O Amolador de Facas

Era feriado. E o amolador de facas subia a rua vazia carregando sua gaita e seu trabalho. Rompia o silêncio com sua melodia, a única que sabia, para atrair a vizinhança que já conhecia a música de amolar facas. Muitos poderiam estar viajando. Outros tinham coisas melhores a fazer. Mas muitos ficavam em casa, preparando o almoço, e talvez notassem que suas facas precisavam ser amoladas.

Sem trânsito, tudo o que se ouvia era sua gaita. Não era vencida pelas buzinas nem pelo ronco dos carros. Não disputava com vendedores de pamonha, nem bombeiros, nem polícia, coisa nenhuma. Talvez apenas o canto dos pássaros acompanhasse o seu chamado, ou os cães ladrassem quando ele passasse. Mas, de qualquer maneira, ele não se importava. Fariam uma bela música juntos, naquela tarde de feriado.

Ele esperava que a programação de TV estivesse ruim. E que abaixassem o volume do rádio. Que não usassem a máquina de lavar roupas e preferissem o silêncio, o silêncio, para que ele pudesse ser escutado. Para ele executar seu solo, subindo a rua, acompanhado pelos cães e pelos pássaros. E a cada trinta segundos dava seu sopro em esperança. Esperava que alguma porta se abrisse.

Lá veio ela, a porta aberta, dona de casa, correndo até ele com a faca nas mãos. Não sorria nem reclamava. Séria, chegava perto o suficiente apenas para perguntar quanto era. Ele dava seu preço, ela estendia a faca. E ele percebia que havia algo triste nos olhos dela.

Moça bonita, deixando de ser jovem. Um pouco abatida, um pouco cansada, talvez cortando cebolas para o marido, preparando o almoço, esperando ele voltar. O vestido velho, manchado de molho. O esmalte descascando, desprendendo na fritura. E abaixo de seu olho esquerdo, uma pequena mancha roxa, um tapa?

Ele olhou fixamente, enquanto afiava a faca. Ela desviou o olhar. “O senhor vai afiar errado assim.” Não, ele já estava mais do que acostumado. Imaginava o que havia por trás daquele almoço, por trás daquela mancha, por trás daquele olhar. Um tapa do marido. Uma faca para se defender. Uma faca para atacar. Para morrer. Se suicidar. Precisava ser bem afiada, para atravessar a barriga. Precisava de um fio perfeito, para romper a jugular. Para cortar a cebola do almoço, para faze-la chorar.

Não era da sua conta. Ele terminou o serviço e entregou a faca brilhando. Ela agradeceu com um aceno, deixou o dinheiro em moedas e trancou-se de volta. Ele ficou lá, olhando para a porta, esperando um grito, um soluço, o cheiro da cebola frita. Então decidiu subir novamente pela rua. E tocar sua melodia.

Foram apenas mais alguns minutos, três assobios, e veio descendo em sua direção um moleque nos seus dezesseis anos. Vestia-se em farrapos, pele parda por trás dos buracos. Uma camiseta velha, uma calça rasgada, olheiras profundas e os braços longos, os braços longos apontando para ele.

“Ei, tio, tio, quanto é?” Estendia um canivete. O amolador receava que se tratasse de um assalto. Mas parou para responder, porque não poderia correr com seu equipamento. Deu seu preço. E o moleque entregou-lhe o canivete velho, gasto, usado em tantas aventuras ou, quem sabe, violências.

Pensou em perguntar para que o moleque precisava daquilo. Poderia apenas estar se defendendo de outros meninos. Talvez quisesse cortar frutas, matar gatos, caçar para comer. Poderia estar mesmo assaltando, ameaçando velhinhas, matando para comer. Não era da sua conta. E, de qualquer forma, não iria se arriscar a dizer não. A lâmina estava gasta, mas ainda era pontuda. O garoto era pobre, mas ainda podia pagar. E pagou. Tirou uma nota amarrotada do bolso e se foi com o canivete no bolso.

O amolador ficou lá, vendo ele descer a rua. Olhando para a nota que sobrara em sua mão. De onde viera? De quem ele a roubara? Quantas como aquela fizeram um canivete perder o fio? Com apenas uma, ele amolava. Não importava. Fazia o seu trabalho e subia a rua, tocando sua melodia.

