César.ini

Era um dia de meias tintas. Pela manhã chuviscara uma chuvinha aborrecida, daquela que na vez de molhar vai molhando, como alguém lá de cima dos últimos andares estendesse, cheio de calmas e predicados, uma finíssima carpete de água. O sol andava jogando às escondidas com esse algodão sujo liquefazendo-se com paciência sobre a gente e o mar, até lá longe, ao fim dele. Aí pelo meio do dia deixou-se de brincadeiras, o sol, e acendeu, morno e esbranquiçado, as ruazinhas e vielas da vila vaporosa. Almoçara bem nesse dia, como é meu bom costume, e não querendo abandonar-me à calanzice digestiva, saí para um café.

A vila suava ainda as águas da manhã, sossegada. Fui instalar-me no Café Central, amplo e comedido, sabedor das coisas da vida, de ali estar assim quieto há tanto tempo, paredes lavadas de ouvidos abertos às indiscrições das velhas, que àquelas horas sornas ali se deixam ruminando agruras, graçolas e descafeinados. Para mim era um café, faz favor, à mesa de todos os dias, junto à janela larga que dá para as estreitezas da rua de Santo António. O sol perpassava o vidro em raios finos, engrossando o fumo da beberagem quente e dos cigarros, uns portugueses de mistura europeia, como agora lhes chamam. Ao fim de dois ou três, chupados sem remorso, esvaziara o maço de papel amarelo. A máquina do tabaco só vendia modernices, e a tabacaria ali à esquina ainda não abrira do almoço. Fui sentar-me, ensolarado e mole, num banco sobre a doca arrumada dos pescadores. Ali estive um bocado, embriagado do mar espumoso e seu rumor entorpecido. As pálpebras pesavam-me, como a um gato gordo de barriga cheia. Dormitei.

― Vai um cigarrinho? ― Despertei sem sobressalto. A voz que me interpelava era suavíssima, meio nasalada, grave e limpa, voz de mensageiro de boas novas. Olhei-o de viés, desconfiado da oferta. Era um tipo escanifrado, como de ossos cobertos só da pele tisnada e amarrotada, aí pelos sessentas, o corpo sumido no fato branco de linho, engomado e impecável, um chapéu de abas claro sobre os óculos escuros e a barba grisalha bem aparada. O filtro branco dum cigarro cintado de castanho-pálido saía do maço de papel amarelo que me estendia.

― Muito obrigado ― agradeci, agarrando o rolinho de tabaco. Antes que alcançasse do bolso do casaco o isqueiro, já o tipo segurava aceso um Zippo vermelho, rebrilhando de sebo. Fumámos. Não sabia bem que ponta havia de puxar à conversa, não tanto pelo meu proverbial recato, mas por me intimidar grandemente o garbo daquela figura miúda. Não parecia ser de jogar conversa fora, pelo que lhe soaria tonta, decerto, qualquer observação inconsequente sobre a meteorologia manca do dia. Ainda assim, sem mais tema e embaraçado pela coincidência dos gostos de fumo, deixei que escapasse

― Dia de meias tintas, este.

― Antes assim que pior ― disse, devolvendo-me a impertinência do comentário, e rematou com um som curto de interrogação, gutural e engraçado, como pedisse assentimento para os seus motivos ou desafiasse a contrariá-los.

Chupei mais um bocado de fumo, mais embaraçado e sem achar outras pontas à conversa que queria, para saber mais do distinto homenzinho que fumava dos meus portugueses europeus. Estando nisto, os dois assim queimando tabaco e fitando o fim do mar, passa defronte ao banco uma brasileirinha jovem, pernas imensas de pele morena e anca larga a descoberto, cheirando a côco, cheiro fresco, os peitos baloiçando afoitos, como não houvesse mão neles, ao gosto do passo mastigado das chinelinhas. E para meu espanto e maior embaraço, vem sentar-se na perna escassa do velho, pendura-se-lhe ao pescoço, tira-lhe os óculos escuros e beija-lhe um olho, vagarosa e delicada.

― Boa tarde, vovôzinho ― chilreia a brasileirinha num sotaque dulcíssimo.

― Boa tarde, menina. A menina há-de ser a desgraça de todos os mamíferos. Tivera eu a fortuna de ser seu avô e açoitava-lhe esses pãezinhos de Mafra cozidos tão gulosamente, a ver se ganhava decoro e não saía para a rua nestes preparos.

E sem mais que um sorriso de contentamento pela fineza do galanteio, beija-lhe o outro olho e põe-lhe os óculos escuros, com os mesmos vagares e delicadezas, levanta-se e retoma o passeio mastigado.

― São um petisco, estas brasileirinhas ― disse ele, dando conta da minha atrapalhação, e rematou com o mesmo som breve inquisitório, como me espetasse um alfinete.

― Sim… ― retorqui, ainda por recompor. Ofereceu-me a mão estreita de dedos longos, bem cuidada, e apresentou-se:

― Deus. Muito prazer.


JOÃO INÁCIO PAIVA
Nasci em 1978 na fábrica de lisboetas de São Sebastião da Pedreira. Notei-me sempre um apelo velado das coisas da arte, o que quer que isso seja não me interessa por aí além, que fui engordando às escondidas como quem aleita um gatinho que se não pode ter. E ele há um ano, mais coisa menos coisa, que me desavergonhei e mandei às malvas o empregozinho em empresa meio pública meio privada, é conforme se lhes arrima, para assumir na praça, alto e a bom som lá chegaremos, a minha sexualidade literária. Não publiquei nada, é pena mas não chega a ser dramático, temos tempo, descontando, como devo, os excertos duma estória um bocado alarve estampados no DN Jovem, que foi suplemento que já deu uvas, poucas e de que se fez daquele carrascão do piorio, mas deu. Escrevi uma peça de teatro, a que chamei com grande presunção A Árvore Das Pipocas, que julgava ter conseguido impingir à Companhia de Teatro de Braga ― a única que me respondeu ao quilo de imeiles ―, mas agora o director parece que não me fala. É pena, porque qualquer dia não tenho sequer para um moscatelzito e isto há que ir adocicando as ideias. Mais me quer parecer que assim não vou muito longe, que em Portugal apreciamos sobremaneira a coitadinhice e eu para esse peditório não dou. Paciência. Temos tempo, haja saudinha.