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Contos
Leonardo Barbosa Rossato
êxtases
Dançando popmente: cores/amores agitados pela adrenalina
sintética do êxtase que engolidos foram com águas nada minerais,
o que desvirtuou os olhos e despenteou os cabelos e fez trincarem
os pés e o corpo se despedir das roupas, aos poucos, fabricada
que foi, para ser tirada e naquele momento, pisoteada,
amarfanhada sem dó porque era símbolo de repressão como tetos
relógios pais: coisas, enfim, pra se esquecer acompanhado por
beijos na boca dela e do sol, já que eles estavam que se
esbaldando com a sensibilidade à flor da pele que a música batia
e eu não tava nem aí pra
Porra. Beijava-os. Beijava-as. Sentia seres humanos habitando meu
perímetro cósmico-sensual.
Água por todo o corpo, os pêlos dos braços saltando dançando
sendo anfetaminados cada gesto: teatro sublime.
Ela no carro psicodélico de asinhas de anjos e vidas passadas,
ela cheirando bem, ela perfumando o ar desgastado pelo vento
incomodante, ela sentada em mim que mordiscava seu peito, ela me
possuindo, ela mordendo minha orelha, ela com seus peitos
durinhos roçando no meu, ela se perdendo em mim: prazer mútuo
perpetuado no suor, ela ficando nesse flash: fotografia
sensorial.
(acho que ela se apaixonou por mim quando falei que conheci
Borges faltando à aula de português porque queria ser escritor,
lendo o Aleph, olhar perdido, disperso, no museu da cidade dantes
da metrópole parque industrial, brilhando incerto, desejoso por
amanhãs: aquela linda sensação de que o presente não é suficiente
sendo)
Na janela, o enquadramento torto assumia a galera dançando e
partilhando de outros verbos e foi aí que prometi escrever um
livro prela quela emendou rindo que de tão canalha egocêntrico eu
colocaria uma epígrafe como: “a mulher que eu estiver amando no
momento” queu retribui com beijos clitorianos.
Conheci
o amor
o êxtase
o sexo
depois viramos na esquina do fim do mundo
e não estávamos nem aí.
summertime
, crespusculando nossos olhos como, com sax e cores, vermelhos
d´Ella, cantando gemendo assoprando poesia nos nossos ouvidos,
lívidos, saturninos de nada que pairavam nos tons bons da voz
vadiando vazio gostoso presente lindamente terminável na tarde no
vento forte que o carro invadia nos túneis, inúteis que eram, de
falta de metáforas. Rush little baby, don´t you cry eles me
diziam e iam pensando sendo queu era uma idéia-fantasma
incrustecendo no carro e o Edu, com também os olhos
vermelhoarroxeados de jazz & baratos, de amor sem dor, na tarde
tardando um passo (como nuvens?como nós?como deus?) acima dos
pobres mortais, morais que sempre foram, da falta de vulgar
transcendência que ilumina qualquer indiferente andar, vagabundo
que seja: mágico triste azul
quando a noite caiu, caíram também cores lágrimas crenças ideais
poesias poças d´água
o desejo é a única coisa que revoluciona de verdade
juventude
Descemos a rua rimbaudiamente, jovens joviando, tirando sarro dos
outros na rua, bebendo algo feito para não se lembrar e
esquecendo das responsáveis chatices de segundas-feiras. Só sou
feliz no meu nomadismo, entoei querendo fazer a nossa revolução
das mochilas. Líamos os marginais paulistas que copiávamos ao
andar: Roberto Piva, Cláudio Willer, Franceschi, Haro e outros
que recitávamos de cor, pois adolescemos literariamente com esses
poetas que tiravam fragmentos de sangue da pele das palavras;
beijos e há braços furtivos embalavam nossos pensamentos que,
mesmo ali não estando, solidificavam-se nos nossos ossos sem
prestarmos atenção. A consolação não nos consolou como os
cachecóis que nos protegiam dos vampiros que se perdiam nas
calçadas sujas e quebradas. A cidade é e sempre foi uma merda: o
que a torna colorida e bela e dos cantos perdidos: sonhos, são
esses olhos virgens de desilusão que não reparam nas sujeiras das
desesperanças, mas foda-se, são, ao menos, felizes pracaralho, e
criam, em si, mitologias de personagens que, espero, continuar a
criar no teatro deste sábado que, mesmo se perdendo na loucura
desmedida de tantos sábados, fica um pouco guardado nos óculos e
nas veias. Ainda tenho um pouco de medo do desconhecido e penso
nas coisas antes de dormir. Ainda bem.
xadrez de coincidências
e se no futuro, este objeto incerto, não passarmos de fantasmas
cinematográficos (poetas da luz da saudade) e nos debruçarmos
apenas nos braços e pernas dos ventos das aventuras (até as
literárias)?: prefiro não ver-te/ sentir-te/ ser-te: se essa
´subordinação bonita ao presente´ não for a lei dos nossos passos
ou a cor dos nossos olhos ou a textura de beijos e abraços
perdidos na grandeza pordosóica da cidade
que a nossa solidão se comunique e se entranhe de estranhas
coincidências: de olhares, te tocares, em ti perder-me: em tudo
que nos cerca (que nossos orgasmos sejam nossas explosões
estéticas) e que nem palavras e pensamentos e artes de teu corpo
torto morno sereno consigam entender estender: ser! esses
momentos
continuemos, então, fazendo poesia dos restos mortais de nossas
orgias ímpares de dyoniso sob a noite que nos habita: já beijos
demorados não podemos mentir
road movie
No nosso road movie de sexta-feira sodomizado pela lua crescente
debaixo de cabeças andantes: extasiante nada estanque estava
nosso carro de tia rica enquanto deixávamos a terra da garoa sem
garotas pra adentrar o pensamento paradisíaco que possa ter
alguma praia perdida nesse paísão (la bourgueoise paulistaná me
enche o sacô com seus boys and girls thinkando que tão em newyork
ou london), nossa simpatia pelo diabo foi adentrando aos lapsos
de rastros da maria joana que invadia nossos pensamentos,
beatizando tudo: beatificando o mundo! Então, o quarteto
fantástico – el narador, Carlos, Eduardo e letícia deixavam as
pedras rolarem quase quietos com o estrondo visual que o fim da
cidade nos incorparara, fechamos os olhos pra não sermos
sucumbidos pelas feiúras paulistanas as quais fugíamos, e
ficávamos (senão) a lembrar de bairros e ruas e cinemas e tiatros
que amávamos, precisávamos daqueles dias longe da pólis maquiada
com cartazes de políticos finitos. Somos (sol)itários. Somos sóis
reluzindo tesão pela estrada: que ela nos venha e nos coma e nos
foda e nos seja e faça com que em transe a desejemos e possamos
alguns dias, com ela ainda queimando, sonhar com a pintura dos
nossos olhos refletidos uns nos outros.
Ah! Adorável frivolidade dos moribundos!
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