Dois no escuro

Fique aí! E não tente me tocar! Prefiro assim, de longe. Intimidade demais acaba matando o tesão. Também não abra a boca. Apenas me escute. Ora, se eu fosse um qualquer, se gostasse de sexo convencional, nunca teria arranjado um amante pela net. Sou curioso, por isso marquei este encontro. E não se dê o trabalho de ficar pensando no que você jamais vai saber de mim. É inútil. Sou veterano e devoto de São Tomé. Não era, mas fiquei arredio. Sim, porque vocês são traiçoeiros demais, enviam fotos de outros caras, montam vídeos sedutores, vendem gato por lebre. Pessoalmente, posso ver se você corresponde à minha encomenda, ou seja, se é bem comum. Tire a roupa, quero conferir o resto! Isso mesmo que você ouviu! Detesto que me toquem, mas adoro ver corpos despidos. Não, não me excito mais. Simplesmente, vou catalogando. É mania, sabe: coleciono stripteases. Não! Já disse, não tente se aproximar ou me tocar! Eu me satisfaço em ficar olhando. Olhando, entendeu? Olhando! E acenda a luz do abajur. Apague todo o resto. Vamos começar na penumbra. Depois apagaremos tudo, mas as janelas deverão permanecer abertas, para que o néon lá de fora inunde o quarto e nos banhe de azul. Que foi? Olhou para a porta, por quê? Está com medo de mim? Acha que surtei? Que não digo coisa com coisa? Ih, relaxe; não vou arrancar nada além de suas roupas e um pouco da sua virilidade. Ora, não ficou bem melhor desse jeito? Viu como não tem nenhum mistério? Agora, comece o show! Que aconteceu? Acha que vou ficar só nisso? Que envelheci antes do tempo? Que já me contento com migalhas? Pois pensou errado! Quero muita ação, baby! Endureça a vara, garotão, e toque punheta em minha homenagem! Gritando bem alto que me ama! E que será todinho meu enquanto eu quiser! Sim, todas essas mentiras deliciosas que a gente inventa quando quer muito fisgar o outro! Mas não tenha tanta pressa. Paguei pela noite inteira, não foi? Sem pechinchar, desembolsei o que você achou que valia, até o último centavo. Agora, faça o que eu mandar, e só o que eu mandar. Afinal, o mundo é dos mais obedientes, dos mais conformados, dos que não se atrevem a subverter a paisagem! Percebe como a escuridão nos tornou infinitamente mais leves? Mas não se engane, filhinho, pois nossos corpos ainda estão aqui, fazem parte dessas trevas que invento às vezes para saciar minha libido. Estamos livres da mediocridade de nossos corpos, é como se nossas almas se desgrudassem da carne e agora, amotinadas na escuridão, gozassem o cio feroz dos que foram capazes de mergulhar nas entranhas do próprio desejo. É claro que não sou uma maricona tresloucada, nem poeta decadente! Mais respeito, mocinho! Eu apenas rabisco palavras, frases, versos para diluir a vida, torná-la menos corrosiva. É dom e também maldição. Dom, porque não peço, não faço força, e essas imagens, frases, delírios surgem na minha cabeça e, de vez em quando, vão escorrendo da ponta dos dedos para a tela do computador. Maldição, porque seria bem mais fácil ter nascido do avesso, com a cabeça vazia e o coração mais iludido. Muito prazer, rapaz, sou de Áries, com ascendente em Gêmeos e lua em Capricórnio. Filho de Iansã. Meu anjo da guarda, Haziel. Trilhei sozinho e a pé o caminho de Santiago. Aprendi a ler o futuro nas xícaras de café amargo. O passado, nas garrafas vazias de vodca. E você? Aposto que é de Libra! Mas e o ascendente? E a lua? Não sabe? Também aprendeu a duvidar de tudo? Pois faça como eu no amor: comece a blefar! Agora, venha para perto! Mas sem roçar em mim! O calor do outro me basta! Só o calor! E o escuro nos protegendo... por cuncta semper saecula! Amen!

FELIPE GRECO nasceu em junho de 1967 em Uruguaiana (RS), porém reside na cidade de São Paulo desde 1985. Tem dois roteiros filmados: Atração satânica (1987) e The ritual of death (1990). Em 1991, venceu o concurso literário promovido pela Fiat do Brasil, com o conto "Anjo provisório". Em 2001, publicou o livro de contos Caçadores noturnos (Desatino, SP); em 2003, O coveiro, uma fábula marginal (Desatino, SP). Em 2004, graduado em Relações Internacionais, escreveu o artigo "Getúlio Vargas, um político camaleônico", publicado na coletânea Política e conflitos internacionais (Revan, RJ). Colabora ainda com revistas, escrevendo diversos contos.