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Anima Absente
A chuva batia forte na vidraça. Com a mesma força que a depressão
bateu fundo naquele corpo esquecido no tapete da sala. Mais um
dia inútil. Sábado ou domingo? Não importa. Não faz diferença. A
solidão não respeita calendário. Três porres consecutivos o
trouxeram até aquele instante, quando a chuva lá fora fazia o
barulho de noite em pranto. Os olhos abertos no esforço dos
músculos cansados não viram muitas perspectivas. Nada mudou além
da ausente euforia do álcool. Beber mais então. É esse o segredo.
Levantar do chão e buscar mais um pouco de alívio no bar da sala.
Aquele ali em frente, na sua estante de mogno maciço. Firme,
sóbria, vermelha, vazia. Onde o bar é um buraco. Uma cova. Um
vestíbulo para abrigar o único conteúdo da estante: as garrafas
de vodka. Arrumadas com mórbido esmero. Até parecem urnas de
lágrimas. Mas não, não é nada disso. É álcool mesmo. Puro
destilado para ser sorvido assim ou diluído em outros líquidos de
ilusão. Mas tudo, sempre, misturado às angústias dessa vida sem
sentido. Fosse aquela casa um lar e essa velha senhora de mogno
teria inquilinos mais nobres habitando suas entranhas. Nelas
talvez estivessem guardadas as baixelas, as travessas, as taças e
todas as pistas de uma união feliz. Ele reage. Não quer esse
pensamento de merda. Nem essa porra de idéia de família. Ele quer
que as uniões felizes se danem. E as infelizes também. Quer que
se dane a árvore de natal, o papai noel, o coelhinho da páscoa, o
dia dos pais, o das mães, tudo. Que vão pra casa do cacete. Quem
precisa disso pra viver? Quem precisa ter a casa compartilhada? A
cama aquecida? A mesa servida? O motivo pra voltar no horário?
Quem precisa disso? Quem? Ele não! Ele precisa é se levantar dali
e saber que dia é hoje. A chuva ele sabe que está aí, batendo na
janela. Mas será que chegou agora ou já chama faz tempo? Psiu!
Ele quer parar de pensar. Quer ouvir o mundo ao seu redor. Buscar
uma referência qualquer. Viu? A TV do vizinho não está ligada.
Merda! Não vai dar pra identificar o dia nem a hora pela
programação. Vai ver ele voltou de madrugada e todos ainda
dormem. É, talvez. Mas o vizinho pode ter saído com a família
para comer uma pizza. E daí? Que morra o vinho, também. Dane-se,
dane-se, dane-se. Ele não quer mais pensar. Não quer mais falar
sem voz. Não quer mais ouvir sem som. Não quer mais saber. Quer
ficar ali enquanto seu corpo não dói. Enquanto sua alma não
volta. Mas aonde andará aquela alma de merda? Será que existe? Ou
será que ele é mais uma experiência divina? Alguém que purga suas
culpas pela absolvição final? Um corpo sem alma. Um monte de
carne em decomposição. Um ser sem espírito. Anima absente. Mas
olha só isso! Ele ainda sabe latim. Ainda lembra o que aprendeu.
É... na sua época todos estudavam latim. Besteira das grandes. Já
era uma língua morta imposta à gente viva. Como ele sempre esteve
fadado a ser. Não quer lembrar disso. Nem de nada do seu passado.
Quer não ser e pronto. Por que ele não pode ser um vegetal? Ou
uma planta de plástico? Um arranjo falso de samambaias choronas.
Caído ele já vive mesmo. Bastava que alguém o esquecesse em um
canto até cansar. E depois que enchesse o saco da patética visão,
socasse numa sacola plástica de supermercado e jogasse fora. Ou
simplesmente deixasse inteiro, junto ao lixo da calçada, na
esperança de que outra pessoa menos farta enxergasse proveito e
levasse consigo, pra vender ou usar, repetindo o ciclo do
descarte. Mas que pensamento de merda! Descartar o descartável.