Dois clientes em poucos minutos, ele tinha sorte, consolava a si mesmo. Continuava subindo, assobiando, esperando que todas as ruas fossem como aquela, repletas de paixões, assaltos, assassinatos, almoços sendo preparados.

Antes de chegar lá em cima, um carro parou ao seu lado. Desceu um senhor gordo e careca carregando um menino loiro no colo. O menino chorava. E o senhor pedia impacientemente para ele parar. “Senão corto sua língua”, ameaçou. O amolador achou aquilo uma maldade, mas não disse nada. Não sabia o que o menino havia aprontado.

Devia ter uns quatro anos, com cabelos cheios, cachinhos dourados. Os olhos azuis molhados e a boca vermelha também. O pai o segurava com braços fortes para segurar, braços fortes para proteger, braços fortes para castigar, para não deixar cair, para arremessar. Braços peludos, pêlos que envolviam o menino. Pêlos como sua barba, que envolviam a boca, que mandava o menino se calar, que cuspiam sobre o cabelo loiro.

A careca do pai virou-se para o amolador, “vocês amolam tesouras?” Vocês quem? O amolador era apenas um. Aceitaria o plural corporativo e assumiria a responsabilidade dos cachos cortados? Assumiria a responsabilidade pela língua de fora? Talvez fosse inveja dos cachos. O pai queria cortá-los. Por isso o menino chorava. Por isso o pai lhe cortaria a língua. Talvez cortasse até algo mais, como saberia? Não sabia se ele era mesmo o pai. Mas não era da sua conta perguntar. Seu trabalho era apenas amolar. Facas, canivetes, o que quer que fosse, “amolamos”. E recebeu a tesoura do senhor careca.

O menino chorava mais baixo. Talvez com medo da língua. Talvez com medo da tesoura, do amolador, dos cachos cortados. Talvez apenas timidez de um estranho, amolando, ou curiosidade para ver seu trabalho. Era uma tesoura grande e velha, “de família?” arriscou o amolador. O careca respondeu afirmativamente. Quem sabe não vinha de uma grande família de barbeiros? Quem sabe seu próprio pai não lhe tivesse cortado o cabelo? Seu próprio pai o havia deixado careca, e agora ele descontava nos cachos do filho. “Prontinho.”

O senhor pegou a tesoura e entrou numa das casas. Pegou a tesoura com a mesma mão que segurava o filho, que perigo. E se tropeçasse e caísse, quem contaria sua história? O afiador achou melhor seguir mesmo rua acima. Já estava quase no topo. E havia recebido três clientes em poucos minutos. Continuou na mesma direção, na mesma melodia.

Lá em cima era uma avenida. Carros, ônibus e polícia. Nenhuma casa para preparar o almoço. Nenhuma dona para matar o marido. Sem moleques para assaltar os pedestres, nem pais carregando seus filhos. Sem cachos loiros. Sem tesouras de família. Ele teria de pegar um outro caminho ou voltar para casa. Chega de trabalho pelo feriado.

Mas antes de terminar, encontrou uma velhinha. Ela virou a esquina e deu de encontro a ele. Sorriso simpático e bochechas rosadas. Lenço na cabeça e as costas curvadas. Carregava, adivinhe, uma foice na mão. E sorriu ao ver o amolador tocando a sua canção.

“Ouvi sua música de longe, estava te procurando. Que sorte que te encontrei a tempo. Pode amolar minha foice?”

E o amolador mais uma vez olhou para ela e imaginou tudo o que ela poderia... Imaginou o que ela desejava com aquela foice afiada. Descendo a rua. Passando por aquelas casas. Preparando o almoço, esperando o marido, se defendendo de assaltantes, cortando o cabelo do filho. Não importava...

Fez seu trabalho e contou as moedas. Mais um cliente, antes de terminar o dia. Nem olhou para trás, para ver a velhinha descendo. Nem se preocupou com metáforas gastas, personificações afiadas, metonímias amoladas. Chegou ao topo daquele feriado com dinheiro no bolso. Chegou ao final da rua com o dever cumprido, tocando a mesma melodia.

SANTIAGO NAZARIAN é paulista, 27 anos, autor dos romance Olívio, A Morte sem Nome e Feriado de Mim Mesmo. É co-autor de Parati para Mim.