Feliz Páscoa

Nunca vi Páscoa tão fria.

Também, Pelanca, tu é um pé-de-chinelo. Enrolado nesses trapo, só pode tá com frio mesmo.

Não sou ladrão.

E quem disse que minha roupa é roubada?

Ô, Zé, tu taí com três casaco empilhado.

Ganhei, chinelão. Não sabe nem pedir roupa?

Chinelão é tu, gatuno nojento.

Que gatuno? Tu não sabe o que é Campanha do Agasalho?

Que campanha do caralho. Três casaco duma vez só? Isso aí é mercadoria de varal.

Cala a boca, chinelão.

Alguma madame pendurou os casaco no sol e se fodeu.

Lá vem o Teleque e o Gaguinho.

E tão bebendo cachaça.

Sempre juntos. Aí tem coisa.

Teleque, me dá um trago, que, com esse frio danado, o ladrãozinho de varal aí anda com três casaco empilhado e não dá um pros outro.

E aí, gente? Ô Zé, dá uma colher pro parceiro que está encarangando!

Pra depois me chamar de otário?

Tu é otário mesmo. Pode ter quinhentos casaco que vai continuá otário.

É isso aí, eu sou otário mas não tô batendo queixo.

Calma, gente. Ô sócio, pega uma lenha ali no mato. Um foguinho pra esquentar a carcaça é uma boa.

É p... pra já!

Ô Teleque, o Gaguinho é teu secretário?

É meu sócio minoritário.

O quê? Miniotário?

Minoritário, gente. É minoritário porque recebe uma parte menor. A gente trabalha junto e eu dou uma participação pra ele na hora de receber. Eu já estou no ramo há mais tempo, já tinha meus fornecedores, conhecia os depósitos de papel, sabia negociar com eles, aí...

Tá bom, tá bom, me dá essa cachaça, que garrafa não é licrofone.

Não dá, Teleque! Não dá, o Zé não merece, esse munhuca!

Brigadão, Teleque. Ô Pelanca, tu acha que um cara como o Teleque vai querer entrar no teu papo furado? Ele é um telequitual, tem estudo. Tu é um chinelão, que não arruma nem roupa pra vestir.

Chinelão é o teu pai, seu pão-duro filho da puta. Fica na tua, se não tu vai é virar cabide de casaco, cravado aí mesmo, nesse poste.

Gaguinho, não te assusta com esse invejoso. Pega aquela lata de lixo ali pra gente fazer o fogo.

É. T... Teleque, t... tu acha q... que é uma boa?

Funciona, sócio. Pega a lata, que a idéia é boa.

Teleque, me dá mais um trago. Tu manja esse negócio de Campanha do Agasalho?

Manjo. Vi um cartaz ali no albergue da João Pessoa. Vão começar a doação de roupa pro inverno, na semana que vem.

Tão vendo? Só na semana que vem! O Zé roubou os casaco, esse fominha! Passa um pra cá duma vez, seu mão-de-vaca!

Chega pra lá, que eu não sou teu pai.

Calma, gente. Taí a lata. Quem tem fósforo?

Gaguinho, pega um jornal ali da nave.

É, mas p... papel do c... carrinho, não, Zé. É mercadoria de v... venda.

Tão vendo? Quando é dos outro o Zé só qué pegá!

Calma aí, gente. Pega aquelas folhas ali pra nós, Zé.

O cara tá de marcação comigo só porque não tem culhão pra descolá uma roupa.

Quem não tem culhão é tu, que a tua mãe comeu eles com farofa.

Eu não vou perder meu tempo com esse chinelão.

Viu só o borra-bota? Agora foi lá buscá folha, só de cagão. Me dá mais um trago.

Gente, estamos na Semana Santa. Vocês viram como está a rua da Praia? Cheia de ovo de Páscoa. As lojas estão viradas em papel celofane. É muita grana que os abonados gastam com chocolate.

É bom um ch... chocolate. J... já faz um t... tempo...

Pronto. Aqui tem folha prum incêndio.

Vai na manha, sócio, senão o fogo não pega.

É, ac... acabou o f... fósforo.

Que merda, Gaguinho, tu não sabe nem fazer fogo? Eu te trouxe um monte de folha.

É, mas elas t… tão t... tudo molhada.

Vem cá seu encasacadinho filho da puta!!! Tu mijô nas folha!!!

Sai fora, Pelanca!!!

C... cuidado a f...

Sócio, ligeiro, me ajuda com o carrinho! Vamos se mandar daqui!

T... Teleque! Espera um p... pouco.

Ô, sócio, só agora tu me aparece? Não vê que nesses entreveros é melhor sair fora?

É. P... pois é.

O que foi que aconteceu?

O P... Pelanca p... pregou o Zé c... com a adaga no p... poste.

Pregou?

É. P... pelo p... pescoço, p... pra não estragar o c... casaco.

Eu não sei de nada. De amanhã em diante, e por uns três meses, não passo mais no parque.

É.

Feliz Páscoa, sócio.

F... é...


GUIDO MARTIN KOPITTKE
nasceu em Lajeado-RS, em 1953, e viveu parte da infância em São Sebastião do Caí, terra de seus avós maternos. É graduado em Engenharia Elétrica pela UFRGS. Em 2003, incentivado pelos amigos e familiares, ingressou na Oficina Literária de Charles Kiefer. Publicou "Na Companhia das Tias".