CAJAMARCA
AS FORTALEZAS DE OURO

Samir Machado


I

As armaduras eram desconfortáveis, desajeitadas e pesadas, o caminho através da montanha, íngreme e escorregadio. Num passo em falso, uma das carroças caiu no abismo junto com o cavalo, mas o cavaleiro se salvou. Nove soldados já haviam desertado logo no começo. As fortalezas de pedra do inimigo erguiam-se assustadoras em posições estratégicas nos picos, mas estavam vazias.

Francisco Pizarro era analfabeto e inculto, mas sabia comandar seus homens. Não demonstraria medo frente ao inimigo, frente aos seus soldados ou a quem quer que fosse, não importava quantos fossem. E eram muitos. Eram demais. Fileira após fileira, homens após homens, barracas após barracas, espalhados pelos flancos das encostas, em pontos inacessíveis ou à margem da estrada, centenas de milhares de soldados Incas observavam os espanhóis atravessarem em silêncio a estrada rumo ao centro de Cajamarca. Sua passagem silenciosa dava-se unicamente pelo sucesso em lograr o embaixador Inca, com falsas promessas de paz. Pizarro não queria paz. Mas ainda não era o momento de desejar a guerra.

II

Em Cajamarca havia água quente e fria. Atahuallpa escolhera a cidade para descansar após a vitória sobre seu irmão Huascar, agora que não havia mais nada entre ele e o almejado posto de Sapa Inca. Não teve clemência com o irmão: fora amarrado a um poste, assistiu ao assassinato de suas esposas enquanto seus amigos e conselheiros eram decapitados, e os corpos pendurados ao longo da estrada para Cusco. Huascar estava derrotado, humilhado e aprisionado, fora de seu caminho, e Atahuallpa quase poderia lamentar a falta de um oponente quando recebeu a notícia da chegada dos barbudos. Mandou embaixadores, que retornaram com promessas de paz da parte do oponente. Segundo o embaixador, aqueles que vinham pelas montanhas não eram soldados, portanto não ofereciam riscos. Duzentos Incas bastariam para capturá-los e sacrificá-los à Inti, e os cavalos serviriam para iniciar uma criação. Então, que viessem, disse Atahuallpa. E quando chegassem, veriam o seu esplendor e poder e tremeriam de medo como covardes ante a sua superioridade.

Sentado em seu tamborete de ouro, ao lado de suas mulheres e dignatários, ele recebeu o representante dos barbudos, que veio a cavalo. Que animal fantástico aquele, pensou Atahuallpa, o barbudo e seu cavalo! Mas ainda assim um animal de deuses fracos, e obviamente domesticado, portanto não temeu quando o espanhol o trouxe para perto, e cada vez mais perto, até que o hálito do cavalo fizesse balançar as franjas de seu emblema real.

Atahuallpa não temeu, e se temeu, não demonstrou. Aquela era a postura do guerreiro. Se parte de sua atenção estava voltada para o espanhol e seu cavalo, parte estava voltada para seus próprios dignatários, alguns tremendo de medo com o animal.

Com a ajuda de um intérprete, o espanhol gabou-se de suas habilidades guerreiras. Disse que os Incas no litoral lutaram como mulheres. Atahuallpa riu: ali estava um homem contra o qual valia a pena lutar. O espanhol continuou, dizendo que um único de seus cavalos era o bastante para conquistar todo o império. Atahuallpa sorriu, observando-o de canto de olho, reconhecendo ali um homem de coragem. Quantos chegariam frente ao Sapa Inca com tal arrogância? Foi convidado a visitar o acampamento espanhol no dia seguinte, no centro da cidade. Aceitou. Depois que o espanhol partiu, chamou seu general, Rumiñavi, e mandou que fosse para norte com cinco mil de seus homens bloquear a estrada. Os espanhóis deveriam ser capturado, e não mortos. Inti, o Deus-Sol, receberia suas mortes mais tarde, em sacrifício.

Então Atahuallpa voltou sua atenção para seus próprios homens. Na mesma tarde, mandou executar todos os que demonstraram medo.

III

– Ele vem – respondeu Henrique De Soto, ao retornar. – Pela manhã, ele vem.

Pizarro observou as fogueiras nos acampamentos Incas e comentou que não havia mais volta. Os soldados já estavam se confessando com os capelões.

– Como ele é? O Índio? – perguntou.

– Mediano, não muito gordo, expressão severa, olhos vermelhos – respondeu Henrique. – Os índios tremem perto dele. Dizem que ele mata quem demonstra medo.

– Está certo – concordou Pizarro. – Ninguém precisa de covardes.

