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Ilustração: Sarah Afonso
(Portugal - 1899 - 1983) |
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Duas meninas
Marina, mas que lugar é esse? Um jardim secreto, Lídia. Não
precisa ter medo, é um secreto bom. É só uma brincadeira,
brincadeira de duas meninas de 13 anos, nem adultas, nem
crianças, Lídia. Calma, calma, é aqui, pronto, é só isso, agora
deitamos na relva, sim, isto se chama relva, se quiser pode
chamar também de grama, mas eu prefiro relva. Eu achei relva uma
palavra bonita, vi num poema outro dia, acho que foi naquele
livro que você me emprestou. Eu também tenho lido muitos livros
Lídia, muitos, mas quantos significa muito? Lídia, seu nome é tão
bonito, quem escolheu foi seu pai ou sua mãe. Foi minha mãe. Sua
mãe também é linda, Lídia. E você é uma doll, lembra-se o que é
doll? É boneca. Isso mesmo. Você não acha que parece uma doll?
Não sei. O Rodrigo não disse isso a você, é Rodrigo mesmo o nome
dele, não? Deixe de ser boba, Marina. Eu não sou boba, eu vi, ele
vive olhando pra você. E daí? Daí nada, ele está apaixonado por
você. E você, você está apaixonada por ele? Eu não estou. Mas
sabia que ele te olhava, não sabia? Esqueça isso, Marina, eu não
quero falar do Rodrigo, está bem? Hum hum, você gostou do jardim
secreto? Era da minha avó, ela morreu, coitadinha, agora ninguém
cuida dele, enquanto meus tios estiverem se esfaqueando por causa
da herança vai ficar assim, abandonado e triste. Nada mais triste
que um jardim abandonado. Minha avó era um anjo com muitos
defeitos, sabe, Lídia? Você se lembra dela? Eu me lembro, ela era
muito chique. Ela me chamava assim: Marina Morena! Porque tem
mais Marinas na minha família, sabe? Não é por causa da música?
Ah, é, tem a música também. Quando eu era pequena eu não queria
que ninguém morresse. E agora você quer? Não, não é isso, quer
dizer, se a professora de matemática morresse eu não ia me
importar. Será que no ano que vem nós vamos estudar na mesma
classe, Marina? Vamos. Como você pode saber? Eu sei sabendo,
Lídia, eu repito tanto o seu nome porque o acho lindo, linda
Lídia. Viu que eu quase fiz um poema? Você chama a isso de poema?
Está bem, era muito pobre, depois vou fazer um pra você, bem
bonito.Você faz poemas? Não, mas vou fazer um pra você. Você
escreve naquele diário que eu te dei? Sim, toda noite. E essa
noite, o que você vai anotar? Ora, ainda não sei. Lídia, eu posso
te dar um beijo?
LEILA SILVA TERLINCHAMP é professora de línguas e tradutora.
Mantém o blog: http://cadernos-da-belgica.blogspot.com
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