Coisa redundante. O que há com ele? O que pretende com tantas
metáforas? Forçar a mente a trabalhar? Empurrar o cérebro pra ver
se pega no tranco? Não adianta nada disso. O álcool já corroeu
seus neurônios. Boa parte deles já morreu. Apenas os viciados
sobrevivem. E esses não gastam energia com sandices. Guardam
forças para tentar comandar a sua carcaça até a cova das ilusões.
O buraco vermelho da estante de mogno. Aquela ali diante dele.
Com seu estúpido ar solene de censura. Vermelha como uma
governanta alemã. Nazista. Tem cara de Frida. É, Frida.
Governanta alemã se chama Frida. Todas. Até as que têm nome de
Gertrudes. Essas também se chamam Fridas, se forem governantas.
Fridas frias. Vermelhas velhacas. Germanas gelatinosas. Donas
dogmáticas. Filhas da puta. Todas iguais à cadela velha que
atormentou a sua infância. Infame. Aquela figura implacável que
gritava para pedir silêncio. Que fazia descer a colher de pau na
palma da sua mão. Que tapava a ausência dos seus pais como uma
obturação de dente mal feita. Adorava fazer doer. Feria com os
olhos. Asquerosa presença. Nossa senhora das punições. Já deve
ter morrido a desgraçada. Reencarnou estante. Está bem aí na
frente dele, assombrando a sua sala. Desafiando. Quebrando
ímpetos. Viva de novo. Ah... chega disso. Chega. Chega. Isso só
serve para fazer a cabeça dele doer mais ainda. Pra tirar sua
atenção do objetivo de tentar sustentar as pernas até o bar.
Vamos lá, seu merda. Concentre-se. Tem vodka logo ali adiante.
Sedativo suficiente para anestesiar a realidade. Garrafinhas de
oxigênio líquido para um novo mergulho na escuridão oceânica da
fuga fácil. Beber e apagar. Apagar e ficar em paz. Dormir e
morrer com a possibilidade de voltar um pouco mais morto. Depois
é sempre pior. Durante é bom. As coisas são boas. As imagens são
boas. Até as lembranças são boas, mesmo sendo falsas. Outra
redundância. Irrita-se por dar voltas em círculos. Sente-se
imbecil. Um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Sonhos são
mesmo irreais, porra. São apenas estímulos para que as pessoas
saiam da cama e enfrentem um novo dia massacrante. Elas acordam e
vão pra rua com a sensação gostosa do sonho. Como se todas
aquelas imagens que suas almas plantaram em suas consciências
fossem reais. Recompensas projetadas. Ele volta a se questionar:
se a sua alma está ausente, como ele pode sonhar? Como pode
lembrar das boas coisas que ele vive quando apaga? E que
recompensa ele mereceria, se dorme de bêbado? Então os sonhos não
dependem da alma? Ele está se sentindo muito confuso. Isso ainda
vai deixa-lo maluco. Puta merda, lá vem o enjôo. Essa seqüência
alucinada de pensamentos maltrata o seu estômago. Funciona no seu
corpo como o primeiro mergulho de uma montanha-russa. Joga tudo
pra cima, enquanto você despenca. Ele sente as entranhas fazendo
ondas. Se pudesse se mexer, ficaria em posição fetal. Então
compara o movimento das suas vísceras com as torcidas de futebol.
O estádio lotado. Todos levantando e abaixando em sincronia.
Fazendo uma grande onda que vai e volta pelas arquibancadas.
Estúpida demonstração de alegria. Ignorâncias subjugadas. Massa
conduzida. Muito circo na ausência do pão. Cordeiros de Deus.
Desses que purgam os pecados do mundo, sem a piedade de nós.
Ah... lá vai ele outra vez. Chega de pensar! Se tivesse um
revólver ali arrebentaria os miolos. Ele não agüenta mais isso.
Mas então por que não se move? Por que permanece estático como um
bibelô tombado? Ele não consegue. Talvez seja por causa daquela
estante vermelha. Mogno natural. Maciço. Já foi árvore a infeliz.
Já teve galhos, folhas e vida frondosa. Já habitou uma floresta.