Pizarro distribuiu seus homens pelos prédios ao redor da praça. A manhã veio, mas Atahuallpa não, e os homens começaram a ficar nervosos. A tarde veio, mas Atahuallpa não, e o silêncio da espera tornou-se o som mudo do medo. Alguns esvaziaram suas bexigas nas próprias calças de tamanho pavor.

Ao anoitecer, ouviram os tambores.

– Camaradas e amigos! – bradou Pizarro, saboreando o medo em seus homens. – Nós sobrevivemos ao mar! Nós sobrevivemos à selva! Nós sobrevivemos às montanhas e aqui nós estamos! Hoje, façam de seus corações fortalezas, pois não possuem outros!

E então Atahuallpa veio.

Imaginava que, no escuro, os espanhóis não poderiam montar em seus cavalos, e pensou que aquela seria a melhor hora. Oitenta homens de túnicas azuis carregavam a liteira do Sapa Inca, forrada de penas coloridas de papagaios e decorada com placas de ouro e prata incrustadas de jóias. A própria roupa de Atahuallpa era feita com fios de ouro, e de ouro também era seu escudo. Na dianteira da comitiva, os soldados vinham com librés xadrez, e todos traziam á cabeça coroas de ouro e prata. Músicos, flautistas e tocadores de búzios cantavam e dançavam ao ritmo da marcha louvando o Filho do Sol, Atahuallpa, mas para os espanhóis era como se as portas do inferno fossem abertas e delas emanasse música. Ao todo cinco mil Incas da guarda imperial o acompanhavam, enquanto os espanhóis não somavam mais do que cento e sessenta. Então Pizarro sorriu.

Porque os Incas vieram desarmados.

IV

Um soldado veio informar a Atahuallpa que os barbudos estavam escondidos nas casas ao redor da praça, e o soberano riu: eram uns covardes. Ao entrar na praça central, a encontrou deserta, exceto por um homem solitário no centro.

Era um padre. Um frade dominicano solitário, tremendo tanto que mal conseguia segurar nas mãos o crucifixo e o missal, e sua voz oscilava ao falar.

– O que quer este camundongo?

– Que nos convertamos ao Deus dele.

Arahualpa riu, mas deu ao frade a chance de falar. O frade gaguejava. Era seu dever executar uma formalidade exigida pelo conselho real da Espanha: que todo pagão deveria ser convidado a se converter antes ter o sangue derramado, e o frade explicou, de forma resumida, a estória de seu Deus. Quando terminou de falar, Atahuallpa apontou para o sol se pondo e disse:

– Tu dizes que teu Deus foi levado à morte. Porém o meu está sempre vivo.

O frade engoliu em seco. Entregou-lhes um missal, que Atahuallpa observou com sincera curiosidade: era aquela coisa pobre e sem valor o huaca dos barbudos? Era naquilo que residia o espírito de seus deuses?

– Esta coisa não me diz nada – disse Atahuallpa, largando o missal.

O frade dominicano saiu correndo e gritou:

– Acabem com eles! Matem! Matem! Eu concedo a absolvição a todos!

Então ouviram trovões. E à eles seguiram-se explosões que despedaçaram os soldados Incas. Os cavaleiros saíram das casas com suas penas de aço em punho, e os Incas não entenderam sua utilidade, até vê-las decepar seus punhos ao tentar erguer a liteira do rei. Atahuallpa caiu. O chão era uma poça de lama formada de sangue e terra. Em meio à carnificina, Pizarro gritou que mataria aquele que machucasse o Índio. Foi atingido na cabeça por um de seus próprios homens por acidente, mas conseguiu chegar a Atahuallpa. Arrastou o Filho do Sol até uma das casas enquanto cinco mil Incas eram mortos sem que nenhum espanhol fosse ferido.

V

Atahuallpa moveu sua rainha e anunciou xeque-mate.

– O senhor tem filhos? – perguntou De Soto, derrubando a peça de seu rei.

– Claro que tive! Que pergunta extraordinária. – Olhou para De Soto como se duvidasse de sua sanidade. – Jamais gostei muito de nenhum deles, e felizmente a maioria morreu e o resto eu deserdei. Prefiro os filhos dos outros, são muito mais agradecidos. Agora, do que estávamos falando?

– De como o senhor encheria esta cela de ouro e prata. Duas vezes.

Atahuallpa sorriu. Vinte dias lhe bastaram para aprender a língua de seus captores. Podia ler em espanhol, e isto era mais do que Pizarro conseguira em toda sua vida. Atahuallpa estava impressionado com a técnica de atribuir desenhos aos sons, já que seu povo não possuía escrita. Aprendera até mesmo a jogar xadrez, e bem o bastante para impressionar os espanhóis. Agora explicava a De Soto sobre o volumoso resgate em ouro que estava disposto a pagar.

