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Cidade Oculta
A chuva faz-se de gotas na janela pasmada do meu quarto. O céu
cinzento nega a luz à cidade. Lá fora vive uma Lisboa em paz
armada com o seu pequeno mundo. Espreito pelo vidro pingado e
encontro numa outra janela um suposto casal. Ela tem cabelos
densos acastanhados, pele clara, um sorriso aberto e por momentos
parece-me feliz. Ele tem um ar austero, óculos que lhe carregam
as sobrancelhas grossas, mas sorri por ela.
Lá dentro mora uma cidade oculta, menos cinzenta que a minha. Ao
que parece preparam-se para sair e perderem-se na chuva. Ela tem
ar de Sofia e ele de Afonso. A Sofia da pele alva e o Afonso do
sorriso consequente. Ele toca-lhe a medo, mas depressa o perde,
quando a mão dela procura a dele. O roçar de peles distintas
implica o olhar fixo. Acontece a sombra do beijo. Os cabelos dela
conhecem as sobrancelhas dele já faz tempo. Aquele tempo que não
se mede em segundos ou minutos, o tempo do déjà-vu recorrente, do
sentir que é. Os lábios são interrompidos pelo irritante som de
um telefone dos antigos. Sofia corre em passos curtos até à sala
e Afonso cola-se à janela seguindo com o polegar os pingos de
água que a pintam.
Então recorda-se do Renault 12 do pai onde ganhou o vício de
seguir gotas alheias com os dedos ainda rechonchudos. A década de
70, onde ouviu falar de políticos carunchosos que cessaram num
dia maior de Abril, o vencer do poder da palavra e da vontade,
como dizia a mãe. O Vilar de Mouros, outra revolução, mas esta lá
em casa. O mano mais velho teimou em querer ir ao festival,
embora a custo, o discurso politizado lá lhe valeu a ida. E
ainda, a primeira e marcante ida ao cinema de adultos, o cinema a
sério, onde viu “Bonnie e Clyde”, que gerou uma busca diária de
“a rapariga”, aquela com que iria formar a dupla de "outlaws"
para fazer concorrência ao par que no filme é trespassado por uma
chuva de balas.
O momento de Afonso é interrompido por Sofia, que lhe agarra a
cintura e encosta a cabeça ao de leve nas suas costas. Afonso
procura as pequenas mãos da sua Sofia. Acabam por sair de casa, à
pressa, a correr de mãos dadas por entre a chuva “molha todos”.
Ela, em pés de lã, procura desviar-se das poças de água que mais
parecem pequenos lagos. Ele faz questão de os pisar na tentativa
de salpicar Sofia. Ouvem-se pequenos gemidos de menina que
acompanham cada splash! E a risada consequente de Afonso
acontece. Seguem pela calçada, apressados, por entre as cidades
dentro da cidade. Sofia olha Afonso e perde-se nele. Tudo pára
nesses momentos, o fixar de determinada expressão alheia dele e o
guardar dentro dela de um sorriso, ou até de um bocejo. A
expressão física dele foi das primeiras coisas que a agarrou, a
forma como ele mexia as mãos, como se fosse um ser invertebrado,
quando falava; as caretas, de uma cara cedo prometida a rugas
fáceis, que sistematicamente fazia; a forma como se assoava com o
lenço que tinha
as suas inicias bordadas, dado pela mamã; ultimamente era nas
mãos grandes de Afonso que Sofia encontrava escondidas sempre as
suas.
A minha vista não os alcança mais. Equaciono as mais diversas
realidades, o passo apressado de encontro a um autocarro que já
partiu sem eles, o apanhar do táxi, eles completamente ensopados
seguem viagem, enquanto se secam em beijos. A certeza ganha
morada em mim quando sinto que a cidade mudou com eles, e com os
demais que existem como eles. A paz armada cai por terra, dando
lugar a tranquilidade do amor.
CATARINA MEDINA nasceu em Coimbra em 1982. É estudante de
Ciências da Comunicação, variante Jornalismo na UAL. Obteve a 1ª
Menção Honrosa no concurso literário Lisboa à Letra 2005,
organizado pela Câmara Municipal de Lisboa, na categoria de
prosa. Publicação "Um Eléctrico chamado Lisboa" na brochura
"Trabalhos premiados Lisboa à Letra 2005". Publicação dos textos
“Luz Casta” e “Sangue Real” no suplemento semanal DN JOVEM em
2004.
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