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A elaboração do conflito
estético
em um conto de Clarice Lispector
Juarez Cruz
1
Os exageros cometidos nos inícios da psicanálise — quando os
psicanalistas, ao pretenderem ‘analisar’ uma obra de arte,
estendiam seu exame a particularidades da vida do artista — deram
origem a uma forte rejeição, traduzida na postura de negar à
psicanálise qualquer valor na apreensão das manifestações
estéticas. Entretanto, uma abordagem mais moderada, de parte a
parte, permite reconhecer que, se por um lado, conflitos não são
suficientes para dar origem a um texto, também é certo que o
entendimento psicanalítico da emoção presente nas origens da obra
e na escolha do tema contribui para a compreensão do trabalho
literário e da criatividade. Assim como não fabricamos
deliberadamente um sonho, também não produzimos deliberadamente
um texto. As obsessões de Poe, por exemplo, estão presentes nos
seus poemas e contos, mesmo que depois, tal como descreve na
‘Filosofia da Composição’, ele use os artifícios do bom escritor
para tornar o texto atraente. O que o sujeito escreve, o que
sonha, é inseparável de seu íntimo. Contar o sonho, escrever o
conto, já é um processo técnico, não mais tomado pelo afeto, mas
regido por leis da composição. Mas ter sonhado, ter tido a visão
inicial do tema de um conto (entre uma multidão de outros temas)
é inseparável do inconsciente. Então, se não se pode ficar no
pólo de que o vértice psicanalítico é a compreensão do texto,
também não convém situar-se no outro extremo de que a visão do
psicanalista não tem com o que contribuir. Partindo dessas
premissas, podemos afirmar que literatura e psicanálise têm, sim,
o que dizer uma à outra.
No presente texto, pretendo ilustrar tal postura de integração,
realizando uma breve abordagem psicanalítica do conto ‘Os laços
de família’, de Clarice Lispector. Não no sentido caricatural de
‘analisar o escritor’, mas partindo do pressuposto de que o
conflito é um dos componentes do fazer literário. Nesse ponto,
torna-se importante esclarecer: quando falo em conflito, estou me
referindo não só ao conflito psíquico. Incluo, nesta abordagem, o
conflito estético conforme conceituado por Meltzer: há ocasiões
em que os acontecimentos à nossa volta nos inundam de estímulos
tão poderosos que ficamos abismados com o contraste entre a
beleza externa dos seres e coisas do mundo e o mistério de sua
natureza íntima. Frente a essa vivência temos duas alternativas:
ou atrofiar nossa sensibilidade e adotar uma posição
antiestética, de desvalorização do outro, alegando já ‘saber’ o
que existe na sua intimidade ou desenvolver a mente estética e
elaborar, através da arte, imaginações a respeito de sua
maravilhosa e incognoscível essência. E Clarice Lispector tem
muito a nos ensinar com relação a essa segunda postura.
2
O que acontece no conto ‘Os laços de família’? Uma mulher,
Catarina, depois de ter hospedado durante alguns dias Severina,
sua mãe, leva-a, em um táxi, até a estação ferroviária. A mãe
fica contando e recontando as malas que compõem sua bagagem,
nunca se convencendo de que todas estejam no automóvel. Catarina
assiste, de modo crítico, a esse obsessivo ritual. Além disso,
está incomodada com os comentários que a mãe fez com relação ao
seu neto, filho de Catarina. Severina acha-o magro e nervoso e
acusa a filha pelo estado do menino. No conto é descrito o
embaraçoso itinerário até a estação e de como ambas, mãe e filha,
parecem já não ter o que conversar. É quando algo inesperado
ocorre: uma freada súbita do táxi lança uma contra a outra:
“Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha...de fato sucedera
alguma coisa...: Catarina fora lançada contra Severina, numa
intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do tempo em que se
tem pai e mãe”. Depois disso, mãe e filha, perturbadas por esse
inesperado acontecimento, só voltam a olhar-se quando as malas
são colocadas no vagão. Quando o trem começa a movimentar-se, a
mãe ainda pergunta: “Não esqueci de nada?(...) Também a Catarina
parecia que haviam esquecido de alguma coisa, e ambas se olhavam
atônitas (...) Que coisa tinham esquecido de dizer uma a
outra?... Parecia-lhe que deveriam um dia ter dito assim: sou tua
mãe, Catarina. E ela deveria ter respondido: e eu sou tua filha”.
A partir desse momento do conto, Catarina sofre uma
transformação: no meio da fumaça “...começou a caminhar de volta,
as sobrancelhas franzidas, e nos olhos a malícia dos estrábicos.
(...) de tal modo haviam-se disposto as coisas que o amor
doloroso lhe pareceu a felicidade - tudo estava tão vivo e tenro
ao redor, a rua suja, os velhos bondes, cascas de laranja - a
força fluía e refluía no seu coração com pesada riqueza.(...)
