um de nós: do burocrata do Manual do funcionário público (que infelizmente não consta deste seu último livro) à noiva do marinheiro de Destino; do magricela do bar de A procissão ao barbeiro de Vislumbre.

Nas pinceladas breves com que Pedro Salgueiro descreve a penumbra dos benjamins, o deserto do pátio da igreja ou a chuvinha fina que molha a desesperança da noiva abandonada torna ainda mais opressivos os seus cenários e é tudo o que basta para nos introduzir no mundo de um sutil desassossego. É como se advertissem que o imprevisto de suas histórias é o quinhão de tragédia que pode caber a qualquer um de nós e que o cansativo repetir-se desses pequenos dramas é susceptível de surpreender apenas quem os sofre...

Neste livro de Pedro Salgueiro há 14 contos inéditos: Vislumbre, Procissão, Destino, Invasão, Esquecimento, Rasga-Mortalha, A passagem do Dragão, Acontecimento, Apuração, Quase-Noite, Madrugada, Aleine, A Profecia, Epopéia. Infelizmente, a editora não assinalou este fato, o que certamente contribuiria para facilitar os estudiosos da obra do contista cearense. Também não registrou a troca de nomes de alguns contos que já constavam de edições anteriores. Além disso, por se tratar de uma obra destinada a alunos de vestibular, poderia ter sido oferecida aos jovens leitores uma resenha sobre o autor, situando-o não apenas no contexto da literatura cearense, mas no panorama do novo conto brasileiro, onde valores à sua altura são, hoje em dia, extremamente escassos. Basta para isso conferir o livro Geração 90 – manuscritos de computador (Boitempo, São Paulo, 2001), antologia da qual participou Pedro Salgueiro, ao lado de outros contistas brasileiros.

Enfim, chamamos a atenção para a tendência à concisão dos contos de Pedro Salgueiro, tendência que se confirma e se acentua nos seus 14 contos inéditos, já citados. Certa vez, ele próprio confessou-nos, em tom de pilhéria, que esta tendência acabaria por levá-lo a tentar escrever sem palavras. No entanto, como a concisão, a precisão e o despojamento são marcas de uma boa literatura, pode-se afirmar que o autor de Os valores do inimigo caminha na estrada certa...