Rumiñavi estava ao lado de seu rei. Fora autorizado a visitá-lo, assim como as esposas e os criados alojados nos cômodos próximos. Mas aquelas ordens ele não compreendera. Encher o cômodo de ouro? Era uma coisa como outra qualquer, como uma árvore, uma pedra, como grama. A água corria das montanhas, o ouro do Sol. Quem se importava com coisas que já vinham prontas da natureza? Muito melhor era um tecido com padrões complexos, levando horas e mais horas de trabalho para ficar pronto. Ali havia valor, ali havia o toque único da complexidade da mente humana. Mas o ouro?

– É apenas o suor do sol – disse.

VI

Pizarro sabia que tinha um problema em mãos. Havia ouro demais: seis toneladas deste, e mais doze de prata, que dividiu apenas entre ele e seus homens, mas quando a notícia se espalhou, as pessoas vinham sem parar, todas queriam partilhar do seu tesouro. Enquanto Atahuallpa estivesse vivo, toda pilhagem seria considerada parte do resgate, e todos os olhos do mundo estariam voltados para o seu ouro. Era incrível que houvesse tanto, e não entendia como aqueles índios ignorantes não lhe davam valor. Afinal, era ouro. Não era algo que pudesse ser feito pelo homem, e se pudesse, como pretendiam os alquimistas, perderia o seu valor. O ouro era único. Era a beleza dourada que confirmava a presença de Deus na terra. O ouro era vida. Era tudo pelo que valia a pena viver e lutar.

E era seu.

Para preservá-lo, Atahuallpa precisava morrer. O rei não se importou com a notícia, na verdade, já a esperava. A morte garantiria a imortalidade, mas apenas se seu corpo fosse mumificado. Não, lamentou Pizarro, ele seria queimado na fogueira, era assim que se fazia com os pagãos. Não havia nada que pudessem fazer contra isso. Então, Atahuallpa chorou.

– O que eu fiz, o que fizeram meus filhos, para merecer este tratamento?

– Se você se converter, poderá ser enforcado – propôs Pizarro. – Quando o padre vier, aceite o que ele diz. Não importa se será sincero ou não, apenas aceite, e eu lhe garanto que seu corpo será mantido.

Atahuallpa aceitou. Na tarde em que foi amarrado ao poste, confrontou o mesmo frade dominicano que tremeu de medo à sua frente. Agora o frade não tremia, pelo contrário, estava confiante e cuspia suas palavras com eloqüência. Em seu último momento, Atahuallpa aceitou ser batizado, e após isto, foi enforcado.

Mas os espanhóis queimaram-no mesmo assim.

Mantiveram o bastante do corpo para que fosse enterrado, e Pizarro deu-lhe um enterro que, para os espanhóis, pareceu-lhes pomposo em excesso. Ouviu resmungos entre seus homens de que o índio “parecia o espanhol mais importante do acampamento”. O frade dominicano estava eufórico, e comentava com seus colegas de voto, que não tivera medo algum. E justificou:

– Eu sei que meu Deus é o verdadeiro e o deles apenas um ídolo.


Em homenagem à Bernard Cornwell

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NOTA HISTÓRICA

A intenção deste texto é emular a forma e o estilo do inglês Bernard Cornwell, mestre da aventura histórica, e não seria possível fazê-lo sem fazer uso de suas típicas notas históricas ao final do texto. Há um pequeno plágio que o leitor habituado em Cornwell irá identificar como uma das frases espirituosas de Merlin em O Rei do Inverno. Ela se faz presente no diálogo entre Atahuallpa e De Soto durante a partida de xadrez. A comparação do frade dominicano com um camundongo é uma referência ao bispo Sansum, o Lorde Camundongo, na mesma obra.
Os fatos aqui citados são verídicos, bem como quase todos os diálogos. Embora não se saiba com certeza porque Atahuallpa optou por encontrar os espanhóis completamente desarmado, seu erro costuma ser atribuído à crença que mantinha em sua própria superioridade numérica, intelectual e espiritual em relação aos seus oponentes, uma falha comum aos grandes líderes, independente da cultura.
A frase final que encerra o texto não é criação minha, tampouco foi proferida na época. Ela foi dita em 2004 pelo general norte-americano William Boykin, vice-subsecretário de Defesa dos EUA, referindo-se aos muçulmanos que combateu na África. Creio que serve para ilustrar o quanto o tempo passa, e o ser humano continua sendo inexoravelmente o mesmo.

 

SAMIR MACHADO DE MACHADO tem 23 anos e nasceu em Porto Alegre, RS, onde atualmente reside. É escritor, ilustrador e publicitário, formado em Publicidade e Propaganda pela PUCRS. Em 2005 terá publicado seu livro "A Lei da Espada".