Espiava as pessoas com insistência, procurando fixar naquelas
figuras mutáveis seu prazer ainda úmido de lágrimas pela mãe”.
É tomada por tais sentimentos que Catarina chega em casa.
Encontra o marido lendo e o filho, uma criança autista, mexendo,
“exato e distante” em uma toalha molhada. Catarina, irritada,
puxa-lhe a toalha das mãos e, pela primeira vez, o menino
protesta: “...mamãe, disse o menino. Catarina voltou-se rápida.
Era a primeira vez que ele dizia "mamãe” (...) A mulher...
perguntou-se a quem poderia contar o que sucedera, mas não
encontrou ninguém que entendesse o que ela não pudesse explicar.
(...) Talvez pudesse contar, se mudasse a forma. Contaria que o
filho dissera: mamãe, quem é Deus? Não, talvez: mamãe, menino
quer Deus. ... Só em símbolos a verdade caberia (...) riu de fato
para o menino, não só com os olhos: o corpo todo riu quebrado,
quebrado um invólucro...”.
Entendo essa passagem como a criação de uma possibilidade, em
Catarina, a partir da aproximação com sua mãe, de aproximar-se do
próprio filho. De compreender que, para um menino pequeno, a mãe
tem uma dimensão divina. Bela e onipotente. Inalcançável no
mistério de sua intimidade. Catarina consegue, agora, quebrar a
barreira que a separa do filho. Pega-o pela mão e leva-o a
passear, ignorando os possíveis protestos do marido que ficará só
e gripado em sua tarde de sábado.
A partir daí, acontece uma mudança no foco narrativo: é o marido,
Antônio, que surpreendido pela inesperada atitude da mulher, vai
até a janela do apartamento observá-la enquanto ela caminha
levando o filho pela mão. Ao vê-los, pensa sobre o casamento,
sobre os mistérios de sua mulher e indaga-se a respeito do que
houvera com ela desde a partida da mãe. Preocupa-se a respeito do
que acontecerá nessa caminhada, nessa intimidade partilhada entre
mãe e filho. Ocorre-lhe o inquietante pensamento de que Catarina
está fugindo dele, do apartamento bem arrumado, dessa relação
tranqüila, mas por vezes humilhante para ela. Consola-se com a
esperança de que ela voltará dentro de algum tempo, de que virá a
noite e que este dia, inquietante, terminará como “ondas nos
rochedos do Arpoador”. De alguma forma, Antônio intui a revolução
que está acontecendo na vida de sua mulher a partir da despedida
da mãe. E tem medo disso.
3
É naturalmente falho qualquer resumo desse conto, onde cada
palavra se encontra onde e quando não caberia outra palavra. Só a
leitura direta do mesmo fará justiça à intensidade de sua
construção. Mas penso ter sugerido a força do fato aparentemente
banal: a freada do táxi, mãe e filha chocando-se dentro do carro,
a recuperação de parte de uma intimidade perdida com o nascimento
e o desmame.
De modo intuitivo e sensível, Clarice está nos falando de uma
vivência de intensa emoção estética, capaz de transformar a vida
de uma pessoa e que é tão bem descrita por Meltzer: a criança, ao
nascer, emerge de uma sensação de unidade com a mãe. Desse
sentimento de fusão ela é jogada num mundo estranho onde tem que
fazer força para respirar e alimentar-se. O paraíso perdido foi
perdido para sempre. Nunca mais, depois de adultos, a não ser em
raros momentos, a sensação de completude, de sermos um só com o
universo que nos cerca. Vários contos de Clarice descrevem esses
momentos fugazes que serão recordados como preciosidades por toda
a vida. Tais instantes são tão intensos por sua beleza e
abrangência que possuem todo um potencial de transformação do
sujeito. Penso que esse é um dos fascínios da literatura de
Clarice: ela nos põe, de volta, em harmonia com o universo a
partir de vivências de êxtase, ou seja, de plenitude de contato
com a beleza da vida em suas mínimas manifestações. Em ‘Amor’, é
a visão de um ceguinho mascando chiclete e sorrindo que coloca a
dona de casa em contato com o que essencial em sua própria
existência. Na novela ‘A paixão segundo G. H. ’, o mesmo
sentimento é provocado pela visão de uma barata no quarto da
empregada. No conto ‘Feliz aniversário’, a cuspida que, durante a
festa de seus noventa anos, a anciã dá na frente dos convidados.
Os exemplos se multiplicam. Em ‘Os laços de família’, mãe e filha
chocando-se dentro do carro, recuperando parte de uma intimidade
perdida e isso desencadeando uma reviravolta na vida de Catarina.
Nada mais impediria “...que essa pequena mulher que andava
rolando os quadris subisse mais um degrau misterioso nos seus
dias...disposta a usufruir da largueza do mundo inteiro, caminho
aberto pela sua mãe que lhe ardia no peito”.
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