Bem-estar

para Suzana Salles e Hilda Hilst


ganhei um beijo nos lábios e me levantei. Sou ostra que acaba de sair da concha.

limão.

desconheço por qual mecanismo passou o que há dentro de mim (espírito? psiquismo? alma? sentimento? consciência?) só sei que onde havia tempestade, há calmaria. Há uma sensação de total bem-estar onde só havia tormento e escuridão. Nada exteriormente aconteceu, não é engraçado?

meus reais e urgentes conflitos dormiram?

resignação.

pelos meus olhos, ouvidos, nariz e boca entraram os raios, o alimento, o som, o cheiro, o combustível que alumiaram o que há dentro? pelos mesmos buracos e mais alguns saíram os tormentos?

sinceramente não sei, ignoro.

viver vira o que, então? relacionar-se.

entender-se.

mas agora o momento é outro, livre de qualquer compreensão. Mergulho numa completa sensação de bem-estar: há vento nos cabelos, há delícias dentro da cabeça. Há o canto de Suzana Salles. A musicalidade de Suzana encaixa-se feito luva segurando as mãos dos deliciosos ambientes externo e interno. Temperatura agradável.

respiro. Na voz de Suzana há ludismo, leveza, alegria, dentro de mim também há.

há céu azul, sol e flocos de nuvens branquíssimas. Há azul dentro de mim também: na cabeça, no coração, na memória, na esperança...

mais: o vento no verde das folhas das árvores, os vôos dos pássaros (há aqueles que abrem as asas e “mergulham” no vento, são levados...)

eu também tento ser levado pela vida, pelo destino, pelos deuses. É assim mesmo, três verbos juntos (tentar, ser, levar) para traduzir um único e inerte substantivo: aceitação.

há cortinas de renda branca ventando para fora das janelas, há flor amarela numa árvore distante.

há a pele da palma da minha mão esquerda acariciando meu pescoço, minha nuca.

há tantos, mais, infinitos olhares. Janelas de mim. Janelas de meu corpo, de minha alma. Janelas prediletas, apuradas, amestradas.

não há cheiro nenhum.

há algo preenchendo os espaços vazios dentro da totalidade de meu ser. Há algo curando as dores, fechando as feridas, apagando as cicatrizes.

“... como se eu tocasse sozinho apenas um momento da partitura, mas o concerto todo onde está? Desperdícios sim, tentar compor o discurso sem saber do seu começo e do seu fim ou o porquê da necessidade de compor o discurso, o porquê de tentar situar-se, é como segurar o centro de uma corda sobre o abismo e nem saber como é que se foi parar ali, se vamos para a esquerda ou para a direita...” HILDA HILST

o tempo? o tempo é areia escorrendo dentro de um vidro: enrugando a pele, deteriorando os órgãos, afrouxando os músculos, corroendo os ossos. Eu sou o vidro.

WAGNER MANGUEIRA
, 39, é autor de A gaveta, Pó, Vamos passear na floresta? e Prata.