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A quarentena
Christopher Armstrong era magro. Mas, como diz seu nome, não era
fraco. Um tipo, digamos, seco. Seu rosto não parecia ter carne,
mas apenas uma pele espessa posta diretamente sobre os ossos. O
que tornava os olhos saltados, grandes olhos azuis sobre um nariz
fino. Os cabelos cinzas cortados rente. Olhava firmemente seu
interlocutor, como se o avaliando, mais do que ouvindo, mas sem
parecer distraído ou ameaçador. Jamais respondia a qualquer
pergunta sobre si mesmo, sem ser mal educado, apenas desviando
firmemente o assunto com outra pergunta qualquer. Na véspera de
sua partida, convidou-me para tomar um uísque. Fazia comparações
entre o Caribe e a África, e a certa altura disse-me que fora a
vida inteira um mercenário.
Não que gostasse de matar pessoas, pois, neste caso, seria
simplesmente um assassino, “o que dá bem menos trabalho e impõe
muito menos riscos”. Mas nunca soubera fazer outra coisa senão
lutar, e desde que dera baixa das forças especiais, não conseguia
conviver com “a vida tediosa dos cidadãos decentes”. Poderia ir
para Montana ou o Alasca com uma mulher que o amasse, vivendo num
lugar de grandes amplidões onde a vida ainda fosse relativamente
dura, mas jamais encontrou essa mulher. Então continuou a lutar,
com um pequeno grupo de camaradas que se dispersavam um tanto a
esmo entre cada serviço, e voltavam a se juntar para o próximo.
Gostava da África e dos africanos, mas não dos governantes
africanos, e portanto não via problema em ganhar algum dinheiro
para “trocar um filho da puta por outro”. Quando lhe perguntei
sobre os massacres de civis que ritualmente acompanham cada
movimento militar no continente, respondeu que isso era entre os
africanos.
Fora capturado e torturado algumas vezes, e ferido outras tantas.
Amara uma mulher de certa tribo que lutava então com seus homens,
e que por isso foi morta por um guerreiro a quem tinha sido
prometida. A miséria humana na África não podia ser imaginada,
mas, ao mesmo tempo, a vida ali ainda tinha um sentido que
perdera em outros lugares. O sentido da tragédia, arrisquei. Ele
continuou afirmando que já ouvira muitos idiotas glamourizar a
vida primitiva, que aliás quase não existia mais, mas o fato é
que não conseguia compreender. Era o que mais o angustiava, saber
dessa miséria literalmente indescritível e desse sentido vital, e
não poder estabelecer entre eles uma relação de causa e efeito,
nem tampouco anular qualquer termo da equação.
Algo semelhante acontecia com a mulher que o acompanhava, uma
loira muito alta chamada Liz: deitada ao nosso lado numa
espreguiçadeira, à beira de uma piscina vazia, seu azul compacto
quase solidificado pela inércia, enquanto lentamente amanhecia,
acompanhava a conversa e o esvaziar da garrafa de uísque sobre a
mesinha branca parecendo ter um interesse genuíno pelo homem,
enquanto não conseguia abandonar de todo certa indiferença de
profissional. Eu notara, em todo caso, que Christopher Armstrong,
sem ser bonito, ou mesmo jovem, atraía especialmente os olhares
femininos. Era algo em sua segurança natural, muito distinta da
segurança epidérmica dos ricos, que desaba sob a menor
adversidade, e na simplicidade elegante das roupas, uma calça
preta e uma camisa branca, sem que se pudesse adivinhar sua
riqueza, origem ou profissão.
Não me surpreendi ao perceber que não ficava bêbado. Parecia, ao
contrário, cada vez mais lúcido, de uma lucidez irônica. Dizia
que não desejava estar vivo daqui a alguns anos, porque “as
coisas iriam esquentar”. O problema, dizia, é que desde o fim da
Guerra Fria “as coisas” foram escapando das mãos dos
profissionais para as dos malucos. Havia uma guerra civil no
islã, e não “essa porcaria de guerra de civilizações”, mesmo
porque a guerra de civilizações já tinha acontecido: a história
não tinha sido outra coisa nos últimos séculos, e o Ocidente, que
a iniciara, vencera. Mas parecia não se dar conta inteiramente de
que vencera. Ou então estava cansado de vencer, o que é o mesmo
que estar cansado de lutar, com exceção dos EUA. E o fato de a
velha Europa nem seguir os EUA nem ter força ou vontade para
impor outro caminho servia apenas para prolongar a guerra. A
guerra civil islâmica era, de certa forma, uma guerra mundial,
mas, ao mesmo tempo, uma guerra interna: em suma, uma guerra
interna mas não hermética. Tudo isso faria o mundo “ficar
esquisito” por muito tempo, como se francamente em guerra, apesar
de esta não ser uma guerra franca. Fora-se para sempre o tempo
das viagens despreocupadas pelo mundo, que serviam para ele e
seus camaradas se diluírem entre os turistas. O mundo, concluiu,
era agora uma quarentena, um arquipélago de quarentenas, fazendo
com que se tivesse de ser examinado a cada deslocamento, e
eventualmente observado dentro de casa. E essa quarentena não
terminaria em algumas semanas.
Ele então virou um grande gole de uísque e perguntou a Liz, que
parecia cochilar de olhos abertos, se não gostaria de viver em
Montana. Liz era tcheca, e não especialmente dotada em geografia,
pudemos perceber. “Onde é isso?”. Armstrong lhe disse ser onde
antigamente viviam os índios, e onde hoje moravam alguns homens
que não gostavam muito da vida nas cidades. Ao que ela respondeu
que poderia muito bem viver numa grande casa de campo com
piscina. Ele deu um quase sorriso, esvaziou o copo, ficou
lentamente de pé e me estendeu a mão. Pôs delicadamente um braço
na cintura de Liz enquanto caminhavam em direção ao bangalô.
LUIS DOLHNIKOFF, poeta paulistano, publicou seu primeiro
livro, Impreciso Emigrar, em 79 (SP, Massao Ohno, em colaboração
com Paulo Rosenbaum). Em 86, com prefácio de Paulo Leminski,
vieram a lume os poemas de Pãnico, pela Timbre-Expressão.
Impressões digitais (poesia coligida) foi editado em 90 pela
Olavobras, editora que fundou com Marcelo Tápia e por onde foram
lançados também seu livro de contos Os homens de ferro (90) e o
poemário Microcosmo (91).
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