Mas agora está aqui, com as raízes plantadas na sua sala. Expondo
o brilho encantado das garrafas de vodka. Atraindo como uma
planta carnívora o seu inseto predileto. É isso. Ela quer
devora-lo. A estante é a besta. Usa a vodka de isca. Agora está
tudo tão cristalino quanto o líquido das garrafas. É uma
armadilha. Um jogo de presa e predador. Estão parados frente a
frente. Olhos nos olhos. Músculos retesados em posição de ataque.
Ou de defesa. Quem sabe? Um movimento a frente, um passo em falso
e os destinos se definem. Vencedor e vencido. Mas que babaquice!
É só uma estante, porra! E ele é só um bêbado recém-saído das
trevas, ainda sob o efeito delirante do álcool. Deve estar
horrível de se ver. Talvez tenha até urinado nas calças, sem
sentir. Incontinente. Incompetente. Inconsistente. Inconcebível.
Imbecil. Ai, lá vem vômito. Que sensação horrível. Ácido quente
lacerando tudo: estômago, garganta, nariz. Ele sente que o ar
está fugindo. Aspira tudo que expeliu, na tentativa desesperada
de respirar. Engasga. Tosse. Vomita mais um pouco dessa coisa
incandescente que seu estômago produz. É um ciclo vicioso. O
cheiro do que sai produz a náusea. A náusea comprime o estômago.
O estômago empurra goela acima as suas podridões. As podridões
trazem ao mundo o seu cheiro de morte. Isso afeta as narinas,
provocando mais náusea. Não tem saída: ou vira a cabeça, ou morre
afogado. Ele tem que levantar. Precisa se livrar daquela areia
movediça. Tem que reagir. Concentra-se nas pernas. Força um
movimento. Sente uma dor lancinante. Ai! Ele nota que o grito
saiu tremido. Percebe que são os restos de vômito na garganta que
provocaram o gargarejo. Essa descoberta faz a náusea voltar
forte. Ele precisa virar a cabeça para o outro lado. Esteve
inerte por muito tempo. Seus músculos emperraram. Corpo de merda.
Não presta pra nada, porra! Vamos lá, sua cabeça de bosta. Vira!
Anda logo. Anda porra. O vômito já vem subindo de novo. Ai!
Gargarejou outra vez. Mas conseguiu despejar o vômito no outro
lado. Ele precisa sair dali. Talvez consiga, rolando o corpo até
a estante. A porra da estante de novo. Agora ressurge como
salvadora da pátria, a filha da puta. Mas é uma saída. Rolar até
lá e tentar mover os braços pra cima. Depois se apoiar nela e
puxar o corpo do chão. Ele se lembra das aulas de física. Está
preste a usar na prática o princípio das alavancas. Quem diria
que aquelas aulas de serviriam para alguma coisa. Chega de
conversa e role. Vamos lá, sacuda o corpo pra cá e depois pra lá.
Pra cá e pra lá. Até sentir que um impulso baste para faze-lo
girar. Um, dois, um, dois, um dois e vai. Virou de cara no
vômito. Puta merda. Esqueceu a merda do vômito. Ele não pode
parar ali. Tem que rolar de novo. Comprime os lábios para não
engolir a imundice. Um, dois, um, dois, um, dois e vai. Virou de
novo. Ele precisa descansar agora. Mas não por muito tempo. O
sangue está esquentando. Já faz a dor perder a importância. Ele
só vai tomar fôlego para continuar rolando. Ela está próxima. Bem
próxima. Ele já pode perceber o vulto vermelho no canto do olhar.
Vamos lá. Um, dois, um dois e vai. Outra vez. Um, dois, um dois.
Um dois e vai! Pronto, ela está ali. Bem ali nas costas dele. Ele
está molhado de suor. Não sabe se pelo esforço ou pela
abstinência. Se levantar ainda ganha a vodka. Não consegue mais
vê-las. Mas sabe que elas estão bem ali em cima. No buraco
vermelho de Frida. Um tremor percorre o seu corpo. Que lembrança
horrível. A casa vazia de sempre. O corredor a meia-luz. A porta
entreaberta. A voz arfante chegando aos poucos. O atrevimento de
olhar pela fresta. Curiosidade de menino. O espanto pela cena
estranha. O grande buraco vermelho de Frida sendo preenchido por
uma garrafa. A vodka preferida do seu pai. Achou aquela
esquisitice engraçada. Riu sem maldade. Chamou a atenção. Pagou
caro pelo resto da vida. Ainda paga. Ainda paga muito caro por
ter achado graça dos instintos de Frida. Ele aperta os olhos para
desfazer a visão. O tremor do seu corpo aumenta. O suor também.
Agora tem certeza que são os efeitos da falta de álcool. Precisa
levantar. Logo. Força o braço que está mais próximo à estante.
Ele se move relutante, como um graveto verde sacudido pelo vento.
Sente o contato com a madeira. Busca apoio com os dedos. Encontra
uma prateleira saliente. Segura firme. Tão firme quanto a sua mão
consegue ser. Imagina os nós dos seus dedos esbranquiçados pelo
esforço. Chega! Agora não é hora de pensar, porra. Coloca todo o
seu esforço naquele braço. Puxa a estante para si. O ângulo entre
o braço e a prateleira ajuda a pouca força. O princípio das
alavancas está correto. Funciona na prática. O corpo se ergue aos
poucos. Vai progredindo lentamente. Agora já está sentado. Suas
costas sentem a pressão dos pegadores de madeira. Verrugas duras
na barriga de Frida. Vamos lá. Ele não pode ficar pensando à-toa.
Precisa prosseguir. Virar o corpo e ficar frente pra ela. Ele
desce o braço que trabalhou sozinho. Transfere a força para o que
permaneceu inerte. Consegue fazer com que se mova por cima do seu
ombro. Encontra apoio, firma, força e vira o corpo. Levanta agora
o outro braço e puxa o corpo pra cima, até ficar de joelhos. De
joelhos diante de Frida, como antes. Se levantar os olhos, vai
conseguir ver o seu grande buraco vermelho. Não! Ele não vai ver.
Ele não quer ver. Quer espantar a visão asquerosa. Da
cumplicidade obrigada. Do castigo de permanecer ali, de joelhos
aos pés de Frida. Vendo incrédulo a garrafa de vodka entrando e
saindo daquela gruta vermelha no meio das suas pernas
gelatinosas. Ele bate a cabeça na estante. Uma, duas, três vezes.
Até a visão sumir. Concentra suas forças no braço que está caído.
Consegue que ele fique ao lado do outro. Agora se apóia nos dois.
Suas mãos estão juntas e erguidas. Ele de joelhos aos pés de
Frida. Suplicante. Sempre foi assim. Descansa por algum tempo
para recobrar as forças. Depois bota todo o peso do corpo nos
braços. Quer ficar de pé. A estante cede. Balança pra frente. Ele
lembra que ela está vazia. Só tem as garrafas de vodka, que
começam a tilintar. Ele tenta se equilibrar. A estante se projeta
para frente. As garrafas de vodka caem. Espatifam no chão. Que
merda! Ele larga as mãos e cai pra trás. De costas. De frente pra
a estante. Aquela estante grande e vermelha que vem se projetando
sobre ele. Que começa a arfar e rir de forma desavergonhada. Que
se transforma na imagem de Frida totalmente despida. Que abre os
gordos braços enquanto vem caindo sobre o seu corpo. Ele sente o
fedor do vômito misturado ao perfume da vodka. Era mesmo uma
armadilha. Ela já havia roubado a sua alma. Agora veio cobrar o
corpo.
KINHO VAZ, carioca, publicitário, 44 anos.Escreve desde a
adolescência, embora nunca tenha publicado nenhum livro. Colabora
com alguns sites de literatura, como a Arte da Palavra, Templo
XV, Nave da Palavra e Garganta da Serpente. Teve o conto “Úteros
de Carpete” classificado através de concurso em todo o Brasil,
para participar da Antologia “Além da Palavra” – publicado pela
Editora Litteris.
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